Augusto Diniz
Augusto Diniz

Sem respeitar democracia, Bolsonaro flerta com autoritarismo messiânico

Em texto enviado por WhatsApp, presidente evidencia que o que menos importa para o eleito pelo PSL é a República, mas sim a imagem de um escolhido por Deus para mandar livre de vozes contrárias ou diálogo

Jair Bolsonaro arminha criança Goiânia 2018 - Foto Reprodução YouTube

Bolsonaro se apoia em conteúdo que ataca Legislativo e Judiciário como entrave à sua gestão e adota para si definição de pastor congolês que viu no presidente brasileiro a representação do escolhido pelo Deus cristão para salvar o País | Foto: Reprodução/YouTube

O presidente Jair Messias Bolsonaro (PSL) tem acreditado cada vez mais em seu segundo nome como um indício de que teria tudo para ir além de uma escolha na hora de ter seu registro feito no cartório após o nascimento. Desde o discurso da vitória nas eleições de outubro de 2018, o presidente da República adota dois tons a depender do público com o qual se comunica. Oficialmente, diante de repórteres e veículos de comunicação, deixa escapar preconceitos e manias, mas tenta transparecer um ar de respeito às instituições democráticas e constitucionais do País.

Quando vai para as redes sociais, seu reduto preferido, onde está cercado por apoiadores que resolveram chamar de comunista até membros do partido de Bolsonaro que criticam um ação que seja do presidente, o chefe do Executivo age como um animador de torcida. Mas ultrapassa o líder de uma militância organizada e orquestrada para realizar ataques virtuais. Adota tom populista que beira o messianismo. Até o slogan de campanha, ‘Brasil acima de tudo e Deus acima de todos”, que havia perdido espaço para o “Pátria amada Brasil”, retirado da letra do hino nacional para identificar seu governo oficialmente, volta a ter seu uso intensificado, inclusive em viagens internacionais.

Enquanto o governo movimentava as redes mais reacionárias e extremistas do bolsonarismo numa tentativa de resposta nas ruas às manifestações de 15 de maio contra o contingenciamento de 30% nos recursos da educação superior no Brasil e bloqueio de verba do ensino básico, pautas como o fechamento e a invasão do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF) se tornaram as grandes bandeiras para convocar os apoiadores a irem às ruas hoje em diversas cidades do País.

Em seguida, Bolsonaro compartilha um texto no WhatsApp com ataques a uma espécie de corja que deveria ser extirpada da política e da Justiça nacional para deixar o grande líder, ele – o presidente da República -, governar e salvar o Brasil. O conteúdo mais do que apelativo e antidemocrático da mensagem se uniu ao vídeo de um pastor congolês, que deu um depoimento ao canal Super com o entendimento de que o chefe do Executivo brasileiro seria um enviado de Deus na Terra escolhido pelo todo poderoso para bem governar a nação.

O problema não é o pastor dizer o que bem entender. Muitos líderes religiosos fazem o mesmo nos períodos eleitorais para guiar seus fiéis na busca de votos ao político que resolveram apoiar. A chave da questão está em um presidente da República compartilhar o vídeo em suas contas nas redes sociais. Quando o faz, demonstra que concorda ou no mínimo julga interessante que seus seguidores e eleitores mais apaixonados vejam o conteúdo.

A partir de então, o antes apenas populista da extrema direita brasileira se posiciona como um radical messiânico, que não deve ser questionado pois paira sobre ele uma luz divina que o colocou no Palácio do Planalto. É como se Bolsonaro cumprisse uma missão de Deus.

Novo discurso
Esse é o discurso que o presidente passou a usar casado aos dois conteúdos para convencer muita gente a ir às ruas hoje. Por mais patético que seja sair de casa em um domingo para simplesmente defender um governo que tem apenas cinco meses e 26 dias de gestão, queda constante na aprovação e erros acumulados, é um direito seu vestir a camiseta da CBF e defender o chefe do Executivo. Mas é preciso saber que parte do que o convenceu a deixar de ver o Faustão, seriado ou filme na Netflix para gastar sua voz pró-Bolsonaro vai além de uma mera retórica de um “câncer político” que impede o grande líder eleito de governar.

Disfarçada de defesa das boas pautas do governo está a tentativa de aparelhamento do STF e fechamento do Congresso, que já entendeu que o diálogo é algo que Bolsonaro não aprendeu em 28 anos como deputado federal e que não será agora que adotará como prática política. A dita “nova era”, como uma renovada atuação na gestão pública, é apenas uma falácia disfarçada de imposição antidemocrática para controlar e dar as canetadas que julgar necessárias sem ninguém para questionar por meio de decretos e medidas provisórias, apenas para começar.

Há quem diga que o fechamento do STF, a deposição e o impeachment dos ministros do Supremo seja demais e não pretendem defender pautas ditatoriais e autoritárias. Mas aceitam que bandeiras como a defesa da instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Lava Toga no Senado surjam nos atos pró-Bolsonaro. Mesmo que o caminho seja mais longo, a defesa de parte dos parlamentares do PSL e de outros partidos para que a CPI seja criada parte do princípio de que o ímpeto dos magistrados do STF precisa ser impedido.

Imaginemos que o Supremo entenda, como é esperado, que o Decreto de Armas, aquele que flexibiliza o porte de arma de fogo no Brasil sem revogar ou discutir no Congresso a modificação da Lei Federal número 10.086, de 22 de dezembro de 2003, mais conhecida como Estatuto do Desarmamento, é inconstitucional e revogue a medida. Bolsonaro já observou, e muito bem, ao inflar seus apoiadores mais radicais ao assinar o documento juntamente com o Ministério da Casa Civil, e não com o Ministério da Justiça e da Segurança Pública, que é melhor defender causas populistas e que agradam os que o defendem cegamente do que tentar trilhar o caminho correto.

E qual seria o percurso democraticamente esperado? Enviar um Projeto de Lei de autoria do Executivo à Câmara dos Deputados, entrar no Congresso e dialogar com os parlamentares para convencê-los de que revogar ou reduzir os efeitos do Estatuto do Desarmamento se faz necessário. A verdade é que o governo Bolsonaro não está preocupado em resolver os problemas da segurança pública. Desde que o presidente assumiu o cargo, subiu 18% o número de assassinatos no Brasil cometidos por policiais, segundo o Monitor da Violência do G1. A manutenção do apoio, mesmo que minoritário, mas extremista, ao chefe do Executivo, se dá por meio do discurso do ódio e da imposição do pensamento.

Não há mais diálogo. Emperra-se o avanço democrático do Brasil, que precisa discutir inúmeros problemas – entre eles o crescimento do desemprego, com 13,4 milhões de pessoas fora do mercado formal, e a retração do PIB [Produto Interno Bruto] em 0,68% neste ano. E se continuar assim, teremos um povo que, sem perceber, vai aumentar a defesa da derrubada da democracia.

Mitos e enviados por Deus
Parece muito apocalíptico, mas a defesa dúbia de Bolsonaro de um discurso em suas lives, WhatApp e redes sociais difere da falsa imagem democrática que tenta passar. Os últimos ditadores chegaram ao poder por meio do voto, não nos esqueçamos disso. O que desejo é que o professor da Universidade Johns Hopkins, Yascha Mounk, doutor em Harvard e cientista político, tenha errado muito, e que o povo não esteja de fato em uma luta contra a democracia.

Prefiro acreditar que nosso sistema político, por mais que sofra constantes ameaças, principalmente nas insanidades compartilhadas pelo WhatsApp, ainda possa ser salvo. Mas a linha entre a derrocada das liberdades e o autoritarismo no Brasil fica cada vez mais tênue. É hora de acordar. Críticas a políticos eleitos são necessárias, porque eles cometem erros. E é sempre bom recordar que são seres humanos, não mitos ou enviados de Deus para governar uma nação.

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