Afonso Lopes
Afonso Lopes

O que 20 anos de eleição revela?

Na semana que passou, foi dado o start para as pesquisas pré-eleitorais. É quase uma tradição na política estadual. Mas, afinal, esses levantamentos indicam alguma coisa real para a futura eleição?

Urna eletrônica. Foto: Nelson Jr./ ASICS/TSE

Pesquisas eleitorais realizadas com um ano de antecedência projetam de certa forma alguma tendência para a eleição? Em termos de resultado, a resposta é não. Pelo menos é o que se pode perceber muito claramente observando as pesquisas realizadas em período semelhante nas últimas duas décadas, em Goiás. Em praticamente todas as cinco eleições que nesse período, os números iniciais das pesquisas não se confirmaram nas eleições. Em alguns caso, nem ao menos como tendência futura. Se é assim, como tem sido, por que as pesquisas causam tanta fervura no caldeirão político. Ora, porque o assunto sempre incendeia o lado mais humano e latino das campanhas políticas: a emoção. Pro bem e para o mal.

E não é só na disputa para o governo estadual que pesquisas temporãs são destruídas pelos resultados das urnas. Isso já ocorreu várias vezes tanto na disputa pela Presi­dência como na corrida pela Prefeitura de Goiânia. Em 1994, na eleição de Fernando Henrique Cardoso, as primeiras pesquisas mostravam Luiz Inácio Lula da Silva bem à frente dos demais adversários. No final, FHC ganhou os dois turnos. E Lula também havia largado na dianteira nas duas eleições anteriores, em 1989, que acabou vencida por um candidato até então muito pouco conhecido, Fernando Collor, que nem era citado nos primeiros levantamentos.

Em Goiânia, esse fenômeno acontece em menor escala, mas algumas vezes são incríveis. Em outubro e novembro de 2011, o então prefeito Paulo Garcia (falecido recentemente), herdeiro do cargo em 2010 com a desincompatibilização de Iris Rezende para disputar o governo do Estado, aparecia com porcentuais tão insignificantes que petistas de sua própria corrente interna não botavam a menor fé em sua candidatura. Um ano depois, Paulo não apenas derrotou todos os adversários como conseguiu a proeza de fazer isso já no primeiro turno, tornando-se assim o segundo prefeito da história a liquidar a eleição em turno único — o primeiro foi Iris Rezende, na eleição anterior.

Nas eleições estaduais, as pesquisas temporãs revelam quadros que na realidade produzem algumas catástrofes para os tais favoritos de primeira hora. No início de 1998, quando seria natural a candidatura do então governador Maguito Vilela à reeleição, Iris Rezende resolveu abandonar o Ministério da Justiça de FHC para novamente disputar o governo, após ter sido eleito em 1982 e 1990. Nas primeiras pesquisas que incluíam o nome dele, sua dianteira era tão grande que a planície adversária não era povoada. Diante de mais de 70% de intenções de voto de Iris, a pequena oposição, composta por somente quatro partidos (PSDB, PP, DEM e PTB) correu o risco de perder por WO. Até que surgiu um nome disposto a disputar, e que acreditava naquilo que parecia ser absolutamente impossível: derrotar o até então invicto Iris Rezende. Marconi Perillo, então deputado federal, deixou uma reeleição considerada bastante tranquila para enfrentar a fera eleitoral. Os tais 70% de Iris, contra apenas 6% de Marconi, viraram fumaça. O peemedebista perdeu os dois turnos. No primeiro, somou 46,91% dos votos válidos, enquanto Marconi recebeu 48,59%. No segundo turno essa diferença aumentou: 53,28% contra 46,71%.

Um pulo até outubro de 2001, exatamente um ano antes da eleição. As pesquisas mostravam o senador Maguito Vilela com praticamente 17% de vantagem sobre a reeleição de Marconi.

Para o mundo fervilhante da política, a eleição de 2002 estava absolutamente perdida. Isso porque Maguito, apesar de ter passado quatro anos de seu mandato em Brasília, ainda tinha um recall fortíssimo de seu popularíssimo governo. Pois a eleição realmente foi perdida… por Maguito. Marconi, ao longo do ano, cresceu continuadamente e não apenas venceu a eleição, como conseguiu a vitória no primeiro turno. Até hoje, foi o único governador eleito em turno único, com 51,2% dos votos válidos. A frente de Maguito que era de 17% virou prejuízo de 19%, fechando a eleição com 32,7% dos votos válidos.

Em 2005 provando e comprovando que esse raio cai, sim, no mesmo lugar, e geralmente estraçalha pesquisas temporãs, Magui­to Vilela, Demóstenes Torres e Barbosa Neto era o trio que aparecia dividindo a bola da liderança rumo ao Palácio das Esmeraldas. Ocupando uma quarta e distante po­sição desse pelotão estava Al­cides Rodrigues, candidato à reeleição com a desincompatibilização de Marconi Perillo para disputar o Senado. Contados os votos um ano depois, Alcides cravou 48,22% dos votos contra 41,17% de Maguito, 6,56% de Barbosa Neto e 3,51% de Demóstenes. O se­gundo turno foi um passeio: Al­cides, o improvável um ano antes, bateu em 57,14% dos votos válidos, contra 42,86% de Maguito.

Em 2010, Marconi estaria de volta, mas o caminho estava bastante acidentado. Nas primeiras pesquisas os institutos registravam empate técnico, com Iris Rezende. Ele tinha as três máquinas administrativas contra ele: Prefeitura de Goiânia, nas mãos de Paulo Garcia, Governo do Estado, com o neoadversário Alcides, e o governo federal, com Lula. No primeiro turno, Marconi obteve frente de 10 pontos — 46,33% dos votos contra 36,38% de Iris. No segundo turno, com o empenho das três máquinas, a diferença caiu para pouco mais da metade, 6%.

Em 2014, já em meados do primeiro semestre, as pesquisas eram unânimes: Marconi, candidato à reeleição, corria algum risco. Todos os institutos mostravam Marconi na frente e Iris logo atrás, em empate técnico. Um instituto chegou a cravar, em julho, que o peemedebista tinha virado a eleição, com 34,5% contra 33,9% de Marconi, quadro de empate técnico. Computados os votos, Marconi tinha registrado uma vitória com nada menos que 17% de vantagem no primeiro turno — 45,86% contra 38,4% de Iris. A diferença ficou praticamente a mesma no segundo turno, com placar final de 57,44% contra 42,56%.

No resumo da ópera das pesquisas eleitorais temporãs, realizadas com grande antecedência e ainda sem condições de captar o emocional da campanha, fica o histórico de que esses levantamentos servem para mexer com a militância, para o bem e para o mal, mas nunca funcionam como parâmetro de previsão de resultado futuro. l

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