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Augusto Diniz

O futebol brasileiro tem que parar

Primeira rodada incompleta do Brasileiro da Série A nem deveria ter começado. Já tivemos problemas no Carioca, mas o espetáculo do futebol não pode parar?

Futebol brasileiro adota medidas irresponsáveis, coloca jogadores, comissão técnica, árbitros e quem trabalha nas partidas em risco para manter competições sem se importar com a saúde de empregados e suas famílias | Foto: Heber Gomes/AGIF

Futebol brasileiro adota medidas irresponsáveis, coloca jogadores, comissão técnica, árbitros e quem trabalha nas partidas em risco para manter competições sem se importar com a saúde de empregados e suas famílias | Foto: Heber Gomes/AGIF

O brasileiro que gosta de futebol se habituou a ver toda quarta-feira e domingo na TV aberta um jogo de algum campeonato, seja estadual, Copa do Brasil, Campeonato Brasileiro ou Libertadores. Não importa a competição, depois da novela e antes do Faustão sempre tem a hora de reunir os amigos e família em casa ou no bar para ver o time do coração em campo, mesmo que apenas pela televisão.

Mas 2020 deu um tom atípico a tudo na vida, inclusive nos espetáculos esportivos. A paixão de grande parte dos brasileiros, o futebol, parou em março por questões de segurança. Os jogadores, mesmo com estádios sem torcida, continuavam a se abraçar nas comemorações, discutir com bastante proximidade do adversário, um praticamente a cuspir na cara do outro.

Como trata-se de uma doença respiratória transmitida por gotículas de saliva, não é nada prudente dar chance ao aumento do contágio do Sars-CoV-2 e transformar uma partida de futebol em local de alto risco de transmissão do vírus responsável pela Covid-19. Não é uma doença qualquer, mais de 100 mil pessoas já morreram no Brasil.

Caso Volta Redonda

No final de junho, quando resolveram, com muita pressão de alguns dirigentes, retomar a disputa do Campeonato Carioca, no dia da partida Volta Redonda e Fluminense três atletas da equipe do interior do Rio de Janeiro testaram positivo para a Covid-19. Funcionários do clube que até a data do jogo estavam concentrados com outros jogadores, comissão técnica e outros empregados do clube.

A partida ocorreu assim mesmo, sem os três atletas. Mas quem garante que apenas não levar os três jogadores ao estádio evitou o contágio? Alguém, naquele momento, se preocupou com os familiares do gandula que buscava as bolas cheias de suor e saliva dos jogadores que mantiveram contato com aqueles funcionários do Volta Redonda?

Com a volta do Carioca, outros estaduais voltaram. Veio o Flamengo campeão no Rio, o Palmeiras no Rio, decisão que se inicia amanhã em Minas e outros campeonatos em andamento. Mas no sábado, 8, teve início o Campeonato Brasileiro. Se o problema já era grande nos Estados, imagine com o trânsito de jogadores e comissão técnica em aeroportos, ônibus fretados, hotéis e estádios em outras cidades?

Logo no Dia dos Pais!

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O Goiás Esporte Clube vem a público informar que, devido a quantidade de resultados positivos do Covid-19 nos exames apresentados pela CBF, está tentando junto a entidade o adiamento da partida deste domingo contra o São Paulo. O clube vem fazendo testes para coronavírus semanalmente, do tipo RT-PCR, o mais confiável. Além de jogadores, são feitos exames em membros da comissão técnica, estafe que trabalha no Centro de Treinamento e em jogos no estádio do time. Eram cerca de 70 testes feitos no Goiás Esporte Clube por semana. Antes do jogo contra o São Paulo, foi feita uma nova rodada de exames. Só que, ao contrário das vezes anteriores, desta vez a coleta foi realizada por um laboratório escolhido pela CBF. Os exames feitos na última quinta-feira foram invalidados pela CBF. A alegação é de que as amostras foram acondicionadas de maneira inapropriada. A CBF então pediu uma nova coleta ao laboratório, e os exames foram realizados na sexta-feira. A apresentação dos resultados deveria ter sido feita no mínimo com 24h de antecedência da partida, prazo este que não foi cumprido. Os resultados só ficaram disponíveis para o Goiás Esporte Clube na manhã deste domingo, dia do jogo. De 26 testes realizados pela CBF, 10 contaminados, sendo 8 jogadores da equipe titular. Para agravar mais a situação, os contaminados estavam concentrados, dormindo dois atletas por quarto. O clube acredita que se for para seguir um protocolo de segurança de saúde e prevenção ao Covid-19, todos deveriam estar em isolamento e observação pelo contato recente com pessoas contaminadas. O clube lamenta a situação e já realizou, por conta própria, uma nova bateria de exames nos contaminados. Resta agora aguardar se o pedido de adiamento do jogo será acatado ou não pela CBF.

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E no domingo, 9, Dia dos Pais, veio o que todo mundo esperava, mas fingia que não ocorreria no futebol brasileiro. Com atraso, dez atletas do Goiás testaram positivo e não puderam entrar em campo. O clube realizou novos exame de contraprova e nove daqueles jogadores estavam mesmo com Covid-19. A partida foi adiada pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD).

Antes do adiamento, atletas, comissão técnica e funcionários de Goiás e São Paulo entraram em Campo no Estádio da Serrinha, em Goiânia. Não jogaram, mas será que mais gente foi contaminada com o novo coronavírus. Soubemos hoje que não são apenas nove jogadores do time esmeraldino com Covid-19, mas 12.

Dois já estavam com a doença. Mais nove confirmaram a Covid-19 perto do horário da partida que não foi realizada, mas que outras pessoas que tiveram contato com os doentes dividiram o mesmo espaço, se exercitaram, fizeram aquecimento e conversaram no gramado. Hoje veio a notícia de que mais jogador do Goiás está com o novo coronavírus.

Viagem na janela de possível contágio

Outros funcionários do alviverde goiano vão entrar em campo amanhã em Curitiba, na Arena da Baixada, contra o Athletico Paranaense às 19h15. Todos – ou parte dos jogadores – tiveram contato com os 12 atletas doentes. A maioria na janela de até 14 para manifestar sintomas ou confirmar a Covid-19 em condição assintomática.

Prestem atenção. Os jogadores do Goiás que tiveram contato com outros jogadores vão sair de Goiânia, entrarão em um ônibus, descerão no aeroporto, passarão pela sala de embarque, terão contato com a equipe de comissários de bordo e outros passageiros – caso não seja um voo fretado.

E a possível tragédia continua. Desembarcarão em Curitiba, passarão pelo aeroporto, com outros passageiros que chegam ou parte para outras cidades, pegarão outro ônibus com motorista que mora em Curitiba ou em uma cidade vizinha, terão contato com funcionários do hotel onde ficarão hospedados, trabalhadores do estádio da partida, jogadores do time da casa, árbitros e outras pessoas.

Rota do contágio

Depois, o Athletico Paranaense enfrenta o Santos no domingo, 16, apenas quatro dias depois do contato com os jogadores do Goiás que frequentaram o mesmo centro de treinamento que 12 atletas doentes, no litoral paulista. Perceberam o tamanho do risco que é manter o calendário do futebol brasileiro.

Vamos imaginar que um jogador de apenas uma das 20 equipes da Série A do Brasileiro fure o isolamento, vá para o bar com os amigos depois de uma partida, volte para casa e contamine alguém da família. Torçamos para que a manutenção do campeonato pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) não continue até que mortes ocorram.

Mudar o protocolo da testagem para 12 horas antes da viagem para o time visitante ou 24 horas que antecedem o jogo para a equipe mandante não abrange o buraco de falha dos testes, mesmo o RT-PCR – considerado padrão ouro -, se o exame for feito no momento errado. Espero que CBF e clube não lavem as mãos em nome de dinheiro do direito de imagem e patrocinadores pela realização das partidas.

Hora de responsabilidade

Não é hora de brincar com a vida alheia para ter o futebol na TV toda quarta e domingo em casa ou no boteco. É imprudente, irresponsável e egoísta querer que competições esportivas ocorram com ou sem arquibancadas vazias.

Enquanto a sua diversão ou paixão está garantida, os funcionários que levam o espetáculo até a sua casa podem morrer para que você consiga gritar gol. O difícil é saber quem vai pagar a conta quando o artilheiro estiver na UTI ou no cemitério, sem direito a velório e sepultamento dignos.

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