Era uma terça-feira, 27 de outubro, quando Flávio Bolsonaro fugiu. Começou com um boato que causou furor na imprensa e negativas de seus aliados. Até que se confirmou, sob as reações mais incrédulas possíveis. Dois dias antes, quase 60 milhões de brasileiros haviam depositado nele um voto de confiança pra tentar conduzi-lo ao Palácio do Planalto. Como se sabe, não foi suficiente e Lula da Silva venceu, pela quarta vez, de forma histórica e quebrando vários recordes, uma eleição presidencial, com 64,2 milhões de votos.

Com o resultado cravado, Flávio tinha duas alternativas: a primeira, reconhecer a derrota, como havia dito em várias entrevistas que faria se fosse derrotado e como mandam as regras da civilidade, e assumir a liderança de uma oposição pesada, ou repetir a espiral de paranoia conspiratória e insubordinação que marcou a trajetória política de sua família. É claro e notório que o senador escolheu a segunda. E, ao empreender fuga para os EUA (vale lembrar que ele estava impedido pela Justiça de sair do país. Portanto, fuga é o termo adequado), deixou pra trás muito mais do que o país.

A situação vexatória na qual o próprio Flávio se meteu fica ainda mais constrangedora quando a própria direita que o apoiou começou a reconhecer a vitória de Lula da Silva. Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás e ex-candidato a presidente que enfrentou Lula no primeiro turno e declarou apoio a Flávio no segundo, aceitou o resultado. Valdemar Costa Neto, presidente do PL, partido do senador, fez o mesmo. Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo e um dos principais nomes do campo conservador, também defendeu o respeito às urnas. Republicanos, União Brasil, Podemos e mais de 20 legendas seguiram o caminho institucional.

Nenhum deles, repita-se, nenhum deles precisou abandonar suas convicções, aderir ao lulismo ou renunciar ao papel de oposição. Bastou somente compreender uma regra essencial da vida republicana, a de que adversários políticos não são inimigos da democracia só porque venceram uma eleição.

Não satisfeito em fugir do Brasil como uma barata que corre para debaixo da geladeira quando a luz da cozinha acende, Flávio, já em solo americano, ainda divulgou uma carta que serviu de piada para o mundo todo.

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Após ser derrotado, Flávio não quis reconhecer vitória de Lula | Foto: Reprodução

No documento de teor golpista, o senador questiona a legitimidade do pleito, levanta acusações de fraude sem provas e chega a se proclamar o verdadeiro presidente eleito do Brasil. Ou melhor, o “líder do Brasil” – o candidato derrotado mudou a expressão logo depois. Aparentemente, nem para ser golpista ele serve.

Seria engraçadíssimo se não fosse tão perigoso. E o mais revelador disso tudo é que Flávio conseguiu a proeza de fazer virar uma derrota eleitoral apertadíssima em uma derrota política devastadora. Até o mais leigo sabe que uma candidatura com 59,8 milhões de votos não sai das urnas enfraquecida a ponto de perder capacidade de articulação. É justamente contrário: Flávio teria condições plenas de organizar uma oposição numerosa, pressionar o governo, disputar o Congresso e preparar o terreno pra 2030. Mas não. Ele preferiu trocar a legitimidade de quase 60 milhões de eleitores pela fantasia de uma presidência autoproclamada.

Tem algo, caro leitor, de profundamente revelador, e perturbador, numa família que exige tanto da democracia, mas se recusa a oferecer o respeito mais essencial e importante.

Flávio Bolsonaro tinha nas mãos a oportunidade de sair de 2026 como o principal líder da oposição brasileira. No entanto, preferiu sair do Brasil movido pelo medo da prisão – afinal, é alvo de inquéritos no Supremo Tribunal Federal e acusações graves de corrupção. O movimento oriundo do clã que sobreviveu a escândalos, derrotas e crises, agora, pode padecer à sorte da própria incapacidade de aceitar, de novo, os limites do poder.

Mas a queda de Flávio abre uma questão que pode escrever uma nova página para a direita brasileira. O questionamento se faz claro e pulsante: quem ocupará o vácuo deixado pelo herdeiro do bolsonarismo?

Nomes não faltam. Um deles, curiosamente, carrega o mesmo sobrenome (foi eleita por força dele), embora esteja justamente no distanciamento da família a oportunidade de construir uma identidade política própria. Diz-se que Michelle Bolsonaro, eleita senadora pelo Distrito Federal com expressivos 938,4 mil votos, quase foi a candidata à presidência da República. Mas agora, chega ao Congresso com capital eleitoral pra lá de robusto, projeção nacional e a vantagem sobre os enteados de que não participou diretamente do desastre político que agora consome o clã.

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Michelle Bolsonaro e Jair Bolsonaro: a ex-primeira-dama quase foi o plano “B” para a disputa presidencial | Foto: Carolina Antunes/Palácio do Planalto

E mesmo tendo sido eleita sob a força do sobrenome, Michelle pode fazer do Senado sua emancipação política. Leia-se: seus maiores detratores, afinal, sempre estiveram dentro da própria família. A relação conturbada com os filhos de Jair Bolsonaro é conhecida a olho nu, e sua participação na campanha presidencial de Flávio foi discretíssima.

Quem não se lembra do vídeo em que a ex-primeira-dama afirmou ter sido humilhada e apunhalada pelo enteado? E agora, Michelle pode levar a liderança de um movimento cujos herdeiros legítimos fizeram de tudo pra diminuí-la. Irônico, não?

Outro nome incontornável é Nikolas Ferreira. Reeleito deputado federal por Minas Gerais com mais de 3,1 milhões de votos, uma marca histórica, o parlamentar tem algo que muitos políticos passam décadas tentando conquistar, que é uma comunicação capaz de mobilizar multidões. Jovem, carismático e dono de uma desenvoltura impressionante nas redes sociais, Nikolas conhece como poucos a linguagem de seu eleitorado.

Porém, ainda é visto por setores da própria direita como precoce, impulsivo e politicamente imaturo. Há, inclusive, quem atribua a ele o início da derrocada da campanha de Flávio.

Há também Gustavo Gayer, eleito senador por Goiás com mais de 1,6 milhão de votos. Tido por setores da direita como a “joia da coroa bolsonarista”, Gayer tem características semelhantes às de Nikolas: desenvoltura, presença digital e facilidade pra dialogar com o eleitor conservador. Entretanto, o goiano conta uma diferença importante. Na verdade, um trunfo: ao longo de seu mandato na Câmara, amadureceu politicamente e ganhou experiência na articulação parlamentar, inclusive na liderança da oposição.

Tem-se, ainda, Tarcísio de Freitas, quiçá o nome mais competitivo. Reeleito governador de São Paulo ainda no primeiro turno, com expressivos 62,65% dos votos válidos, o ex-ministro de Jair Bolsonaro flerta com a direita moderada e é tido quase como u refém do bolsonarismo – quando ensaia uma libertação, é massacrado. Agora, o cenário é diferente.

Ele reúne algo que falta aos demais postulantes à liderança da direita: experiência administrativa, capacidade de articulação e trânsito entre o eleitorado conservador e setores mais moderados. Ao reconhecer a vitória de Lula, mesmo tendo apoiado Flávio, Tarcísio mostrou que sabe muito bem que a oposição pode ser firme sem brincar de ruptura institucional.

Nenhum desses vai herdar automaticamente os quase 60 milhões de votos de Flávio. Mas o bolsonarismo se tornou grande demais pra continuar sendo tratado como propriedade privada dos Bolsonaro. Se Michelle, Nikolas ou Gayer compreenderem isso, vão poder disputar o futuro da direita brasileira.