Afonso Lopes
Afonso Lopes

Iris ainda mantém a pegada?

Principal nome da política goianiense recusa aposentaria e vai novamente disputar a Prefeitura de Goiânia. Mas terá ele a mesma disposição para a vitória?

Peemedebista Iris Rezende: como tem sido nas últimas eleições, ele continua sendo o favorito em Goiânia | Foto: Fernando Leite

Peemedebista Iris Rezende: como tem sido nas últimas eleições, ele continua sendo o favorito em Goiânia | Foto: Fernando Leite

O que o governador Marconi Perillo consegue montar com inigualável competência nas disputas pelo governo do Estado, Iris Rezende o faz exatamente com a mesma abrangência e significância nas eleições goianienses. É impressionante a enorme semelhança dessa representação político-eleitoral entre eles em seus respectivos nichos eleitorais. Marconi parte para as disputas com um poder de atração de aliados imbatível.

Iris, também. Marconi soma apoios populares de forma avassaladora em relação aos adversários. Iris, também. Marconi consegue estruturar campanhas de tal forma que ao se anunciar candidato uma máquina partidária se posiciona estrategicamente como se fosse um exército, com generais e comandantes distribuindo ordens e organizando ações preventivas e de avanços sistemáticos no campo adversário. Marconi não precisa montar uma máquina eleitoral a cada quatro anos. Essa máquina é permanente e inerente à candidatura dele. Iris, também. Enfim, de certa maneira e respeitadas as proporções, enquanto Marconi tem completo domínio sobre o território estadual, Iris é o “dono” de Goiânia.

Pelo menos até agora, esse é o quadro das eleições de Goiás e de Goiânia já há algum tempo. Marconi e Iris sobram tanto em seus respectivos “territórios eleitorais” que conseguem ser protagonistas mesmo quando se apresentam como cabos eleitorais. Foi assim em 2006, quando Marconi tirou Alcides Rodrigues da insignificância eleitoral e o fez governador. Foi assim em 2012, quando Iris carregou Paulo Garcia do quase anonimato para retumbante vitória no primeiro turno.

Favorito

Marconistas e iristas certamente não vão gostar da comparação de resultados que se apresenta aqui, mas não há como fugir dela. Inclusive quando se compara pelo lado da tristeza. Iris e seu PMDB são surrados desde 1998 nas disputas estaduais. Marconi e o PSDB sofrem o mesmo tipo de constrangimento desde 2000 nas disputas em Goiânia. É quase tudo exatamente igual dentro, claro, de suas respectivas abrangências.

Mas há diferenças imensas entre o modo Marconi de agir eleitoralmente e o jeito Iris de conquistar votos. Embora seja inerente a ambos uma intuição político-eleitoral que fazem deles extraordinariamente superiores aos demais políticos goianos, Marconi apresenta pendores com algum rigor científico, enquanto Iris arranca forças até em sua “mesmice”.

Marconi se renova constantemente visando o mesmo objetivo. Iris permanece o mesmo o tempo todo para continuar o vencedor que sempre foi.

É esse Iris aí que deverá mais uma vez trilhar o caminho das urnas goianienses este ano.

E surge como favorito desde a largada. Será o cara a ser batido por todos os demais pretendentes. É ele a grande estrela eleitoral de Goiânia mais uma vez. Mas, como em todas as campanhas eleitorais, não é uma barbada pré-anunciada. Iris terá que trabalhar duramente para confirmar seu favoritismo inicial. E não será tão fácil quanto foi em outras eleições.

Em 2000, diante da aposentadoria do então prefeito Nion Albernaz que vivia o auge de sua popularidade, abriu-se um vácuo total. O PMDB, completamente destroçado e desmoralizado pela derrota para Marconi em 1998, se lançou na disputa de maneira desornada e como franco atirador. Perdeu feio, é claro. O PT, sempre bastante forte em Goiânia desde 1985, no retorno das eleições diretas para prefeitos de capitais, e que já havia vencido em 1992 — também em um processo de sucessão a Nion —, aproveitou-se da confusão no PSDB e venceu com Pedro Wilson.

E aí veio 2004. Pedro Wilson, que capitaneou uma administração de certa forma confusa e com algum grau de descontentamento popular, permitiu um crescimento exponencial dos demais partidos e candidaturas. Foi a eleição com maior número de bambambãs. A quinta colocada no primeiro turno, a então deputada estadual Rachel Azeredo, era simplesmente a campeã de votos para a Assembleia Legislativa em 2002. O quarto colocado foi o deputado federal Sandes Júnior, que estava no auge de sua popularidade e ainda contava com uma extraordinária força do Palácio das Esmeraldas que vinha da reeleição tranquila, embora em dois turnos, de Marconi Perillo. Na terceira posição, o ex-prefeito e ex-petista Darci Accorsi, arquirrival interno de Pedro Wilson, que fez um governo muito mais populista que popular, mas com inegável capacidade eleitoral.

Pedro Wilson, candidato à reeleição, começou bem ao seu feitio como cidadão e homem público, discreto. Mas a campanha eleitoral dele foi simplesmente impecável. De forma extraordinária, conseguiu recuperar a imagem pessoal e da própria administração. Pedro seria reeleito em 2004 se não fosse por um detalhe fundamental: Iris Rezende.

Último a se apresentar como candidato, Iris rapidamente assumiu a ponta em todas as pesquisas de opinião, e chegou com boa frente no primeiro turno, antecipando de forma tranquila o resultado do segundo turno. Mas se o resultado foi tranquilo quando olhado à distância, a campanha passou por momentos terríveis.

Em um debate considerado decisivo, Iris foi espremido pelos demais candidatos, que perceberam certa fragilidade e o fustigaram duramente. Provavelmente, qualquer outro político teria sofrido um nocaute técnico. Mas Iris, naquela eleição, mais até do que em qualquer outra, e naquele debate em particular, deixou florescer o que há de melhor nele no que se refere ao seu potencial: a intuição pura, bruta, lapidada pelos anos. Numa só frase, ele desarmou todos os adversários — “vou asfaltar todas as ruas de terra”. Atônitos, ninguém esperava por uma saída magistral como aquela. Em seguida, sacramentou sua posição e sua vitória com mais uma frase: “Em seis meses, resolvo o problema do transporte coletivo”.

O que Iris demonstrou naqueles momentos foi o “olhar do tigre”, que separa os vitoriosos dos que serão derrotados em eleições. Esse “olhar” é muito mais do que mera vontade de vencer, também fundamental. É instinto de preservação em dose máxima, que poucos políticos conseguem destilar. É esse Iris que se tornou a maior referência histórica das eleições em Goiânia.

Não resta qualquer dúvida de que Iris Rezende se mantém no topo. Também não há qualquer motivo para questionar o fato de que ele é o favorito para a vitória. É igualmente difícil duvidar que ele continua sendo um político com potencial eleitoral acima de qualquer média. Mas terá ele ainda o mesmo “olhar do tigre”, esse mesmo olhar que faltou em 1998? Em cada eleição, apenas um candidato se apresenta com essa característica, e quase sempre é esse o vencedor. Iris terá que se apresentar como o velho moço de sempre, e não como um velho tigre de olhar cansado.

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