Augusto Diniz
Augusto Diniz

Quando Queiroz apareceu para limpar barra da família Bolsonaro a coisa fedeu

O odor da não explicação dada em entrevista pelo ex-assessor de Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) se espalhou como câncer na lisura intestinal de declarações questionáveis

“Por mim eu já tinha ido depor há muito tempo e não estaria essa loucura atrás de mim achando que eu sou um fugitivo, que eu sou um bandido. A realidade é essa.” Este é o policial militar e ex-assessor parlamentar do gabinete do deputado estadual fluminense e senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), Fabrício Queiroz, que disse na quarta-feira, 26, em entrevista à repórter Débora Bergamasco, do SBT, ser a pessoa mais interessada em esclarecer a origem de pouco mais de R$ 1,2 milhão em movimentações financeiras atípicas na sua conta bancária entre 2016 e 2017 detectadas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) na Operação Furna da Onça.

Esse é o mesmo Fabrício Queiroz que se negou a comparecer duas vezes ao Ministério Público (MP-RJ) para depor, nos dias 19 e 21 de dezembro, mas que alega terem sido quatro as intimações em entrevista ao SBT. A história de um tratamento de emergência foi levantada pelo ex-assessor de Flávio Bolsonaro ao ser questionado pela jornalista, mas antes o motivo da recusa de prestar esclarecimentos ao MP foi diferente.

“Meu advogado, amigo meu, eu ainda perguntei ‘quanto que tu vai me cobrar para ir me acompanhar?’. Ele respondeu ‘isso é bom eu ir lá primeiro’. Ele viu que estava faltando parte do relatório… do Coaf, né? Ele falou ‘está faltando’ e pediu para adiar a primeira [data para depor no MP]. A segunda vez eu ia também e ele me falou ‘não me entregaram por completo’.”

Desvio frágil de foco
Queiroz continua a tentar se defender na entrevista antes de continuar a apresentar os motivos das outras duas ausências nas datas marcadas para depor sobre as movimentações no total de pouco mais de R$ 1,2 milhão em sua conta. “Eu não sou bandido. Sou trabalhador. Eu tenho três… quatro filhos. Criei minha enteada. Sempre trabalhei na minha vida. Não tenho nada de errado na minha vida. A conta é minha, não é de terceiros. Eu vou esclarecer ponto a ponto”, apela o ex-assessor para o discurso da vida dedicada ao trabalho, como se isso automaticamente isentasse alguém de qualquer suposta prática criminosa ou ilegal.

Sobre as não presenças nos dias 19 e 21 de dezembro ao Ministério Público, a repórter do SBT pergunta: “O que aconteceu com a sua saúde?”. “Momento algum eu estou fugindo. Quero muito esclarecer e depor na frente do promotor. Agradecê-lo por acatar [motivo da ausência], não pedir minha prisão. Eu falei ‘vou ser preso’.” Depois de apelar a uma suposta fraqueza emocional da audiência do SBT, Queiroz diz que faltou à “audiência com justificativa”. “Eu sou homem, não tenho que fugir, eu acredito na Justiça. […] Não tenho medo da Justiça, não tenho a temer.”

E continua: “Eu fiquei muito debilitado. Imagine: eu amigo do presidente, amigo do deputado. Eu era o homem. Meu WhatsApp eram só coisas bonitas. Aí vem, de uma hora para outra, apareceu na mídia meu nome, repórter atrás de mim. No mesmo dia tinha repórter da Veja na porta da minha casa, pessoal de moto e… piores ainda. Que lá eu sou muito conhecido. Eu sou uma pessoa conhecida e querida. Querida. Pessoas estranhas. ‘Meu irmão, não é repórter, tem pessoas estranhas atrás de você'”.

Segundo Queiroz, ao perceber que corria algum tipo de risco, que até quarta-feira ninguém havia cogitado qualquer possibilidade próxima a ameaça ou situação semelhante contra o ex-assessor de Flávio Bolsonaro, o motorista amigo de Jair Bolsonaro afirma “me refugiei”. “Eu não queria dar entrevista porque eu não tenho que dar entrevista, eu tenho que dar declarações ao MP”, desconversa a pessoa central do caso Coaf no gabinete do senador eleito e não se explica sobre não ter comparecido ao Ministério Público.

Só depois de mais de 12 minutos de entrevista Queiroz declara que “não queria virar o ano com essa coisa chata que está em cima de mim”. “Fui para o exame. Falei que estava com um negócio de cérebro. Eu fiquei debilitado, fiquei cinco dias sem comer. A minha filha está com crise de ansiedade, está indo para psiquiatra. Eu fui ao psiquiatra, estou tomando remédio todo dia. A minha cabeça só ficava nisso.”

A descrição sobre um quadro de saúde debilitado continua. “Eu comecei a evacuar sangue. Sangue. Sangue.” Débora pergunta há quanto tempo Queiroz notou o problema de saúde. “Antes era um pouquinho. Era um pouquinho. Eu nunca cuidei da minha saúde. A minha mulher me obrigou a marcar esses exames. E fui aconselhado a procurar o melhor”, descreve.

Queiroz volta a tentar se colocar como uma pessoa confiável e honesta na entrevista. “Da mesma forma que eu gosto do deputado, eles gostam de mim porque eu sou bacana, eu adianto todo mundo. 13 deputado eleitos lá, 13 deputados amigos. 12 deputados federais eleitos, 12 deputados federais amigos. Todos estão comigo, mandaram mensagem, acreditam no meu caráter, na minha índole.”

Segundo o ex-assessor, que continua sem prestar esclarecimentos ao MP, “foi no terceiro depoimento [que não compareceu], eu estava sendo atendido – tenho em mãos, faço questão de te entregar para você ler, tirar foto, mostrar para a imprensa, para o Brasil – por um dos melhores. Doutor Vladimir”. “Doutor Vladimir de que?”, pergunta a repórter. Com um sorriso amarelo, Queiroz responde “no carimbo tem o nome dele, sou ruim de gravar o segundo nome”.

O ex-assessor diz que foi pedida uma endoscopia pelo médico e que foi submetido ao exame do toque, “sou meio contra isso”, mesmo aos 53 anos. “Ele [médico] disse ‘não tem nada aqui não’. Graças a Deus. Eu fiquei no outro dia internado no hospital.” Queiroz é interrompido e ouve a pergunta “qual hospital?”. Depois de quatro segundos de silêncio, olhar para o lado como se procurasse uma resposta de alguém próximo, Fabrício Queiroz solta “depois eu revelo o hospital, por favor”. Por favor?

E mantém a história: “Fiquei internado para fazer o tratamento, porque eu tenho que ficar evacuando a noite toda, tomar várias coisas e ficar muito debilitado nesse dia do depoimento”. Queiroz afirma que por volta de 11 horas a meio dia teve de ser submetido a um “exame invasivo”. “As minhas filhas não sabem. Vou falar para não ficar preocupada, tá? Foi constatado um câncer.” O ex-assessor diz que o médico afirmou se tratar de um tumor maligno, “sem pegar a biópsia”, e que teria de tratar “o mais rápido possível”.

Ao ser indagado sobre o lugar do tumor, Queiroz aponta: “É aqui no intestino. Está um tumor grande. As fezes passam fininhas. Está quase fechando”. Ele cita a história de um primo que teve complicações em um problema de saúde semelhante e que sobreviveu. E volta a repetir, olhando para a câmera, o que disse minutos antes: “Gente, eu não estou fugindo do MP, eu quero prestar o esclarecimento. Isso aqui é pior de que tudo. Acho que não tem cadeia que paga se eu tivesse feito alguma coisa errada. Jamais iria mentir com uma coisa tão grossa. Essa coisa é muito ruim”.

O personagem que tem condição de esclarecer o caso Coaf que envolve os gabinetes de Flávio Bolsonaro na Assembleia do Rio e de Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados, já que no mesmo período a filha era assessora parlamentar do deputado federal e presidente eleito com repasses quase que integrais dos salários para a conta do pai, manda um recado para as filhas. Pede para elas ficarem tranquilas que “papai está bem, vai operar” e pede para que as filhas prestem depoimento também.

Estratégia blindagem
Queiroz acusa a imprensa de acabar com a vida dele. “Depois que aconteceu isso, dessa ameaça, que eu me escondi um pouco.” Mas o sumiço de Queiroz, que hoje completa 24 dias sem prestar depoimento ao Ministério Público e não sabe nem dizer o nome do hospital no qual teria sido internado nos dias marcados para prestar esclarecimentos sobre o caso, conseguiu – ou conseguiram – isolar a possibilidade de que o senador eleito Flávio Bolsonaro e o presidente eleito Jair Bolsonaro sejam investigados.

Como tomam posse no início de 2019, os dois Bolsonaro ficam livres de qualquer investigação anterior ao exercício do mandato. A imunidade parlamentar e o foro privilegiado garantem, pelo não aparecimento de Queiroz em 2018 ao Ministério Público para depor, que Jair e Flávio consigam ficar livres do caso Coaf por no mínimo quatro anos para o presidente eleito e oito para o senador eleito.

Os quatro minutos finais da entrevista exibida pelo SBT fazem o problema intestinal de Queiroz, pelo qual as fezes saem fininhas, exalem um odor impossível de esconder: a estratégia de assumir sozinho a culpa e tentar de toda forma inocentar a família Bolsonaro. “É o que eu vou dizer ao Ministério Público” foi a frase com a qual o ex-assessor tentou resumir o assunto “o que o sr. disse a ele [Flávio]” que teria sido considerado pelo senador eleito “explicações satisfatórias”.

“Débora, no nosso gabinete a palavra lá é não se fala em dinheiro, não se dá dinheiro. Toda hora bate alguém no gabinete pedindo R$ 10, R$ 20 para remédio. É proibido falar em dinheiro no gabinete.” Depois do discurso de defesa de prática correta, sem repasse de qualquer valor a outra pessoa entre os assessores parlamentares de Flávio Bolsonaro na Assembleia, Queiroz responde que “nunca” passou dinheiro ao deputado estadual e senador eleito.

“Isso é uma covardia, rotular o que está acontecendo comigo ao deputado Flávio Bolsonaro.” Em seguida, Queiroz volta a usar a justificativa do pai de família para dizer que o parlamentar está isento de qualquer suspeita. “Um homem honesto, íntegro, um senhor pai de família, que eu amo a família dele. E jamais, jamais… É um homem honesto demais. Nunca, nunca. Todo mundo indica que é isso. Nunca.” E depois responde às suspeitas e acusações: “Eu não sou laranja. Eu sou trabalhador. Tenho uma despesa imensa por mês. Te falei, tenho quatro filhas. Tenho três filhas, uma enteada e um filho. Tudo é muita coisa. É plano de saúde… É muita coisa, Débora”.

E continua a listar gastos, como pensão paga à ex-esposa e condomínio por ordem judicial. Queiroz afirma que nunca contribuiu com dinheiro para qualquer campanha eleitoral de Flávio Bolsonaro. Ao contrário de poucos minutos antes, quando disse que só contaria a explicação que deu ao senador eleito no depoimento ao Ministério Público, o ex-assessor muda a versão e afirma que desde que o caso foi divulgado não entrou em contato com Flávio. “Não tenho falado.”

Queiroz continua a falar sobre as suspeitas levantadas conta ele desde que o jornal O Estado de S.Paulo divulgou o levantamento do Coaf no dia 6 de dezembro e deixou dúvidas sobre sua inocência no caso ao dizer: “O meu problema é meu problema, não tem a ver com Flávio Bolsonaro, não tem a ver com ninguém. Eu vou responder pelos meus atos”.

No final da entrevista, Queiroz pede desculpas a Michelle Bolsonaro. “Quero pedir desculpa à família Bolsonaro, à Michelle, primeira-dama, por ter colocado o nome dela exposto. É uma pessoa maravilhosa. […] Não merece isso não. Uma pessoa pura, uma pessoa maravilhosa. Não tem nada de errado. Um cheque meu, que o marido dela falou para depositar. Jair não tem tempo para nada. Eu quero pedir desculpa.”

Na continuação da tentativa de tirar de Michelle Bolsonaro qualquer possibilidade de envolvimento com o caso Coaf, o ex-assessor se refere como “problema”. “Quero que esse ano vire e tire a imprensa disso. Eu sou o problema, não é eles”, expõe a estratégia de comprar uma possível culpa sozinho caso seja considerado culpado. No início da entrevista, Queiroz defende a mesma versão dada por Jair Bolsonaro no início de dezembro, de que os R$ 24 mil depositados pelo ex-assessor na conta de Michelle na verdade seriam dez cheques de R$ 4 mil como pagamento de um empréstimo do presidente eleito ao amigo e motorista.

Um cara de negócios?
“Débora, eu sou um cara de negócios.” Para quem esperava que Queiroz diria em algum momento fazer agiotagem, o ex-assessor de Flávio Bolsonaro baseou sua defesa na entrevista como uma “segurança” financeira que vem da compra e revenda de veículos sem apresentar qualquer comprovação dessa atividade. “Eu faço dinheiro. Compro, revendo, compro, revendo. Compro carro, revendo carro. Eu sempre fui assim. Gosto muito de comprar carro em seguradora. Na minha época, lá atrás, comprava um carrinho, mandava arrumar, vendia. Tenho umas seguranças.”

A entrevista que mais complicou Queiroz e os Bolsonaro do que ajudou a explicar qualquer detalhe ainda sem uma versão crível do caso Coaf nos gabinetes de Flávio e Jair teve outros pontos confusos. Um deles, bem no começou, foi quando Queiroz tentou explicar as funções exercidas por um “assessor parlamentar e coordenador da segurança “. Das atribuições do serviço, o ex-servidor comissionado do gabinete na Assembleia do Rio começa dizendo que “coordena a segurança da esposa dele [Flávio]” e leva os filhos do deputado à escola, que não condizem com a lotação como assessor parlamentar, antes de descrever as atividades de acompanhamento e segurança de Flávio Bolsonaro.

Ao ser questionado sobre depósitos das filhas e esposa na sua conta, Queiroz diz que as filhas trabalham com ele desde os 15 anos em campanhas eleitorais. No entendimento do ex-assessor, isso era justificativa do “mérito” das parentes de conseguir cargos comissionados nos gabinetes da família Bolsonaro. “Quando tinha a oportunidade, a vaga, eu pedi para empregá-las. Elas eram muito eficientes, que elas eram muito eficientes. É mérito, não foi porque é mulher do Queiroz, é filha do Queiroz”, defende.

Primeiro, ao responder sobre a suspeita de que a filha seria funcionária fantasma do gabinete de Jair Bolsonaro, Queiroz afirma que Nathalia de Melo Queiroz é maior de idade e responderá por ela, mas segue com a informação de que “há flexibilidade no gabinete” e que não há espaço físico para todos os servidores contratados na cota de Flávio Bolsonaro. “A minha filha, se não me engano, sempre cuidou da mídia do deputado. Com o laptopzinho dela, ela que cuidava da mídia. Ela vai dar o esclarecimento dela. Eu cuidava da segurança do Flávio.”

Mais buracos
São 22 minutos e 25 segundos de entrevista exclusiva, a única aparição de Fabrício Queiroz desde a denúncia do caso Coaf, que não esclarecem nada. Pelo contrário, criam ainda mais dúvidas e aumentam as suspeitas sobre o ex-assessor e as movimentações atípicas que envolvem contas de assessores e ex-servidores comissionados dos gabinetes de Flávio e Jair Bolsonaro.

Enquanto Queiroz não consegue lembrar o nome do hospital em que ficou internado, o sobrenome do “melhor médico” que o atendeu, nem em qual gabinete a filha Nathalia estava lotada até o dia 15 de outubro, o silêncio ao MP sobre o caso só aumenta a suspeita sobre o falso moralismo anticorrupção da família Bolsonaro. A coluna de Mônica Bergamo, na sexta-feira, 28, informou que militares integrantes da equipe de transição do futuro governo não ficaram convencidos da versão dada pelo ex-assessor parlamentar.

A versão de que Queiroz seria um “cara de negócios” e a origem do dinheiro seria a compra e revenda de carros não bateu bem no QG de Jair Bolsonaro, que não vê consistência nos repasses de outros assessores parlamentares dos gabinetes de Jair e Flávio Bolsonaro para a conta do policial militar e amigo da família. Um amigo dos Bolsonaro chegou a dizer que Queiroz já causou problemas demais a Jair e seus filhos.

Não se sabe até hoje, entre outras lacunas e inconsistências na não explicação do ex-assessor ao SBT, o motivo do empréstimo que Queiroz teria pedido a Jair Bolsonaro. Por que um “cara de negócios” que sempre teve suas “seguranças” financeiras pediria R$ 40 mil ao amigo e então deputado federal?

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A coluna Conexão deseja que 2019 seja um ano de recuperação econômica, alegrias e prosperidade a todos os leitores. Que o discurso do combate à corrupção não tenha sido esquecido ao término da campanha eleitoral e que a população acompanhe seus governantes sem paixões, cegueiras ou políticos de estimação.

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Helvio Borges Rezende

Uma vez petista! O mesmo ideal! Nem sabe o que fala!