Augusto Diniz
Augusto Diniz

O dia em que todos motoristas usavam seta no trânsito de Goiânia

Fui atravessar na faixa de pedestres e nem acreditei. O condutor reduziu a velocidade e respeitou meu direito de transitar pela rua sem buzinar ou bater farol alto

Nunca foi tão bom ser pedestre em Goiânia como no dia em que tudo no trânsito da capital funcionou em perfeitas condições de repeito à sinalização | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Saí do jornal às 19 horas na quarta-feira, 23, véspera do feriado de aniversário da capital. A ida ao trabalho naquele dia foi tumultuada. Ônibus lotado em corredores exclusivos tomados por motoristas em carros de passeio que tentavam ganhar tempo para deixar os filhos na escola depois de saírem atrasados no início do dia. Sem horário de verão, às 5h30 o dia amanheceu e o calor começava a incomodar.

Depois de uma rotina de 13 horas de trabalho, a opção foi por voltar a pé para casa. Um caminho desafiador, apesar de relativamente pequeno. Seis quilômetros me separavam do merecido descanso e a possibilidade de dormir até mais tarde no feriado. Mas enfrentar o trânsito de Goiânia não é um desafio dos mais animadores. Na posição de pedestre a coisa só piora. Mas tudo parecia bem diferente.

Ao chegar próximo à primeira faixa de pedestre do trajeto, todos os quatro carros, que respeitavam os 40 quilômetros por hora da velocidade máxima da via, pararam antes mesmo de qualquer sinal ou movimento que desse a entender que alguém atravessaria a rua. Nem me senti em Goiânia, cidade na qual a maioria dos condutores parece desconhecer o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) e finge esquecer o motivo da existência das faixas de pedestre pintadas no chão.

Para minha surpresa, ninguém acelerou quando estava no meio da travessia. Uma pequena vitória que merece ser destacada. O natural seria terminar de passar pela faixa apressado para não ser atropelado. 50 metros adiante, o motorista do carro branco deu seta para virar à esquerda, o que me causou espanto. Na hora pensei: “Estou mesmo em Goiânia?”.

Até então, sempre imaginei que as concessionárias ofereciam modelos mais simples de veículos e outros, linha de luxo, com o acréscimo da seta luminosa. A ideia que eu tinha era de que o item encarecia bastante os automóveis, por isso os compradores optavam pela não instalação de um dispositivo, que eu presumia, não ser obrigatório. Se quase ninguém usa, qual a razão de se ter no carro ou moto?

Quando o semáforo no cruzamento da Avenida T-9 com a Mutirão fechou, nenhum motorista tentou furar o sinal vermelho. Parei. Olhei. Aguardei cinco segundos. Só depois me senti seguro o suficiente para atravessar. O sentimento era de espanto. É praticamente raro em um cruzamento da cidade o momento em que um motociclista ou um motorista não ultrapassa, mesmo com a sinalização luminosa em perfeitas condições de visibilidade.

Enquanto seguia pela calçada, observei atento ao comportamento dos condutores. Ninguém, nem uma vez sequer, deixou de sinalizar com seta as mudanças de faixa em uma rua ou avenida durante aquela uma hora de caminhada. O que estava acontecendo? Logo à frente, um carro deu sinal para mudar da pista da direita para a da esquerda na baixada do Clube Oasis.

Fiquei boquiaberto quando o ônibus que vinha atrás na outra faixa reduziu para que o motorista conseguisse entrar na pista da esquerda antes de o veículo maior passar. Não houve uma mínima tentativa de acelerar parar impedir a troca de faixa. Nem uma ponta de disputa por espaço na T-9.

Continuei a caminhar e demorei a notar que os semáforos não eram mais monitorados por câmeras ou fotossensores. Como assim? Ninguém é mais multado? Isso aqui vai virar um caos! Peguei o celular e comecei a discar o (62) 3524-1220, telefone do Centro Operacional de Trânsito da Secretaria Municipal de Trânsito, Transporte e Mobilidade (COT-SMT). Nem foi preciso. Mais uma vez, os motoristas respeitavam o aviso de pare quando os semáforos fechavam.

E, para me deixar ainda mais escandalizado, os condutores reduziam a velocidade ao ver o sinal amarelar. Como todos sabem, a luz amarela do semáforo serve como um alerta de “acelere agora ou vai ficar parado, seu trouxa”. Tudo estava tão alterado na lógica do trânsito de Goiânia que o veículo nem parecia mais uma demonstração de poder. Ninguém tentava transformar as vias em extensões dos carros, propriedades privadas. Todos compreendiam e respeitavam o direito do outro de transitar.

Os ciclistas eram protegidos pelos automóveis, com motoristas que tomavam o cuidado de manter pelo menos 1,5 metro de distância. Ninguém acelerava, batia farol ou quase encostava no pneu traseiro das bicicletas para obrigar quem pedalava a sair da frente. Confesso que fiquei emocionado com tantas demonstrações de civilidade!

Um trânsito que não precisava ser ordenado pelo medo da multa, mas que se autorregulava pelo respeito ao próximo. Buzina? Parecia que elas nem existiam. Aquele barulho que revela o estresse e irritação do motorista que aciona o botão no meio do volante não surgiu em uma hora de caminhada. Não. Eu não estava no meio de um surto psicótico ou vivendo o mais belo e surreal dos sonhos. Eu estava em Goiânia, a cidade do trânsito exemplar.

Indústria da multa? Aquele início de noite era impensável que alguém reclamasse disso. Se ninguém desobedecia as regras de trânsito e dava espaço para o outro passar, quem consideraria uma infração cometida por um motorista uma perseguição do Estado?

A ideia inicial, de que andar a pé era um desafio à minha vida, passou ao chegar em casa. Fui convencido de que eu estava errado e tinha medo de algo que não existe. Caminhar pelas ruas e avenidas de Goiânia é sim bem seguro. Não fui atropelado ou me fizeram correr enquanto atravessava uma faixa ou fiquei na dúvida ao ver um carro em um cruzamento, sem saber se o motorista faria uma conversão sem usar a seta do veículo.

Percebi que minha preocupação não passava de uma ideia equivocada que alimentei por muitos anos. Obrigado, condutores de Goiânia, por fazerem do trânsito da cidade um local tão seguro para os pedestres. Continuem assim.

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