Afonso Lopes
Afonso Lopes

Guerra declarada

Não dá mais para escamotear a intensa disputa interna no maior partido de oposição em Goiás entre as pré-candidaturas de Daniel Vilela e Ronaldo Caiado

Maguito Vilela (esquerda) não gostou quando Ronaldo Caiado (direita) estabeleceu critérios que claramente prejudicam Daniel Vilela como pré-candidato Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Logo de cara vale lembrar que uma das características históricas mais marcantes do PMDB de Goiás é a disputa interna. Algumas ve­zes, na base do empurra-empurra político de ocupação de espaços. Noutras, guerra aberta, declarada e sem limites até a queda de um dos lados envolvidos. Sempre foi assim, reafirma-se aqui. Desde a década de 1980, quando o PMDB atingiu o apogeu, e se estende até os dias atuais.

E foram inúmeras as disputas. Mauro Borges contra Iris Rezende, logo na primeira metade da década de 1980. Iris Rezende contra Henri­que Santillo na segunda metade da mesma década. Iris Rezende contra Nion Albernaz nos anos seguintes e o golpe final que marcou o fim da hegemonia peemedebista no Estado, entre Iris Rezende e Maguito Vilela, no final dos anos 1990.

Diante da derrota surpreendente de 1998, quando o jovem deputado federal santillista Marconi Perillo, contra todos os prognósticos, derrubou o mito da invencibilidade de Iris Rezende nas urnas estaduais, deveria selar definitivamente a paz e a harmonia interna que desaguassem numa união total e indissolúvel. Por fora, foi exatamente o que aconteceu. Nos bastidores, o pau continuou cantando de todos os lados, especialmente com os iristas insistindo que a derrota em 1998 ocorreu por falta de empenho daquele que, no momento, era a sua grande estrela eleitoral, Maguito Vilela, eleito para um confortável mandato de senador com um pé nas costas.

A consequência imediata desse desentendimento estrutural entre maguitistas e iristas veio na sequência, nas eleições de 2002. Exatamente um ano antes da eleição, em outubro de 2001, pesquisas mostravam um quadro altamente favorável a Maguito Vilela, que ainda surfava nas últimas espumas da onda de sua popularidade. Ele tinha praticamente 17 pontos de vantagem contra o governador Marconi Perillo. De quebra, Iris Rezende liderava a corrida para renovar seu mandato de senador, que vencia naquele ano. Na segunda posição aparecia a deputada federal Lúcia Vânia, seguida pelo colega de chapa de Iris, o também senador em fim de mandato Mauro Miranda.

Enquanto Marconi Perillo passou o ano da eleição em disparada pelo Es­tado todo, arrumando espaços dentro da base para conciliar tantos e tão difusos interesses pessoais e partidários, o PMDB deixou aflorar o tamanho exato de suas diferenças internas. As campanhas de Maguito para o governo e Iris/Mauro para o Senado foram colocadas em raias separadas, sem formar o coeso grupo da chapa majoritária. Pra se ter uma ideia, até nas cores de identificação das candidaturas houve divergência. Marconi, como se sabe, faturou a eleição logo no primeiro turno, e a chapa para o Senado, com Lúcia Vânia e o estreante Demóstenes Torres igualmente saiu-se vencedora. O PMDB perdeu naquela eleição a barba, o cabelo e o bigode.

Em 2006, Iris Rezende estava no comando da Prefeitura de Goiânia, após ter sido eleito em 2004 contra a tentativa de reeleição de Pedro Wilson, do PT. Marconi, reeleito em 2002, estava impedido de disputar mais uma vez o governo e foi para a eleição tranquila de senador. O caminho estava mais uma vez franqueado para a vitória do PMDB, com a candidatura de Maguito Vilela, que largou com enorme vantagem sobre Alcides Rodrigues, vice de Marconi e candidato à reeleição. Era outra oportunidade sem igual para o PMDB retornar ao comando do principal cenário político do Estado.

O que aconteceu foi mais uma etapa da guerra interna. No comando da maior prefeitura do Estado, Goiânia, com liderança sobre cerca de 21% do eleitorado de Goiás, Iris Rezende era apontado como principal cabo eleitoral do PMDB. Foi mesmo um ótimo esteio, mas apenas para a candidatura dos iristas, especialmente dona Iris, campeã de votos como candidata a deputada federal. Quanto à candidatura de Maguito ao governo, necas de empenho total. No final, em uma virada espetacular, Alcides saiu do quase anonimato para a vitória no primeiro turno e confirmação no segundo turno.

Em 2010, nessas voltas que o mundo dá inclusive nas disputas políticas, Iris deixou a Prefeitura de Goiânia após ter sido reeleito em 2008. Em Aparecida de Goiânia, segundo maior colégio eleitoral do Estado, quem dava as cartas na prefeitura era Maguito Vilela, eleito em 2008. Os iristas dizem que Maguito só se empenhou mesmo na candidatura de seu filho Daniel, que foi eleito deputado federal. Um quadro, obedecidas as proporções, bastante parecido com o que havia acontecido quatro anos antes, com Iris e dona Iris.

Marconi, traído politicamente por Alcides, enfrentou naquela eleição todas as máquinas administrativas, a federal, nas mãos de Lula em estado de graça com o eleitorado, a estadual, com o antigo aliado, e a municipal, com Paulo Garcia, PT, herdeiro como vice eleito em 2008 juntamente com Iris. Marconi sofreu barbaramente, mas conseguiu vencer todos eles somados, inaugurado assim uma nova temporada da base aliada no Palácio das Esmeraldas.

Esse mesmo quadro se repetiu em 2014, quando da reeleição de Marconi. Iris repetiu a dose e buscou mais uma vez a vitória para governador. Maguito permanecia no comando de Aparecida de Goiânia, reeleito em 2012. No PMDB, pelas mãos dos maguitistas e com aval do comando nacional do partido, via Michel Temer, Júnior Friboi travou guerra total para impedir a candidatura de Iris e ele próprio disputar o governo. Não foi uma disputa qualquer, e as feridas do PMDB ficaram definitivamente expostas de forma peremptória. Os maguitistas declararam apoio a Friboi abertamente, aceitando o confronto com os iristas em praça pública. O resultado foi que Iris ganhou internamente, mas conduziu seu PMDB para uma derrota que incluiu também a reeleição de dona Iris para a Câmara dos Deputados.

Na base aliada estadual, Marconi comemorou a vitória majoritária dos candidatos do PSDB e aliados na Câmara dos Deputados e a mais avassaladora maioria na Assembleia Legislativa. Apenas o deputado federal Ronaldo Caiado, recém-aliado de Iris, sobreviveu na disputa para o Senado.

A consequência da vitória de Caiado com apoio dos iristas em 2014 dá as caras na guerra entre maguitistas e iristas agora em 2018. Uma disputa que acaba de se tornar pública e explícita após um pronunciamento de Caiado durante as comemorações do aniversário de Rio Verde, cidade comandada por um dos três prefeitos que formam um tripé politicamente importante no atual PMDB: o rioverdense Paulo do Valle, o catalano Adib Elias e o prefeito de Formosa, Ernesto Roller.

Ao garantir que ficará sempre ao lado do PMDB, desmentindo assim qualquer possibilidade de vir a disputar o governo do Estado no ano que vem em voo solo, Caiado acabou atiçando os ânimos, sempre a flor da pele, dos maguitistas. O democrata pregou que o candidato a ser ungido por todos será aquele que reunir “as melhores condições” de vencer as eleições. Os maguitistas entenderam na frase que o parâmetro dessa sugestão é a pesquisa pré-eleitoral, e reagiram. O próprio Maguito abandonou momentaneamente a diplomacia e atacou diretamente, dizendo que ele próprio já liderou pesquisas antes, assim como Caiado, e perdeu a eleição depois.

Esse posicionamento chamou mais a atenção de todos, mas outro momento do discurso de Ronaldo Caiado foi muito mal recebido pelos que preferem a candidatura de Daniel Vilela. Foi quando Caiado, ao se referir ao seu rival interno, chamou-o de “este jovem”. Para os maguitistas, o termo não foi genérico, e teve objetivo prático. O tal jovem, afinal de contas, lembram os maguitistas, é o presidente do PMDB de Goiás.

A reação de Maguito mostra que a estratégia dos maguitistas ganhou contornos mais agressivos. Caiado não é um adversário fácil de ser vencido. A grande prova disso é que mesmo sendo do DEM ele consegue rivalizar com Daniel Vilela dentro do PMDB. O que virá de agora em diante fica para o futuro responder, mas é pouco provável, pelo menos neste momento, acreditar que os ânimos vão ser completamente serenados até se transformarem em unidade ampla, total e absoluta. A guerra está declarada.

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