Augusto Diniz
Augusto Diniz

Meus amigos vão parar no hospital toda vez que você chama a galera para aproveitar uma live na sua casa

Mesmo depois de 54 dias em casa, com saídas só quando são extremamente necessárias, não me sinto no direito de aproveitar meu tempo livre na rua e colocar a vida dos outros em risco

Margherito, quando você receber alta no hospital, vou enfim conhecer seu estúdio em São Paulo e vamos ter ainda mais motivos para comemorar quando a pandemia passar| Foto: Arquivo pessoal

“Mesmo me cuidando, indo apenas ao mercado, eu me ferrei! Estou a cinco minutos de uma cirurgia nos rins e na tomografia meu pulmão apareceu turvo, um dos principais sintomas dessa merda de doença [Covid-19].” As palavras são do fotógrafo paulistano Pedro Margherito, que foi submetido ao procedimento médico no final da tarde de hoje. Não há informações sobre o estado de saúde do paciente de 37 anos.

Conheci Margherito na cobertura do Grito Rock Goiânia de 2015, durante o carnaval daquele ano. Entre as três noites do evento, cada um fazia seu trabalho. Eu acompanhava os shows para o veículo no qual era repórter e o fotógrafo foi contratado pela Fósforo Cultural para registrar as apresentações.

Na correria do trabalho durante a maratona musical, conversamos mais em uma festa depois da última data. Ele editava as fotos para enviar aos produtores do Grito Rock, eu relaxava na rede enquanto bebia cerveja na área de churrasqueira de um albergue no qual estavam hospedados artistas de outras cidades que vieram tocar em Goiânia.

Conversa que vira amizade

Pedi fotos de alguns shows para usar no material que publicaria no dia seguinte, solicitação prontamente atendida pelo fotógrafo. Como muita coisa na vida, nada como simpatia, meia hora de conversa e uma cerveja para fazer desconhecidos virarem amigos em poucos minutos. Hoje fui pego de surpresa pela publicação de Margherito no Facebook. O paulistano não só revelava que era um dos pacientes internados por causa da Covid-19, como passaria por uma cirurgia nos rins.

Voltamos no metrô após o show da St. Vincent em São Paulo, no Cine Joia, em abril do ano passado, e Margherito me contava sobre o Studio Primavera, que tocava com a esposa, enquanto divida o tempo com os filhos mais novos. “Próxima vez que vier a São Paulo você fica lá em casa. Precisa conhecer meu estúdio”, repetia o convite quando desci do metrô.

Cinco minutos antes de ser operado, o paulistano fez um apelo na rede social: “Eu vim aqui pedir pra você ficar em casa, pra você respeitar o próximo e usar máscara e parar de dizer que você tem o direito de ir e vir”. E ele tem razão. Tenho acompanhado o barulho e a empolgação dos vizinhos regada a muita bebida e churrasco quando lives de grandes artistas vão ao ar durante a pandemia.

Privilégio descartável

Se não bastasse a irresponsabilidade de parte das equipes de produção e patrocinadores, que insistem em colocar garçons, áreas vips atrás das câmeras e muita gente trabalhando durante a transmissão ao vivo pelas redes sociais, as pessoas acham que estão de férias porque a faculdade ou a escola está fechada ou a empresa de quem tem esse privilégio autorizou o teletrabalho (home office).

Saiba que você está muito melhor do que a maioria dos brasileiros, que dormem nas filas em frente a agências da Caixa Econômica Federal para tentar receber R$ 600 que já deveriam estar disponíveis do auxílio emergencial. Você é um privilegiado, como bem disse Margherito. “Não, você não tem direito de ir e vir numa situação sanitária dessa. O seu direito de ir e vir não pode significar a possibilidade de infecção e óbito alheio.”

Lembro que o fotógrafo ficou muito tempo com um dos pés em recuperação depois de um tombo que tomou do alto das caixas de som de um dos palcos de um festival ao buscar o melhor anglo possível para fotografar uma das bandas que se apresentava em 2016 na Esplanada JK do Centro Cultural Oscar Niemeyer. A história do pé rendeu muitas risadas depois. Mas a preocupação foi geral entre os fotógrafos, cinegrafistas e repórteres que faziam daquele encontro anual uma grande festa.

Apelo

“O nome disso é egoísmo”, continuou Margherito sobre as pessoas que podem ficar em casa, mas decidem colocar a vida dos outros em risco, como possivelmente ocorreu com o fotógrafo, que pode ter pego a Covid-19 de alguém que olhou para o umbigo e decidiu não se resguardar pelo bem de todos. “Me desejem sorte porque no meio dessa merda toda vou ainda ter que operar os rins. Espero sair dessa inteiro pra ir puxar o seu rabo antes que vocês alastrem mais essa ideia pífia de que isso é invenção da mídia.”

De repente, as lembranças de um profissional sempre disposto a ajudar quem precisava de um favor que fosse, seja na hora de reclamar de um patrocinador que queria dançar na frente das câmeras diante do palco e atrapalhava quem estava ali para trabalhar ou encontrar o melhor lugar para encarar 100 mil pessoas no Autódromo de São Paulo em um show bastante aguardado do dia, se transformaram em um misto de preocupação e raiva.

Para acalmar um pouco o baque dos amigos que liam a notícia dada por uma pessoa prestes a ser operada em um hospital, o recado duro vinha de quem estava mais debilitado naquele momento. “Não sejam idiotas, não tem cura, não tem vacina, cloroquina mata, tua ignorância mata e as fake news que vocês espalham também matam. Torçam por mim, não vim lá de baixo e me esforcei tanto pra deixar três filhos e uma mulher maravilhosa no mundo sozinhos por causa do egoísmo do churrasco do prédio de vocês”, mostrava força no momento mais difícil Margherito.

Vítimas da pandemia

No meio do desabafo, o fotógrafo infelizmente era só mais um entre 58.573 pessoas em acompanhamento e  114.715 casos confirmados da Covid-19 no País em 69 dias da certeza da chegada do novo coronavírus. “Quanto egoísmo, Brasil, quanta vergonha, quanta tristeza! Covid-19 mata.” Nesta terça-feira, 5, as vítimas brasileiras chegaram a 7.921 e outros 1.579 óbitos em investigação.

“Sorte pra todos nós”, desejou quem mais precisa de conforto e boas energias neste momento complicado. Que nem a família do Margherito e de várias outras pessoas em situação de fragilidade internadas em hospitais passem pelo o que mais 600 lares viveram hoje.

Você pode até pensar: “Mas São Paulo tem mais de 34 mil casos confirmados da doença e 2.851 mortos. Goiás só chegou hoje a 38 mortes e 922 pessoas com a Covid-19 testada”. Infelizmente, nos últimos 24 dias, a quantidade de testes positivos de quem foi infectado pelo novo coronavírus no Estado saltou de 209 para 922, crescimento de 441%. E as mortes aumentaram 380%, saíram de 10 em que a causa foi a Covid-19 no dia 11 de abril para 38 óbitos hoje.

Esperança e compaixão

Margherito se despediu na publicação do Facebook com “lov u all (amo todos vocês)”. Ainda temos esperança de que o ser humano aprenda de fato a amar o próximo, por motivos religiosos ou por pura compaixão. Como reclamou o fotógrafo minutos antes de uma cirurgia nos rins, que as pessoas deixem de ser egoístas porque ficar em casa nas horas livres é chato.

Melhor ver sozinho a live do seu artista favorito hoje do que ter de constatar que aqueles caixões enterrados em valas comuns não estavam vazios e que você pode passar a fazer companhia a um deles se continuar a defender seu direito de ir e vir e acreditar que pode contrariar todo conhecimento científico por uma simples questão de querer.

E, Margherito, quando você receber alta no hospital, vou enfim conhecer seu estúdio em São Paulo e vamos ter ainda mais motivos para comemorar quando a pandemia passar.

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