Augusto Diniz
Augusto Diniz

Por que o discurso dos profissionais da violência se esconde atrás da defesa da família

Retórica da moralidade atrai adeptos da raiva ao diferente travestida de orgulho e respeito à pátria, fala em “Deus acima de todos”, mas tem medo de se revelar

Família unida na política: Carlos, Flávio, Jair e Eduardo Bolsonaro | Foto: Divulgação

“Esta pátria será salva por cada um de vocês. Por­que esse Brasil pertence a nós: pessoas de bem, conservadores, cristãos, que pensam realmente no futuro do seu país. E mais do que tudo, vamos dar um pé na bunda do comunismo. E pé também na bunda do Foro de São Paulo.” Cinco dias antes de tomar uma facada em Juiz de Fora (MG), o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) visitava o Estado do Acre e, entre gritos de “mito”, “primeiro turno”, “fora, PT” e “a nossa bandeira jamais será vermelha” entoados por seus apoiadores, o deputado federal e capitão da reserva do Exército fazia mais um de seus genéricos e recheados de ódio discursos durante a campanha eleitoral.

No dia 6 de setembro, quando Bol­sonaro foi atacado com uma facada na barriga, a imprensa e os adversários nas urnas do candidato do PSL lamentaram e se posicionaram contra a atitude criminosa do autor da tentativa de homicídio, que está detido por atentar contra um presidenciável – “atentado pessoal por inconformismo político” –, com base na Lei de Segurança Nacional. Pouco mais de um mês depois, um mestre de capoeira e ativista negro foi morto por su­posta motivação política. Iden­tificado, o autor, que é eleitor de Bolsonaro, foi detido preventivamente suspeito de assassinar Romualdo Rosário da Costa, 63, conhecido como Moa do Katendê, em um bar de Salvador (BA) porque a vítima teria declarado voto em Fernando Haddad (PT).

Ao ser questionado por jornalistas sobre o caso, Bolsonaro, que tem dito não fazer qualquer discurso de ódio, foi bastante infeliz e revelou sua agressividade ao dizer que quem havia sido esfaqueado era ele, não outra pes­soa, e que não tinha nada a ver com isso. No dia seguinte, em uma ten­tativa de minimizar a repercussão negativa às suas declarações, afirmou na quinta-feira, 11, que não precisa que um criminoso volte a votar nele no segundo turno, no dia 28. Mas en­cerrou sua fala sobre a morte do mestre Moa com a repetição do argumento de que quem havia sido esfaqueado era o pesselista e não outra pessoa.

Parte dos eleitores de Bolsonaro cita o versículo 2 do capítulo 22 do livro Êxodo, da Bíblia Sagrada, para justificar como compreensível a proposta de Bolsonaro de combater a violência com mais violência demonstrada em frases como “bandido bom é bandido morto” ou “entre o cidadão de bem e o bandido, prefiro que o marginal morra”. A passagem bíblica diz o seguinte: “Se o ladrão for achado roubando, e for ferido, e morrer, o que o feriu não será culpado do sangue (na versão protestante). Se o ladrão, surpreendido de noite em flagrante delito de arrombamento, for ferido de morte, não haverá homicídio (na edição católica)”.

Mas o curioso é que os apoiadores do candidato, que não defende salários iguais para homens e mulheres em cargos iguais, ignoram o machismo contido no mesmo Êxodo ao tratar as pessoas do sexo feminino como um objeto pertencente ao marido como se fosse algo normal e correto em seu capítulo 22, versículos 16 e 17. “Se alguém enganar alguma virgem, que não for desposada, e se deitar com ela, certamente a dotará e tomará por sua mulher. Se seu pai inteiramente recusar dar-lha, pagará ele em dinheiro conforme ao dote das virgens (versão protestante). Se um ho­mem seduzir uma virgem que não é noiva, e dormir com ela, pagará o seu dote e a desposará. Se o pai recusar ceder-lha, pagará em dinheiro o valor do dote das virgens (edição católica).”

Mais importante do que o capítulo 22 do livro de Êxodo para os cristãos se mostra o capítulo 20, que traz os dez mandamentos. E é justamente no versículo 13 que está o ensinamento anterior ao de Êxodo 22:2 que se torna muito mais importante para qualquer ser humano: “Não matarás”. Ora, se Deus diz aos seus discípulos “não matarás”, como um cristão aceita o discurso de um candidato que tem como slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” e prega o fuzilamento de seus adversários eleitorais? Mas a explicação está na declaração do candidato a vice-presidente da chapa de Bolsonaro, o general da reserva Hamilton Mourão (PRTB), que logo após o presidenciável tomar a facada disse “se querem usar a violência, os profissionais da violência somos nós”.

E sabe como os profissionais da violência pretendem enfrentar um de nossos maiores problemas hoje, o desemprego? Com mais violência. Na quinta, Bolsonaro voltou a dizer que a atuação forte na segurança pública ajudará a economia a iniciar sua recuperação. Será que o assessor econômico da campanha do capitão da reserva, e que assumirá o cargo de ministro da Fazenda caso o presidenciável do PSL seja eleito, Paulo Guedes, consegue explicar tal raciocínio inovador? Enquanto isso, Bolsonaro continua preocupado com falsas ameaças ao povo brasileiro, como o mito – não como parte de seus eleitores o tratam, estamos falando de outro caso – da ameaça comunista representada pelo Partido dos Trabalhadores.

Acabar com o comunismo ou não deixar que este modelo “perverso” chegue ao poder é uma das manipulações discursivas mais mesquinhas que a campanha bem-sucedida, com base nas informações falsas criadas e propagadas por WhatsApp e redes sociais, de Bolsonaro conseguiu retirar do baú do esquecimento retórico no Brasil. A Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que deu sustentação civil ao golpe militar de 1964, e que nos deixou nas mãos de um governo ditatorial totalitário por 21 anos, aconteceu em outros momentos da história mundial, como o alimentado ódio ao comunismo no nazifascimo, e que chegou ao seu ápice com a perseguição aos judeus e ao holocausto.

Alerta: se você acredita que a Terra é plana, logicamente você sabe que o nazismo era uma ditadura de esquerda, o holocausto é uma invenção, o papa Francisco não entende de cristianismo, a The Economist é uma revista comunista, o filósofo liberal norte-americano Francis Fukuyama na verdade é comunista, a política francesa Marine Le Pen (Frente Nacional) é de esquerda e Roger Waters – Pink Floyd – não entende nada das letras que ele mesmo escreveu. E assim muitos cristãos têm acreditado que o discurso de ódio que resolveram legitimar na verdade vem dos outros, que agredir mulheres, negros, casais LGBTQ+ ou eleitores do PT é uma defesa da moral, dos bons costumes e da família e que se Bolsonaro não for eleito o resultado das eleições será uma fraude.

Enquanto o candidato alimenta o ódio contra os adversários nas urnas, seus eleitores acreditam que estão legitimados a cometer qualquer atrocidade em nome do que defendem como certo. Mas se observarem a si mesmos no espelho de forma racional, menos apaixonados, verão que a truculência, a criminalidade e o preconceito que dizem não defender estão sendo praticados e autorizados por eles mesmos, que se sentiram livres para mostrar o que realmente são em uma nova versão da fogueira da inquisição pública com os porões da repressão autoritária da opinião pública.

Vale lembrar que, para Deus, o casamento é um caminho sem volta e o compromisso firmado diante do altar é eterno. Mas como defender os princípios cristãos de forma tão absoluta estando no terceiro casamento, não é mesmo, Bolsonaro? Se bem que o capitão da reserva prometeu no domingo, 7, algo que muito deve interessar uma quantidade considerável de seus eleitores: “Vamos botar um ponto final em todos os ativismos no Brasil”. O problema será quando você perceber que o direito a se manifestar estiver proibido. Até para você que pretende reviver a Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Amém.

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