Augusto Diniz
Augusto Diniz

Quem vai fechar a porta no PSDB?

Partido trilhava o caminho da reconstrução depois da derrota expressiva nas urnas e nas operações policiais de outubro de 2018, mas imposições internas levam sigla ao precipício

Prefeito de Trindade Jânio Darrot e ex-governador Marconi Perillo: disputa entre duas lideranças tucanas leva PSDB goiano a momento incerto | Foto: Iris Roberto

É inegável o papel importante que o PSDB teve, desde a dissidência com o MDB, na redemocratização do País. Ao lado da antiga casa das grandes lideranças tucanas, peessedebistas e emedebistas liderados pelos ex-governadores Marconi Perillo e Iris Rezende recontaram a história de Goiás com a implementação de diversos avanços. Os dois grupos políticos têm seus méritos na condução do Estado, tanto os 16 anos do MDB no poder quanto os 20 em que a aliança do PSDB reinou soberana em solo goiano.

O tempo das duas forças políticas deu abertura para um novo grupo formado pelo ex-deputado federal, senador e desde 2019 governador Ronaldo Caiado (DEM). Mas nem as mudanças de rumo administrativo e partidário à frente do Estado apagam a importância dos líderes Iris e Marconi em Goiás. O tucano vive dos bastidores, saiu dos holofotes e foi viver em São Paulo. O emedebista soube se reconstruir como fiel da balança em seu partido ao voltar suas atenções para a capital, onde voltou a ser eleito em 2004, 2008 e 2016. Chega a 2020 como favorito à reeleição se entrar na disputa.

Mas após a derrota nas urnas, o PSDB precisava se reerguer. A Operação Cash Delivery deixou marcas muito pesadas na história do coordenador de campanha em Goiânia do ex-governado José Eliton e ex-presidente da Agência Goiana de Transportes e Obras (Agetop), hoje Agência Goiana de Infraestrutura e Transportes (Goinfra), Jayme Rincón. Também abalou bastante o papel de homem de Estado de Marconi, descartado pelo eleitor para senador em 2018 e preso dois dias depois.

O prefeito de Trindade, Jânio Darrot, que fazia um bom trabalho à frente de um PSDB sem rumo após a derrota de 2018, começou a pensar em deixar a presidência estadual do partido. Publicamente, depois que a intenção deixou de ficar apenas nas conversas internas dos tucanos, Jânio falou em deixar o tucanato goiano nas mãos de sua maior liderança. Outros filiados peessedebistas começaram a comentar o assunto, o que agravou a situação, que já não era boa.

Os motivos descritos por Jânio – se dedicar à sucessão eleitoral em Trindade – não convenceram ninguém. Nem mesmo quem mais incomodou a livre atuação e decisões tomadas pelo prefeito de Trindade à frente do PSDB: Marconi. As desautorizações e modificações nas deliberações partidárias do presidente, que trabalhava nas 14 reuniões da legenda pela reunificação tucana, incomodaram Jânio, que entregou o cargo.

Se Marconi deixou o Estado para melhorar sua imagem política, aguardar os desdobramentos das investigações e voltar em 2022, não vai ser com interferência em tempo integral nas decisões do PSDB que as coisas vão melhorar. Enquanto o prefeito de Trindade reorganizava a situação dos diretórios municipais, construía pré-candidaturas nas principais cidades do Estado em comum acordo com os filiados, o ex-governador continua a trabalhar para arquitetar alianças que sejam benéficas para Marconi daqui quatro anos.

O partido já perdeu o prefeito Pábio Mossoró, que está de malas prontas para o MDB. Tudo para garantir a indicação da deputada federal Lêda Borges como pré-candidata ao cargo no município do Entorno do Distrito Federal. Jânio não gostou nem um pouco do atropelo marconista nas decisões partidárias em Valparaíso de Goiás. Vale lembrar que o deputado estadual Diego Sorgatto, de Luziânia, e que não se dá bem com Lêda, hoje é um tucano na base do governador Caiado, que foi eleito em oposição ao grupo de Marconi no poder.

E Sorgatto é um dos defensores de Jânio à frente do partido. O também deputado Tião Caroço, que vê o prefeito de Trindade como um pacificador na legenda, anunciou sua saída depois da manifestação de Jânio por pular fora das confusões do diretório estadual. Os tucanos podem ficar sem rumo, com uma liderança que não se assume publicamente, mas comanda tudo contra todos nos bastidores e que quer voltar candidato em 2022. A qual cargo é que não está bem definido o futuro de Marconi Perillo.

Enquanto isso em Goiânia, a sigla perde a vereadora Dra. Cristina Lopes, que, sem espaço no PSDB para ser candidata a prefeita, recebeu um convite com a promessa da deputada federal Magda Mofatto que no PL a vaga na cabeça da chapa majoritária na capital é da parlamentar tucana. Figura combativa na oposição ao governo estadual na Assembleia, o deputado Talles Barreto também tenta consolidar seu nome para conquistar o voto do eleitor goianiense em outubro contra Iris Rezende ou quem o MDB lançar. Hoje o que se sabe é que Marconi não deixaria a candidatura em Goiânia nas mãos de alguém que não fosse indicado pelo próprio ex-governador.

É compreensível que Jânio se posicione em defesa do partido, mas o mais longe possível das decisões do diretório. Nem mesmo em Anápolis ou Aparecida de Goiânia, onde o presidente estadual do PSDB consolidou nomes para a disputa majoritária, Marconi deixou as conversas continuarem. Mesmo de longe, o ex-governador quer solidificar novas alianças eleitorais e apoiar os prefeitos Roberto Naves (PP) e Gustavo Mendanha (MDB).

O que pode acontecer a partir de agora? Um PSDB cada vez mais desunido. E que se aproxima da hora de formar as chapas proporcionais, que não contarão mais com partidos menores pelo fim das coligações. O quociente eleitoral será pautado pela disputa interna nas urnas. E quem quer ser candidato em uma casa desarrumada ou prestes a desabar?

A situação do PSDB goiano, que começava a lentamente encontrar um novo caminho, o da reconstrução, tende – se assim for mantida, com um presidente ativo nos bastidores sem precisar ocupar o cargo e com uma sombra de sua atuação no posto – a não conseguir consertar os problemas na porta emperrada que não fecha direito. A situação vai piorar se houver demora para compreender que é preciso deixar na mão de quem tem organizado o ninho tucano a solução cotidiana dos problemas do partido.

Porque amanhã pode nem ter porta mais para ser fechada. E a reestruturação do partido ficará ainda complicada. Será como tentar reerguer uma casa demolida com os restos da destruição.

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