Afonso Lopes
Afonso Lopes

O governo Dilma subiu no telhado

Sem apontar saídas para a crise, e diante da falta de perspectiva de liderança, presidente da República poderá, sim, sofrer o impedimento

Dilma Rousseff| Lula Marques/Agência PT

Dilma Rousseff: talvez a população prefira as incertezas sem ela às certezas daquilo que tem feito à frente da Presidência| Lula Marques/Agência PT

Dilma Rousseff era a­pon­tada como uma técnica. Pelo menos para o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Talvez, em meados de 2009, um ano antes de encerrar seu segundo mandato, Lula tenha imaginado e colocado em prática uma engenharia de poder que, no papel, teria tudo para funcionar. Ela, Dilma, a ungida dele, seria eleita presidente e tocaria a administração. Ele, Lula, o tutor dela, seria o presidente político do governo.

É óbvio que essa tese meio conspiratória não tem como ser comprovada; a não ser que o próprio Lula algum dia admita que realmente imaginou essa artimanha com o propósito de esticar politicamente seu próprio governo através da administração de Dilma. De qualquer forma, a tese passou a fazer sentido — e portanto não é ridícula — diante de tudo o que vem acontecendo neste ano. A presidente Dilma tem se revelado um equívoco completo e se acabado em matéria de política. Ela simplesmente não é do ramo. Sem ser deselegante, não seria exagero compará-la na Presidência com um jabuti em cima de uma árvore: ambos foram colocados lá por alguém. No caso dela, por Lula.

Enquanto a economia estava rodando, ainda que registrando trancos e barrancos, até que Dilma Rousseff não foi problema. No máximo, reclamou-se o tempo todo por ela não conseguir alicerçar de vez o crescimento econômico e, assim, se desvencilhar dos anos de “pibinho”. E tome um PAC aqui, outro PAC acolá, uma isenção de impostos ali, outra lá, e sem nada realmente básico para financiar um crescimento seguro.

De um momento para outro, o que nunca foi bem entornou de vez. No ano passado, e em meio a uma campanha eleitoral, Dilma Rousseff fez o que poderia fazer, e também o que não deveria e nem poderia ter feito, para disfarçar as evidências de que a máquina estava finalmente parando de vez. Seu principal opositor na disputa, o senador Aécio Neves, bateu insistentemente na tese de que o castelo econômico de Dilma era de areia, e que um vendaval agora em 2015 o destruiria por completo. Chegou a anunciar seus planos de recuperação da economia. Mas a maioria da população, especialmente aquela radicada no Nordeste maravilha, deu a Dilma votação suficiente para superar e derrotar o pessimismo do sul-sudeste.

O prognóstico de Aécio estava corretíssimo, como se vê agora. A economia brasileira havia navegado num pân­tano absolutamente perigoso ao longo dos últimos 10 anos, ignorando evidentes sinais de que a época de fartura de preços altos das commodities tinha acabado e, mais do que isso, não haveria caixa suficiente para cobrir os altíssimos custos de um Estado perdulário, imprecavido e absolutamente irresponsável do ponto de vista do equilíbrio fiscal. As tais pedaladas no final do ano passado, que o governo tenta mas não consegue explicar sem ter que admitir a falcatrua, formam o conjunto de provas cabais dessa tremenda irresponsabilidade.

E aqui, diante desse quadro apocalíptico na economia, se evidencia a falta de traquejo político de Dilma Rousseff. Ela realmente não é do ramo. Aos poucos, a crise econômica provocada por um ajuste fiscal maluco, que aumenta por decreto o custo do imenso estoque da dívida pública numa ponta ao mesmo tempo em que eleva ainda mais a carga tributária para suportar essa despesa extra, solapou a base política. Para completar o dantesco quadro atual do país, a Operação Lava Jato criou o terceiro grande problema neste mandato de Dilma Rousseff: a crise moral e ética.

Esse, grosso modo, é o triunvirato que tem elevado os tambores da crise brasileira. Na economia, o governo anuncia uma medida pela manhã e já no final do dia “desanuncia”. De Curitiba, a cada nova delação, um monte de reputações é atirado no lixo enquanto o país se escandaliza ao tomar conhecimento de que quadrilhas foram formadas nos principais salões da República para saquear todo e qualquer bem disponível. No Congresso Nacional, onde respinga lama do pré-sal, embora sob sigilo da legislação que privilegia a classe política brasileira, as labaredas de uma opinião pública cada vez mais irada diante dos problemas econômicos que devoram velozmente qualquer perspectiva de manutenção sequer da atual qualidade de vida, formou o quadro definitivo que poderá desencadear o processo de impeachment de Dilma Rousseff.

Sim, o impedimento constitucional da presidente não tem mais como ser classificado como golpe ou um hipotético 3º turno eleitoral. Ao contrário, trata-se de uma possibilidade não apenas legal como amplamente amparada pela Consti­tuição brasileira. E uma medida como essa, que não deixa de ser uma brutalidade democrática, pode estar a caminho.

É claro que tirar a presidente Dilma do comando do Brasil não vai resolver todos os problemas. Em 1992, quando o atual senador Fernando Collor foi impedido, havia um vice-presidente absolutamente confiável, Itamar Franco. E não há como traçar paralelos entre aquele Itamar e o atual vice, Michel Temer. Em ne­nhum sentido, e nem no aspecto do momento histórico. Itamar era uma es­perança – que, por sinal, se revelou cor­reta. Temer não tem o mesmo status quo.

Esse quadro revela uma situação de desconforto total pelas incertezas futuras que um impeachment de Dilma Rousseff por certo criaria. Mas talvez a população entenda que a incerteza sem Dilma pode ser melhor do que as certezas atuais com ela na Presidência. O mandato de Dilma subiu no telhado, e se ela tem algum pendor político ainda não revelado, terá que se esforçar para evitar o desfecho quase inevitável. Há tempo para isso? Há, mas talvez não haja política suficiente nas veias de Dilma Rousseff, a técnica que se revelou um fiasco.

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