Augusto Diniz
Augusto Diniz

Risos e afagos de Lula aos ataques dos irmãos Gomes deixam dúvidas sobre quem é o babaca

Petista é lembrado com frequência por declarações do senador Cid e do ex-candidato a presidente Ciro, do PDT, que está preso. Mas parece não se incomodar

Lula 13 - entrevista - Foto Reprodução TV Folha - editada

Na disputa pelo protagonismo das esquerdas, Lula faz o jogo que é conveniente ao PT, por mais que possa – ou não – ter sido sincero em entrevista à Folha e ao El País | Foto: Reprodução/TV Folha

Ato 1
Segunda-feira, 15 de outubro de 2018, o então senador eleito Cid Gomes (PDT-CE) diz em um evento de campanha do PT no segundo turno da disputa presidencial: “Lula o quê? Ele está preso, babaca. Lula vai fazer o quê? Babaca, babaca. Isso é o PT e o PT desse jeito merece perder”.

Ato 2
Quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019, o irmão de Cid, ex-candidato a presidente Ciro Gomes (PDT), ao ser chamado de “corrupto” em evento da União Nacional dos Estudantes (UNE) em Salvador (BA), um dia depois de o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ter sido condenado a 12 anos e 11 meses de prisão por corrupção ativa, passiva e lavagem de dinheiro pela juíza substituta Gabriela Hardt, da 13ª Vara Federal de Curitiba (PR): “Eu não sou não, eu estou solto, 38 anos de vida pública e nunca respondi por nenhum malfeito. Eu sou limpo! Engole! O Lula está preso, babaca! Provocou, vai ouvir”.

Ato 3
Sexta-feira, 26 de abril de 2019, em entrevista aos jornalistas Môniga Bergamo, da Folha de S.Paulo, e Florestan Fernandes Júnior, do El País, o preso Lula responde à pergunta da colunista da Folha: “Como é que o sr. está vendo o quadro e como é que vai ser o PT com a esquerda? O sr. soube, né? Imagino que o sr. sabia, estou vendo que o sr. está informado de tudo. Cid Gomes e Ciro têm aquele bordão ‘o Lula está preso, babaca'”.

Antes de responder, o petista começa a rir, joga a cabeça para o lado direito, fecha os olhos, coça a cabeça e solta: “Uai, isso não é bordão, isso é uma constatação. Eu estou preso. Não precisava chamar…”. Mônica Bergamo insiste ao emendar “o sr. não fica chateado, não?”. “Não. Veja. Só não precisava chamar os outros de babaca. Mas dizer que o Lula está preso é apenas constatar. Só ler o jornal que vê que eu estou preso”, responde de forma leve o ex-presidente preso em Curitiba.

E continua: “Posso te dizer uma coisa carinhosa? Primeiro eu acredito que a esquerda brasileira está acumulando um conjunto de pessoas muito importante. Vamos pegar o PT. O PT, apesar de algumas pessoas não gostarem do PT, é um partido muito forte. Aliás, posso dizer que é o único partido efetivamente organizado em todos Estados brasileiros com cabeça, tronco e membro”.

“Você tem o Ciro Gomes, que é uma figura importante no Brasil. Você tem o [governador do Maranhão] Flávio Dino (PCdoB), que é uma figura importante no Brasil. Você tem alguns governadores importantes do PT na Bahia, em Sergipe, no Ceará e a Fátima [Bezerra] no Rio Grande do Norte. Você tem alguns governadores importantes do PSB. Você tem uma novidade importante política no Brasil, que não teve um bom desempenho eleitoral, mas um menino que vai crescer muito, que é o companheiro [Guilherme] Boulos [presidente do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST)]”, cita Lula.

Depois de falar sobre o ex-candidato Fernando Haddad (PT), de seus governos e do presidente Jair Bolsonaro (PSL), Lula volta a citar de forma elogiosa o pedetista. “Deixa eu dizer uma coisa pessoal. Eu pessoalmente gosto do Ciro Gomes. Tenho respeito pelo Ciro Gomes. O Ciro Gomes não causa mal ao PT. Ele causa mal a ele. Ciro Gomes precisa aprender uma lição elementar: aprender a ouvir coisas que você não gosta. É suportar os contrários. É aprender a conviver na adversidade, sabe? Ele precisa aprender essa lição mínima”, o ex-presidente elogia, mas ao mesmo tempo cutuca a liderança do PDT.

Não para por aí. “Quando ele [Ciro] foi governador do Ceará não precisava disso. Quando foi prefeito de Fortaleza não precisava disso. Mas agora, para ser presidente do Brasil, ele precisa. E ninguém será presidente do Brasil se romper com o PT, com o PCdoB. Ou seja, pela direita… não sei se a direita aceitaria ele (sic).”

Mais afagos
“Como eu gosto do Ciro, o dia que ele pedir para me visitar eu vou aceitar que ele me visite aqui para ter uma conversa boa com ele. Porque eu gosto dele. Eu gosto do Flávio Dino.” E fala também sobre Marina Silva (Rede Sustentabilidade). “Não sei se a Marina tem um dia propensão de voltar para os setores de esquerda. Porque a Marina acabou, né? Coitada! Ter 1% só no processo eleitoral depois de ser quase a presidenta é muito pouco. Eu não sei o que ela vai fazer”, observa Lula.

Mas a chave do discurso excessivamente benevolente com quem o ataca está na frase seguinte: “Eu penso que a esquerda pode construir um grande projeto para o Brasil e pode voltar ao poder”. A colunista da Folha encaixa uma pergunta importante, que indaga sobre algo que o PT nunca abriu mão desde a eleição presidencial de 1989: “Sem o PT na hegemonia, né?”. E Lula é direto ao responder. “Você acha que um partido que tem 30% de voto vai começar abrindo mão da sua candidatura? Não vai.”

Só que a sequência é uma abertura para a busca do diálogo que até hoje o PT não foi capaz de fazer para não deixar de se colocar como a única via possível da esquerda brasileira na disputa eleitoral. “Como o PT já teve presidente quatro vezes, acho que, em algum momento, o PT pode escolher um companheiro de outro partido político e ser candidato a presidente”, avalia o petista. Lula diz que o partido “pode participar do governo, pode ter vice”.

Fique aqui, mas aceite
“Eu acho que tudo é possível. O que você precisa é não exigir que o PT abra mão sem apresentar uma proposta alternativa. Se você tem 10%, eu tenho 30% e você acha ‘no segundo turno eu sou melhor do que você’. Se você é melhor do que eu por que você não ganha no primeiro turno?” Nesse trecho da entrevista, Lula deixa claro que o Partido dos Trabalhadores não quer perder o apoio de uma figura importante na política nacional como a de Ciro Gomes, mas não está disposto a abrir mão do protagonismo eleitoral.

E nos ataques de Cid e Ciro Gomes ao PT, Lula e os governos petistas, o que estava em jogo era a busca por ocupar o espaço que hoje é do do partido do ex-presidente preso. Quando o senador Cid Gomes foi ao evento de Fernando Haddad no segundo turno da corrida presidencial em 2018 e atacou a legenda de Lula, os irmãos Gomes sabiam o que estavam fazendo.

A não entrada de Ciro na campanha de Haddad no segundo turno foi proposital. Para o PDT, era melhor deixar Jair Bolsonaro com campo livre para vencer nas urnas com facilidade do que endurecer contra o presidenciável do PSL ao lado do PT. O momento era o início de um trabalho para disputar o protagonismo na esquerda com o agora derrotado Partido dos Trabalhadores.

Paz e amor
Lula ser carinhoso e afável com os irmãos Gomes e Flávio Dino tem uma única motivação. Não que isso impeça que o ex-presidente petista nutra de fato grande carinho pelos três políticos de outros partidos. Mas o foco aqui é manter o PT como uma espécie de líder de uma fragmentada esquerda brasileira, que não tem mais o apoio da maioria do eleitorado brasileiro.

Cid, Ciro, Dino e Lula estão de olho nos próximos passos do governo Bolsonaro até o final de 2022. O insucesso do projeto de extrema direita é o sonho das figuras citadas. Mas, ao contrário do PDT, os petistas não têm condição de adotar um tom duro e discurso ríspido contra seus adversários do mesmo lado do muro do espectro ideológico, por mais que as diferenças de visão de governo sejam muito divergentes.

O PT tem hoje a maior bancada de oposição na Câmara dos Deputados. Mais ainda. É o maior bloco partidário de oposição ao governo Bolsonaro na Casa: 55 deputados federais. O PDT fica bem atrás, com 28 parlamentares, pouco mais da metade da bancada petista. No Senado, a sigla de Lula segue na frente, mas com uma diferença mais apertada: 6 a 4. Lula e os petistas sabem bem que o desgaste do governo Michel Temer (MDB), de 12 de maio de 2016 a 31 de dezembro de 2018, fez com que parte da população sentisse saudade das gestões do ex-presidente preso.

Ainda está muito cedo para imaginar qualquer cenário para as eleições presidenciais de 2022. Até porque ninguém tem como prever o resultado das disputas municipais no ano que vem. O que Lula, Ciro, Cid, PT e PDT sabem bem é que o desejado insucesso do “mito” Jair Bolsonaro – pela oposição – pode reerguer o que hoje é visto como a grande maldição do País: a esquerda. “Graças a Deus a internet ainda não acabou com o pouco de humanismo que existe entre nós”, diz esperançoso o ex-presidente nos minutos finais de quase duas horas de entrevista.

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