Augusto Diniz

Ministério da Saúde deixa população à deriva na pandemia

Deboche institucional do governo federal com vítimas da Covid-19 larga população brasileira à sorte de disputas políticas que só têm olhares para 2022

Enquanto o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que chegou ao cargo como “especialista em logística”, não pode contrariar o chefe, presidente Jair Bolsonaro (sem partido) brinca com a vida dos brasileiros | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O brasileiro está perdido. Não sabe se ouve o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, nem se consegue acompanhar as mudanças de declarações e de lado do titular da pasta. O povo não tem como definir se presta atenção em um plano de vacinação com data marcada, mas sem informações sobre a fase três da vacina comprada, pelo governo de São Paulo. Ou se a população acredita no negacionismo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que já deu inúmeras informações falsas sobre o vírus, a doença e seu tratamento.

A Coronavac, vacina contra a Covid-19 desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantã, ganhou cronograma de início de aplicação das doses anunciada pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB). Nas palavras do tucano, o dia 25 de janeiro marca o início da vacinação contra o novo coronavírus (Sars-CoV-2) no território paulista. Mas nem informações sobre a fase três da pesquisa da Sinovac o mundo conhece. Sem a aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), nada garante que dia 25 de janeiro teremos brasileiros vacinados em São Paulo.

O jogo de Doria é político. Disputa com Bolsonaro destaque nacional e projeção para as eleições presidenciais em 2022. Mas vai além. É uma tentativa de pressionar o governo federal a agir. No início de fevereiro, o Ministério da Saúde ironizava a Coronavac em alinhamento com a posição do presidente da República, que tentou de todas as formas usar a Anvisa politicamente para barrar a fase três de testes da vacina chinesa em parceria com o Butantan. Para Bolsonaro, ver a Coronavac em uso é assistir a João Doria sair na frente na corrida pelo Palácio do Planalto.

Ação antecipada

Mas o governo poderia ter antecipado a movimentação das peças de Doria no tabuleiro da pandemia. Bolsonaro teve condições de fechar acordo com o Instituto Butantan e a Sinovac para comprar doses da vacina. Só que preferiu envergonhar mais um ministro da Saúde ao desautorizar o anúncio de Pazuello de que a União iria negociar com o laboratório chinês a compra da Coronavac. Em seguida, o “especialista em logística” precisou dar justificativas sobre o motivo de mais de 7 milhões de testes RT-PCR – considerado padrão ouro entre os exames de Covid-19 – terem ficado parados no Aeroporto de Guarulhos até perder a validade. Foi necessário acionar a Anvisa para prorrogar o prazo de uso dos exames e dizer que era um procedimento já acordado de ampliar a validade dos testes.

Com indícios de que logística não é mesmo uma marca forte da gestão Eduardo Pazuello à frente do Ministério da Saúde, restou ao governo federal tentar reagir ao ímpeto atropelado de Doria ao anunciar a vacinação para 25 de janeiro. O governo foi obrigado a chamar a CNN Brasil e anunciar na emissora de TV que o Brasil poderia começar a vacinar entre dezembro e janeiro a população contra a Covid-19 em acordo com a Pfizer e BioNTech. Até o momento, a vacina dos laboratórios norte-americano e alemão, que tem 95% de eficácia nas fases de teste, recebeu aprovação de uso emergencial no Canadá, Reino Unido e Bahrein. Na quinta-feira, 10, os Estados Unidos autorizaram o uso de 100 milhões de doses compradas da vacinda da Pfizer e BioNTech.

A pressão sobre o governo federal aumentou na terça-feira, 8, dia em que o Reino Unido começou a se vacinar contra a Covid-19 com a vacina da Pfizer. Como o Ministério da Saúde apostou todas as fichas em apenas um laboratório, o da Universidade de Oxford, o Brasil ficou para trás na corrida por doses do imunizante contra a Covid-19. A fase três da pesquisa da Oxford e do laboratório AstraZeneca apresentou problemas. Foram feitos testes diferentes de dosagem com grupos distintos de voluntários, o que atrasa o início de aplicação da vacina com autorização de uso emergencial nos países que compraram antecipadamente a vacina de Oxford.

Vacinação em dezembro?

Quando anunciou que seria possível começar a vacinar no final de dezembro, em resposta ao cronograma de São Paulo, o governo federal esqueceu de combinar com a Pfizer. Na manhã seguinte, o laboratório norte-americano informou que o Ministério da Saúde não havia assinado contrato de compra de nenhuma dose da vacina até a quinta-feira, 10. Uma semana antes, Pazuello ironizava publicamente o potencial de contaminação das pessoas e de surgimento de novos casos a partir de eventos de campanha eleitoral com aglomerações. Tudo isso para dizer o absurdo de que o isolamento não se mostra mais necessário. Como o falador sempre paga caro por aquilo que vocifera sem comprovação, na semana seguinte foi obrigado a dar uma resposta, que até agora não é nem de longe efetiva, para a saída na frente do governo de São Paulo.

Para piorar, os casos e mortes voltaram a subir por Covid-19 no Brasil. Justamente 14 dias depois do fim das eleições. Na quinta-feira, os óbitos confirmados que tiveram como causa a doença totalizavam mais de 700 em 24 horas. Na falta de ação, restou ao governo federal fazer promessas que dificilmente terá como cumprir. A Pfizer revelou há três dias que oferece doses da vacina há mais de quatro meses ao Palácio do Planalto, que se negou a fazer qualquer tratativa com o laboratório norte-americano. Outro exemplo da má gestão da pandemia veio com a demora do Brasil em decidir entrar para o consórcio Covax Facility. O governo federal só anunciou que faria parte do grupo liderado pela Organização Mundial da Saúde para compra de doses em conjunto na data-limite de encerramento das inscrições, 18 de setembro.

Enquanto o Brasil é o único país do mundo que ainda recomenda o tratamento precoce comprovadamente ineficaz contra a Covid-19 com uso de hidroxicloroquina, ainda mais depois de fazer o Exército gastar mais de R$ 1,5 milhão até o final de junho, como parte da política de prevenção e combate à pandemia do Ministério da Saúde, parece difícil acreditar que teremos vacina distribuída para os Estados e municípios brasileiros pelo “especialista em logística” e sua equipe em dezembro, janeiro, fevereiro, março ou até o meio do ano.

Sobrou…

Nos resta torcer por migalhas. Temos um Plano Nacional de Imunização que é referência mundial pelas campanhas vitoriosas de vacinação em todo o território brasileiro. Mas que tem sido desmontado e sucateado. Aliás, quando é mesmo que o ministro Eduardo Pazuello irá apresentar o plano de vacinação contra a Covid-19? Ah! Deixa pra lá!

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