Afonso Lopes
Afonso Lopes

Oposição aposta em final de ciclo histórico

Qual é a grande proposta dos opositores ao atual governo de Goiás para disputar e vencer as eleições deste ano? Não há. As oposições até agora batem cabeça e não desenvolvem temas para oferecer ao eleitorado

No sistema democrático as trocas de correntes de governo é absolutamente natural. É do jogo, sem dúvida. Muitas vezes essa mudança brusca de rumos ocorre de quatro em quatro anos. Noutras, o grupamento que domina o poder central consegue vencer eleições seguidamente. Esse é o modelo que tem marcado Goiás politicamente.

Este ano, mais uma vez, diga-se, os opositores esfregam as mãos por entenderem que o ciclo do atual grupo, que está no comando desde 1999, está no fim. Aliás, há inclusive alguns setores dentro da chamada base aliada estadual, aparentemente poucos e bastante isolados, que igualmente acreditam nessa tese de final de ciclo, e abrem conversas pra lá de conspiratórias com grupos oposicionistas.

Curiosamente, esses dissidentes estariam procurando uma maneira de se prolongarem em ciclos governistas independentemente da atuação do grupamento como um todo. Historicamente, porém, não fazem muita diferença política e são malvistos pelos dois lados. Até porque há uma diferença entre mudar de lado por alguma discordância de fundo e mudar para se preservar enquanto frequentador do ciclo de poder.

A aposta oposicionista para 2018, de que o atual grupamento perdeu o elã e por essa razão perderá as eleições, faz sentido? Claro que sim, mas não deixa de ser somente uma aposta. Essa avaliação será feita pela própria população nas urnas. Desde 2002 os opositores apostam a mesma coisa, e sempre perdem. E tem mais: nas cinco eleições realizadas nesse período, em três delas candidatos da oposição surgiram na ponta em todas as pesquisas. Nas outras duas, o candidato governista na melhor das hipóteses dividia a liderança sem grande folga em relação ao adversário.

O maior drama da oposição em todo o ciclo de derrotas que se segue é a ausência de propostas alternativas ao modelo de governo que aí está. Nunca, jamais os candidatos oposicionistas em Goiás avançaram um só milímetro. No máximo, passam o tempo todo criticando, às vezes de forma duríssima, mas sem conteúdo pragmático que seduza o eleitor.

Não é difícil observar essa realidade. Maguito e Iris, que se alternaram na disputa contra a base aliada estadual, centraram suas campanhas em um mote estático, ligado ao passado deles como governantes que foram. Outros candidatos opositores nem isso puderam apresentar, resumindo seus protagonismos nas campanhas eleitorais a um rol de críticas e promessas de “mudar tudo o que aí está”, sem detalhar o quê e como mudar alguma coisa. Até hoje, o eleitor goiano rechaçou tais comportamentos.

Quando se analisa politicamente um quadro sucessório, um expressivo grupo político, tanto do governo como da oposição, entende-se que as propostas a serem apresentadas para o eleitorado é o que menos impacta no enorme e exaustivo trabalho de conquista da confiança do eleitor. Mais fácil seria seduzir pela emoção. Em tese isso tem cabimento. A paixão fácil e instantânea tem efeito imediato. O problema é que “amores de verão não sobem a serra”. Ou seja, é um ânimo tão avassalador quanto passageiro.

A oposição tem abusado dessa prática ilusória. Até aqui, não se ouviu nenhum dos principais nomes colocados no mercado sucessório falar sobre o que pretendem mostrar ao eleitorado, quais as propostas alternativas que ele pretende encabeçar para promover a grande mudança — e o consequente final do atual ciclo de poder. Nenhum deles se mostra diferente em termos de substrato para compor uma administração que possa desenvolver as tais mudanças.

Quando se cobra deles a apresentação de propostas alternativas, esses candidatos costumam sair pelas tangências e, no máximo, dizem que o programa de seus governos será elaborado ou está sendo elaborado. Isso esbarra no conceito da credibilidade porque coloca o principal como secundário, restando então apenas a campanha da paixão instantânea, porém efêmera.

Se a total ausência de discussão de propostas alternativas de governo é um problemão para a oposição, o governo também precisa se mexer para evitar surpresas desagradáveis em plena campanha. Há uma tendência de se provocar o eleitor apresentando uma roupagem nova para ideias que não são inéditas. Candidatos governistas não podem tentar passar a imagem de continuísmo, mas de continuidade. As palavras são muito parecidas, e uma situação é sutil em relação à outra quando mal formulada. Cabe ao governo reciclar-se enquanto proposta para se credenciar e se perpetuar no comando. Ou seja, é preciso mirar no futuro sem perder a referência daquilo que se conquistou enquanto avanço. Não é tarefa simples formular a continuidade sem esbarrar no continuísmo, mas é fundamental que o candidato governista faça isso. O retrovisor mostra apenas o caminho que foi percorrido. Essa deve ser a ideia: olhar para a frente, e levar o eleitor a fazer isso também, tendo como base de sustentação o que já foi feito. Ciclos de governo só acabam quando se esgotam em relação ao futuro.

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Luciano Almeida

Perfeito! Felizmente, os “próceres” da oposição não cultivam o hábito da leitura. Como seus “cérebros” são inabilitados à reflexão este artigo poderia inspirá-los a consultar a opinião do eleitor – e daí propor planos de governos ficcionais, mentirosamente elaborados para aparentar compromisso com os anseios da população, somente para obter votos e vencer as eleições; depois fariam o que sabem: nada. Bendita indigência mental, santa incompetência!