Augusto Diniz
Augusto Diniz

Paulo Guedes é o parasita que consome o hospedeiro para sobreviver

Desmoralizado na equipe ministerial, desacreditado pelo mercado e ignorado pelo Congresso Nacional, ministro da Economia virou presença figurativa no governo Bolsonaro

Com pouco resultado a apresentar como ministro da Economia, Paulo Guedes segue no governo, mesmo com os constrangimentos diários | Foto: Reprodução/CNN Brasil

A nova reinvenção de Paulo Guedes, ministro – até que digam o contrário – da Economia, é reduzir em 40% a alíquota da contribuição do setor privado ao Sistema S. Sim, Guedes recuperou a proposta anunciada no início de 2019 e ampliou 10% na facada a entidades como Sebrae, Senac, Sesi, Sesc e todas as ações que envolvem seu funcionamento. O real parasita da economia brasileira, que de liberal até agora nada apresentou, vive de ideias mirabolantes sem números, justificativas, mas que podem parecer inovadoras para os desavisados.

Pela lógica liberal da tão falada meritocracia, que na prática se apresenta como a piada sem graça para beneficiar os já privilegiados do sistema econômico e apadrinhados, Guedes estaria na rua e sem direito a auxílio emergencial. Isso porque a sua fortuna o impede de receber a ajuda do governo, que o ministro queria pagar apenas R$ 200 por três meses. Você leu isso mesmo. Guedes queria que os brasileiros mais pobres vivessem de compras de supermercado com valor máximo de R$ 200. O que significa que o ministro queria intensificar a fome no País durante a pandemia.

Ainda bem que o Congresso não deixou, propôs R$ 500 o valor das parcelas, que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) depois aumentou para R$ 600 e prorrogou por cinco meses. Desde o quarto mês de pagamento do auxílio, Guedes queria reduzir o valor. Manter o auxílio emergencial até dezembro de 2020? Ficou louco? Pois o governo contrariou o ministro da Economia e, mesmo reduzido pela metade, segurou os R$ 300 de setembro até o último mês do ano.

Discurso falso

Somadas as cinco parcelas de R$ 600 e as quatro de R$ 300, o auxílio emergencial ficará abaixo de US$ 760 de abril a dezembro por pessoa, bem distante dos US$ 1 mil ditos por Bolsonaro em discurso na abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Nem na aproximação, como o presidente alegou na live de quinta-feira, 24, o auxílio emergencial se ficaria próximo a US$ 1 mil.

São R$ 4,2 mil até dezembro por pessoa, o que, na cotação do dólar da tarde de sexta-feira, 25, a R$ 5,56, equivaleria a US$ 755,39. O que significa que Bolsonaro “arredondou” os US$ 244,61 que faltavam pra chegar ao valor informado no discurso.

Presidente Jair Bolsonaro (sem partido) alega que o criticaram por “arrendondar” valor total das parcelas do auxílio emergencial, mas esqueceu de dizer que “arredondou” quase US$ 245 em discurso na ONU | Foto: Reprodução/YouTube

Ideia brilhante

Outra ideia brilhante do grande liberal que leu várias vezes os autores clássicos do liberalismo no original, como se gabou na reunião ministerial de 22 de abril, é aumentar a tributação do Simples Nacional. Não é uma maluquice? Diante do impacto da pandemia na economia, Guedes pretende cobrar mais impostos para que micro e pequenas empresas brasileiras mantenham as portas abertas. Mas o ministro garante que a recuperação do Brasil será em V com a reabertura do comércio. Tem certeza, Paulo Guedes? Na lógica do ministro, empresas que hoje pagam 6% passarão gradualmente a contribuir com até 16% de impostos no Simples.

Os 13 milhões e 687 mil desempregados diminuíram. Mas apenas 0,2%, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Até 5 de setembro, os brasileiros com idade para trabalhar que procuravam emprego eram 13 milhões e 44 mil. Por enquanto, estamos longe de ver a tal recuperação da economia em V. Mas como Paulo Guedes é um otimista que adora mudar datas para suas previsões de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) – já perdemos as contas de quantas vezes o prazo para a bonança chegar foi adiado pelo ministro –, aguardemos o crescimento de 2,5% do PIB em 2020 anunciado pelo Posto Ipiranga do governo Bolsonaro.

Por falar em Posto Ipiranga, nem o mercado vê mais com os mesmos bons olhos o Guedes definido na campanha de 2018 como esteio da economia segura do País. O investimento estrangeiro segue indo embora. De janeiro a agosto, o Banco Central (BC) registrou saída líquida de US$ 12,5 bilhões em capital externo do Brasil. É o pior momento de investimentos de fora no País desde 1982. Ainda bem que pararam de chamar Paulo Guedes de Posto Ipiranga, porque o ministro se assemelha mais nas ações e propostas sem dados com um parasita, em analogia feita pelo próprio titular da Economia ao atacar os servidores públicos.

Investigação?

Guedes é investigado pela Operação Greenfield por suspeita de causar um prejuízos aos fundos de pensão públicos de R$ 360 milhões em valores corrigidos de 2009 a 2013 por meio de uma gestora de ativos do ministro. O titular da Economia diz que o inquérito seria ilegal e sem provas.

O mesmo Guedes, que considera os salários de servidores públicos que atingem ou superam com penduricalhos o teto constitucional de R$ 39 mil “muito baixos”, é o ministro que propôs congelar a correção inflacionária do Benefício de Prestação Continuada (BPC), de aposentadorias e pensões para financiar o Renda Brasil, programa que substituiria o auxílio emergencial e o Bolsa Família no governo Bolsonaro. Em ação prudencial, o presidente tratou logo de cortar qualquer discussão nesse sentido e suspendeu o Renda Brasil até que se encontre uma forma de colocar recursos que não penalize os brasileiros que recebem tão pouco.

Na base do governo no Congresso, parlamentares fazem críticas duras a Paulo Guedes. Alguns publicamente e outros nos bastidores de Brasília. Um dos legisladores que apoia a gestão Bolsonaro disse à coluna Conexão que os ministros precisam estar alinhados com o discurso do presidente. “Se o ministro é um auxiliar do presidente e não defende o plano de governo do Bolsonaro e o que o presidente quer para o País, então Paulo Guedes está no lugar errado.” Entre os apoiadores de Bolsonaro no Congresso, as críticas aos projetos apresentados por Guedes de reforma tributária e administrativa são muitas.

Até aqui, o liberal Guedes já propôs recriar a CPMF, congelar a correção inflacionária anual de aposentadorias, BPCs e pensões, cortar o Sistema S, aumentar o imposto do Simples Nacional e subir para 12% as cobranças de PIS e Cofins na CBS | Foto: Reprodução/CNN Brasil

Na reforma tributária, o ministro da Economia propôs criar a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) como uma junção do PIS/Pasep e Cofins. Senadores e deputados federais criticaram bastante a proposta, que ficou muito aquém da discussão feita na Câmara nos últimos quatro anos. Para os parlamentares, a pior parte é o aumento da alíquota dos impostos federais para 12%. Alguns setores saltam de 9% para 12%, mas outros vão de 3% para 12%. A proposta pegou tão mal que o governo já tirou o caráter de urgência pedido na tramitação e apresentou outra enganação chamada reforma administrativa. Nem o mercado acredita mais que os dois projetos serão votados.

Reforma vazia

Quando o governo apresentou a reforma administrativa, sem definir quais setores do serviço público seriam afetados e abriu mão de discutir as carreiras do Legislativo, Judiciário e dos militares em um texto separado, deputados, senadores e analistas econômicos questionaram a finalidade da proposta. Não se sabe quem terá o salário ou outras vantagens reduzidos.

A impressão que foi deixada é a de que a equipe de Paulo Guedes entrega qualquer coisa para se livrar da pressão do momento. Guedes e seus auxiliares estão há 1 ano e 9 meses no Ministério da Economia. O tempo inteiro, o ministro afirmou que a pasta tinha propostas bem estruturadas e definidas para a mudança nos tributos e na estrutura do serviço público. Ao apresentar os textos, transpareceu que são apenas esboços.

Mas como o ministro está preocupado em demonstrar seu preconceito com a empregada doméstica conseguir parcelar uma viagem de avião dentro ou fora do Brasil, faltou tempo para trabalhar. Como bem definiu o jornalista Elio Gaspari em sua coluna de 16 de setembro, “Paulo Guedes e os çábios da ekipekonômika insistem em morder o andar de baixo”.

“Uma festa danada”

“Todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para Disneylândia, uma festa danada. Pera aí. Vai passear ali em Foz do Iguaçu, vai passear ali no Nordeste, está cheio de praia bonita. Vai para Cachoeiro de Itapemirim, vai conhecer onde o Roberto Carlos nasceu”, disse o titular da Economia ao tentar justificar que a alta do dólar não significava que o “câmbio não está nervoso, [o câmbio] mudou”.

Sem resultados concretos a apresentar, Paulo Guedes segue no governo, mesmo que ignorado pelo restante dos ministros e pelo presidente Jair Bolsonaro, como a imagem de um liberalismo de mercado que nem mesmo o titular da Economia representa. Diariamente colocado em fritura, Guedes continua no cargo porque é um parasita. Não tem o que oferecer, as ideias para salvar a economia não se baseiam em números ou se justificam, tenta cortar sempre do lado mais fraco, mas continua a receber o salário e todos os benefícios do cargo na conta.

“Uma festa danada”, com R$ 7.733 mensais de auxílio-moradia, R$ 7.501 em 60 diárias para o Rio de Janeiro até julho – a maioria das viagens às quintas-feiras – e R$ 458 por mês de auxílio-alimentação. Os R$ 15.692 não fazem parte dos R$ R$ 30,9 mil de salário mensal do ministro da Economia. Vê-se, em números, que vale a pena suportar o constrangimento público de ser retirado de entrevista pelo líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros (PP-PR), e pelo ministro-chefe da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, enquanto falava, como mostrou ao vivo na quarta-feira, 23, a CNN Brasil. É a meritocracia dos incompetentes. Ou seria dos parasitas?

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