Augusto Diniz
Augusto Diniz

Moro fortalece núcleo autoritário da extrema direita e se coloca como ameaça à reeleição de Bolsonaro

Acuado por conteúdo de supostas conversas no Telegram com força-tarefa da Lava Jato, que ex-juiz não nega nem confirma, ministro da Justiça flerta com eleições de 2022

Sergio Moro CCJ Câmara - Foto Pablo Valadares Câmara dos Deputados

Ao adotar tom político, Moro se permite ser irônico com deputados federais eleitos, minimiza conteúdo de diálogos, mas se nega a confirmar se tudo não passa de uma grande armação ou que mente ao tentar se defender do conteúdo | Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

Isidoro Rozenblum Trosman e Rolando Rozenblum Elpern, pai e filho, devem trazer alguma lembrança ao ministro da Justiça e da Segurança Pública e ex-juiz Sergio Moro. Em 2006, os dois foram condenados em um processo que nasceu do caso Banestado, a Operação Pôr do Sol. Moro foi o responsável por sentenciar os Rozenblum pelo crime de corrupção ativa. Os dois foram investigados na Pôr do Sol por enviar dinheiro de forma ilegal para outros países.

O fato é que o Superior Tribunal de Justiça anulou todo o processo por ilegalidades cometidas pelo então juiz Sergio Moro, que autorizou que os telefones de Rolando Rozenblum fossem grampeados. Sabe por quanto tempo? Dois anos, um mês e 12 dias. O caso foi investigado por dois procuradores da República, curiosamente do Ministério Público Federal do Paraná: Deltan Dallagnol e Orlando Martello Júnior.

Os dois aparecem em vários dos diálogos obtidos por uma fonte não revelada pelo site The Intercept Brasil, material que já rendeu reportagens no veículo, na revista Veja, Folha de S.Paulo e rádio BandNews FM. Sabe quem foi a corte que manteve a condenação aplicada a pai e filho Rozenblum no caso da Operação Pôr do Sol? Uma Corte da segunda instância em Porto Alegre (RS) que anos depois ficaria muito conhecida entre a população por agravar a pena aplicada por Moro a um ex-presidente da República, o primeiro da história do Brasil a ser condenado à prisão. Justamente. O Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4).

Mas o caso ainda continua vivo. Depois que o STJ verificou a ilegalidade no período muito longo em que Moro manteve o filho dos Rozenblum grampeado e anulou o processo, o Ministério Público recorreu da decisão. O caso está marcado para ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no dia 6 de novembro de 2019. Trata-se do Recurso Extraordinário 625262.

Sergio Moro não é um criminoso. Muito menos herói. Só gente carente por líderes ao quais de forma ilusória possam entregar o rumo de suas vidas sem qualquer esforço acredita em agentes públicos e políticos na figura de mitos, mártires, presos políticos ou heróis. E essas pessoas foram às ruas no domingo, 30 de junho, fazer a defesa incondicional do ex-super-homem da Justiça brasileira. Ergueram boneco inflável gigantesco do antigo magistrado responsável pela 13ª Vara Federal em Curitiba (PR) com as roupas do Superman e gritaram palavras de ordem contra o STF e o Congresso Nacional.

O herói dos radicais respondeu à altura no mesmo dia: “Eu vejo, eu ouço, eu agradeço”. E aproveitou para se defender do conteúdo das supostas mensagens atribuídas a Moro e os integrantes da força-tarefa da Lava Jato. “Sempre agi com correção como juiz e agora como Ministro. Aceitei o convite para o MJSP [Ministério da Justiça e da Segurança Pública] para consolidar os avanços anticorrupção e combater o crime organizado e os crimes violentos. Essa é a missão. Muito a fazer.”

Ovacionado nas ruas. Isso o ministro Sergio Moro foi mesmo. Comemorado e defendido como o grande herói nacional, mais do que outros dois personagens da política brasileira citados nos atos pró-governo – me recuso a chamar de protesto algo que é a favor do que quer que seja -, o presidente (PSL) e o ministro da Economia, Paulo Guedes. Só que o poder de aglutinação do movimento em defesa da Lava Jato, Moro e do governo federal sofreu uma queda brusca na participação popular.

Apenas 88 cidades, o que ainda é considerável, fizeram frente aos 156 municípios que tiveram registro de atos nas ruas em 26 de maio. E isso com o Movimento Brasil Livre (MBL) e o Vem Pra Rua na mobilização do domingo passado. Fiasco total? Não. Mas evidencia que o apoio se fortaleceu nos redutos mais apaixonados e extremistas do governo, uma parcela do eleitorado de Bolsonaro que se sente órfã de um capitão que defenda suas bandeiras antidemocráticas.

E foi justamente com esse eleitor que Sergio Moro flertou ao dizer “eu vejo, eu ouço, eu agradeço”. Em uma postura um pouco diferente da adotada no Senado, quando foi à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara na terça-feira, 2, o ministro, que não é bobo, percebeu que grande parte daqueles que foram às ruas no dia 30 de junho pouco respeito tem pelo Congresso Nacional. Ao manter a mesma tranquilidade de antes, Moro incorporou a figura do irônico, que ridicularizava e ignorava questionamentos que não eram interessantes na sua construção discursiva de defesa.

Até chegou a aceitar, meio que sem jeito, um troféu da “Champions League do Combate à Corrupção” do deputado Emerson Miguel Petriv, do Pros do Paraná. O parlamentar que adota o nome fantasia Boca Aberta, fez um dos shows mais memoráveis e vergonhosos da sessão, mas que não foi o único. Todas as mentiras e inconsistências das declarações de Moro na CCJ ganharam força de verdade com o final que o beneficiou. Glauber Braga (Psol-RJ) construía uma análise interessante, com base nos diálogos divulgados pelas reportagens do que ficou conhecido como #VazaJato, mas a conclusão apagou tudo o que disse antes.

Ao apelar para a ofensa gratuita, violenta e descabida, Braga deu força à defesa incontestável dos moristas. Chamar o ministro da Justiça de “juiz ladrão” era tudo que Moro precisava para não só deixar a sessão escoltado pelo presidente da CCJ, deputado Felipe Francischini (PSL-PR), mas para ver a repercussão entre seus apoiadores na opinião pública como a vergonha de deputados sem educação e moral atacando um herói nacional.

Em sua estratégia contraditória, Moro mente que nunca cometeu ilicitudes nos processos que analisou enquanto era juiz. Vale citar aqui o caso dos Rozenblum na Operação Pôr do Sol, além da interceptação e divulgação ilegais da conversa telefônica entre a então presidente Dilma Rousseff (PT) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2016, que foi anulada por ser irregular pelo antigo relator da Lava Jato no STF, o falecido ministro Teori Zavascki, só para ficar nos casos confirmados.

Moro diz que as mensagens divulgadas por matérias jornalísticas foram obtidas de forma ilegal, por meio de um ataque hacker, algo que não foi confirmado até o momento pela Polícia Federal. Se o ministro tem tanta certeza de algo que é uma possibilidade, como diz que foi alterado o conteúdo de mensagens que comenta o assunto e afirma não ver nada de mais? O jogo aqui é da retórica para a plateia que lhe interessa. Mas precisamos reconhecer que trata-se de uma audiência muito desatenta.

Hoje Moro pode aparecer no Maracanã ao lado do presidente Jair Bolsonaro na final da Copa América. Será uma boa oportunidade de ver quem tem mais prestígio com os apoiadores do governo. Se no início do escândalo das supostas conversas, em 9 de junho, quem precisava ser arrastado por Bolsonaro para o camarote do estádio em Brasília era Moro, talvez depois dos atos pró-Lava Jato o chefe do Executivo tenha percebido que surgiu, e com força, dentro de seu governo um poderosíssimo herói pré-candidato a presidente da República em 2022.

Não com poderes sobrenaturais, como no caso do Superman, mas com o apoio do núcleo autoritário e antidemocrático que Bolsonaro tem perdido aos poucos por não ser o exterminador de minorias que prometeu ser na campanha de 2018. Metralhar a petralhada é o que muitos deles defendem. Mas o poder da caneta do presidente tem se mostrado, até aqui, efetivo apenas no discurso.

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