Se abster nunca foi tão perigoso
10 outubro 2026 às 22h00

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33,4 milhões. Esse foi o total de pessoas que não compareceram às urnas no 1º turno das eleições, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O número de brasileiros que não participaram do processo eleitoral com seu voto neste ano equivale a surpreendentes 21% do eleitorado do país. De cada dez eleitores, dois não foram às urnas.
Claro, os fatores que levam o eleitor a não comparecer à sua zona eleitoral para contribuir, por meio do voto, com os destinos do país são vários, de questões geográficas a socioeconômicas. No entanto, o desânimo de grande parte da população com a política tradicional é visto, ouvido e sentido há anos e, cada vez mais, leva o eleitorado a acreditar que, no final das contas, seu voto não servirá de nada. Em entrevista concedida ao Valor Econômico, o cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), explicou que existe apatia nos dois campos políticos.
“Existe frustração da base progressista em relação ao governo Lula e pouca mobilização em relação a Flávio Bolsonaro. Tirar hoje o eleitor de casa para votar é um grande desafio das candidaturas”, disse o cientista político, que ainda cravou: “Cansaço e desânimo são marcas desta eleição.”
Essa apatia citada por Medeiros é compreensível, de fato. A cada escândalo envolvendo o Legislativo, Executivo ou Judiciário, a cada morte por falta de vaga em uma unidade de saúde, a cada assassinato de um pai de família que voltava do trabalho, a cada mãe solo obrigada a trabalhar em dois empregos, à exaustão, para garantir o básico aos filhos, o eleitor, pelo menos aquele ciente da realidade em que vive, se retrai um pouco mais.
No entanto, mesmo que pareça paradoxal, a cada pessoa que se abstém em uma eleição, um tijolo é colocado para reforçar a estrutura da qual ela tanto padece. E hoje, ainda mais grave do que não mudar o que não funciona, a falta do voto poderá trazer de volta novas velhas ameaças ao que ainda funciona.
Aqui, não cabe, e não é nem de longe pertinente, defender candidato A ou B, ou melhor, L ou F. Afinal, seus nomes carregam máculas profundas aos olhos daqueles que já decidiram. Cabe, sim, estimular uma necessária reflexão sobre o que está em jogo quando uma parcela tão grande da população abre mão de participar de uma escolha que terá consequências para todos, inclusive para aqueles que preferiram (ou não tiveram escolha a não ser) ficar em casa.
E, mais do que não se abster, é preciso assumir compromissos. Com o princípio de que a Constituição Federal deve ser respeitada e de que mudanças precisam se apegar implacavelmente as garantias democráticas; de que uma criança jamais deve ter acesso a uma arma, ainda que seja um simulacro, mas, sim, ser protegida dela; de que os direitos das minorias devem ser assegurados; de que as conquistas sociais, sobretudo para a população mais vulnerável, devem continuar e ser expandidas. E, acima de tudo, o princípio básico de que o sistema democrático e suas instituições precisam ser protegidos, e não atacados.
A história traz razões suficientes pra que as garantias democráticas e sociais que temos hoje não sejam lidas como inabaláveis. O país já sofreu com a censura, a perseguição política e a supressão de direitos. Conheceu também o longo caminho necessário pra recuperar a possibilidade de escolher livremente seus governantes. Preservar essas conquistas demanda, sim, vigilância constante, inclusive sobre aqueles que chegam ao poder pelo voto popular.
São 33,4 milhões de ausentes. Quiçá, 33,4 milhões de pessoas cansadas. E há de se entender esse cansaço. Mas a democracia continuará produzindo decisões (algumas irreparáveis) que alcançam todos os brasileiros, inclusive aqueles que não participaram da escolha. E a responsabilidade de proteger suas instituições não termina com a divulgação do resultado das urnas, longe disso. Permanece na cobrança aos governantes, na fiscalização do poder e na defesa intransigente das liberdades. Mas, pra cobrar, é preciso ficar de pé e exercer o direito conquistado a duras penas no passado. Não se abstenha.


