Afonso Lopes
Afonso Lopes

PMDB fulaniza o debate interno

Histórico do partido é uma incrível coincidência: em todos os processos eleitorais o debate interno é invariavelmente personalístico

Deputado Daniel Vilela durante discurso na sede da legenda em Goiás | Foto Alexandre Parrode

Como o PMDB, um dos grandes partidos em nível estadual, segue a caminho da sucessão de 2018? Exatamente da mesmíssima forma como fez desde 1982, quando os brasileiros retomaram o direito de eleger diretamente governadores de Estado já nos extertores finais do regime ditatorial instalado em 1964: o debate interno é fulanizado neste ou naquele candidato, e não em propostas de governo. Essa fórmula funcionou bem eleitoralmente até 1998. De lá pra cá, o PMDB perdeu todas as eleições que disputou.

Em 1982, o grande debate se deu em torno de três possíveis candidatos: Mauro Borges, então presidente regional, Henrique Santillo, senador, e Iris Rezende, que tinha acabado de recuperar os direitos políticos cassados no período de exceção. Tanto Santillo como Mauro tinham maioria da preferência interna. E foi como presidente que Mauro costurou um acordo com ele abrindo mão da sua candidatura, e acertando que Iris seria o candidato em 82 e Santillo o sucederia em 86.

Tudo pacificado em 86, portanto? Não exatamente. Iris tentou emplacar um do seu grupo como candidato, mas a guerra entre ele e Mauro Borges, que resultou na saída do ex- presidente, que passou a liderar a oposição a Iris, facilitou o caminho para Santillo. Mauro fez a campanha toda com fogo cerrado contra Iris, e Santillo escapou da encrenca entre os dois diretamente para o Palácio das Esmeraldas.

Em 1990, o PMDB viveu o período pré-eleitoral em nova guerra de nomes. No Palácio, Santillo fez o possível para barrar o agora franco adversário de seu grupo, Iris Rezende, que venceu a disputa interna e se lançou candidato. Foi nessa eleição, percebendo que o processo de escolha do candidato se baseava apenas em nomes, o então senador Iram Saraiva desembarcou no PDT, e disputou a eleição para o governo. Não deu muito certo, principalmente por causa da falta total de estrutura partidária. O principal opositor acabou sendo Paulo Roberto Cunha.

Quatro anos depois, nova fulanização. O ex-prefeito de Goiânia Nion Albernaz era a grande estrela do PMDB e seria uma indicação natural para a disputa. Não deu nada certo, e ele se viu preterido na disputa entre os iristas Maguito Vilela, então vice de Iris, e Naphtali Alves, então deputado federal. Nion fez as malas e desembarcou no PSDB, que estava se estruturando em Goiás a partir, principalmente, de ex-peemedebistas. Aliás, nada diferente do que ocorreu em praticamente todos os Estados.

Com a chegada da reeleição em 1998, e com o então governador Maguito Vilela surfando numa imensa onda de popularidade, o PMDB teve a oportunidade de debater e apresentar ao eleitor um plano de governo, tipo Maguito-II. Tudo estava aparentemente tranquilo no partido, já que não restavam grupamentos rivais. Mas isso não significou absolutamente nada. Iristas bateram o pé e bloquearam a recandidatura de Maguito. Iris deixou o Ministério da Justiça, em Brasília, para desbancar Maguito e seu pequeno grupo palaciano.

Na campanha de 98, o PMDB seguia majoritariamente com Iris, mas a popularidade de Maguito não se refletiu na campanha dele. Além disso, o líder peemedebista se enfraqueceu diante da tese da familiocracia — seu irmão, Otoniel, era seu suplente no Senado, enquanto dona Iris, sua mulher, se candidatou na suplência de Maguito. A oposição sofreu barbaridade no início, mas o otimismo do então jovem deputado federal Marconi Perillo aos poucos foi criando uma onda que desaguou num maremoto de votos que afundou a nau peemedebista.

Em 2002, não aconteceu exatamente uma guerra de nomes. Mas foi por uma questão de ordem prática somente. O mandato de Iris Rezende no Senado iria terminar, e ele preferiu deixa a encrenca de enfrentar a reeleição de Marconi com Maguito Vilela, preterido quatro anos antes. Apesar dessa composição, Essa composição foi um desastre total. Maguito perdeu já no 1º turno, e a chapa completa do PMDB não ficou com nenhuma das duas vagas que estava em disputa para o Senado.

Em 2006, mais um repeteco de candidatura ao governo pelo PMDB. Aliás, desde 1990 apenas dois nomes disputaram o governo do Estado pelo partido: Iris e Maguito. Como Iris estava na Prefeitura de Goiânia desde 2004, Maguito foi para a disputa, mas não sem antes medir forças com Adib Elias, atual prefeito de Catalão, que tinha o apoio dos iristas. E começou bem, com larga vantagem sobre Alcides Rodrigues, candidato com apoio da base aliada liderada por Marconi, que havia encerrado seu segundo mandato naquele ano. Marconi disputou e ganhou sem problemas como senador, e foi decisivo na virada de Alcides sobre Maguito, que fez campanha sem grande empenho por parte dos iristas. Ou seja, a disputa interna no PMDB estava somente adormecida por força das circunstâncias.

Em 2010, foi a vez de Maguito estar numa Prefeitura importante, Aparecida de Goiânia, e a vaga para candidatura ao governo fluir naturalmente para Iris, que renunciou ao restante de seu mandato como prefeito de Goiânia. A oposição se dividiu em dois grupos, o PMDB irista – mais uma vez houve acusação de falta de empenho por parte dos maguitistas – e o Palácio das Esmeraldas, comandado por Alcides Rodrigues, que bancou a candidatura de Vanderlan Cardoso ao governo. Mesmo isolado nas três esferas administrativas, federal, estadual e municipal, Marconi fez campanha de superação e voltou a vencer.

Em 2014, Maguito permanecia prefeito de Aparecida de Goiânia após ser reeleito em 2012, mas mesmo assim o PMDB fulanizou a escolha de candidato ao governo do Estado. O empresário Júnior Friboi, apoiado pelo comando nacional do partido e pelos maguitistas, tentou de todas as formas se lançar candidato ao governo, mas Iris Rezende fechou o cerco e ganhou a disputa interna se aliando ao presidente do DEM, senador Ronaldo Caiado.
Essa é, basicamente, um curto resumo da história dos processos de escolha de candidaturas ao governo de Goiás no PMDB. E está se repetindo agora. Os maguitistas querem lançar o deputado federal Daniel Vilela ou, como plano B, o pai dele, Maguito. Os iristas, novamente na Prefeitura de Goiânia, tentam atrair Ronaldo Caiado. E esse é o grande debate no PMDB visando as eleições de 2018.

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Luciano Almeida

Afonso Lopes foi preciso na análise das candidaturas do PMDB em Goiás. Perfeito. A propósito, programa de governo do PMDB estadual, de verdade, só houve um: o de Henrique Santillo, em 1986, intitulado “Caminhando para o futuro”. Era uma peça detalhada de planejamento e foi executada quase na totalidade. Bons tempos em que o PMDB era um agrupamento de homens com idéias e compromissos com o eleitor.