Elder Dias
Elder Dias
Editor-executivo

Deus acima de todos? A escolha na UFG mostra como o governo Bolsonaro é diabólico

Processo da lista tríplice para a Reitoria da instituição foi exemplar para entender a que se prestam atual presidente da República

Com quase 30 anos de Universidade Federal de Goiás, a professora Sandramara Matias Chaves percorreu uma trajetória acadêmica e administrativa que a capacitou totalmente para assumir o comando da instituição.

Professora dos quadros da UFG desde 1993, foi lá também que fez sua graduação, em Pedagogia, e seu mestrado, em Educação. Na Universidade de São Paulo (USP), chegou ao título máximo, com o doutorado, também em Educação. Enquanto isso, lecionava (como faz ainda hoje, apesar da rotina de gestora) e foi acumulando funções administrativas, desde a chefia de departamento de Pedagogia, na Faculdade de Educação, no início da carreira, ao reitorado interino que exerceu até sexta-feira, 14.

Entre uma data e outra, muita experiência em sala de aula, em comissões, em coordenadorias, na pró-reitoria mais visada da instituição – a de Graduação, por oito anos – até chegar à vice-reitoria, no terceiro mandato de Edward Madureira Brasil à frente da UFG.

Candidata a reitora tendo em sua chapa o professor Jesiel Carvalho, pró-reitor de Pesquisa e Inovação, como vice, venceu, ainda em junho, a consulta à comunidade universitária diante da dupla formada pela também ex-pró-reitora (de Pesquisa e Pós-Graduação) Maria Clorinda Fioravanti e pelo ex-diretor da Faculdade de Filosofia (Fafil) Adriano Correia Silva.

“Consulta” é o nome que se dá às eleições nas instituições federais de ensino superior, já que é prerrogativa do presidente da República escolher e nomear quem melhor lhe convier dentro de uma lista tríplice determinada, a partir da consulta, por votação do Conselho Universitário (Consuni).

Além de Sandramara, compuseram essa lista também os nomes das professoras Karla Emmanuela Ribeiro Hora, diretora da Escola de Engenharia Civil e Ambiental (Eeca), em segundo lugar; e Angelita Pereira de Lima, diretora da Faculdade de Informação e Comunicação (FIC), em terceiro lugar. Ainda era junho quando os três nomes foram enviados ao Ministério da Educação.

Sandramara, Edward, Jesiel, Maria, Adriano, Karla, Angelita. Educadoras e educadores, pesquisadoras e pesquisadores, gestoras e gestores, nenhum com folha rasa em termos de prestação de serviços à comunidade acadêmica. Basta ir à Plataforma Lattes e digitar o nome de cada um(a) para se certificar do peso de cada nome. Portanto, não há nem teria como haver um juízo de valor específico sobre a competência desses docentes: estão todos aptos, pelo histórico, a administrar uma universidade.

Abrindo aqui um enorme parêntese no texto, deixando um pouco o ensino e a pesquisa de lado e indo do meio da ciência para o lugar da religião: Evangelho de João 8, 32, ou “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.

Não por ironia do destino, mas porque se apossou politicamente do sentimento cristão que está na base da população brasileira, Jair Bolsonaro (PL) se elegeu tendo esse versículo como lema e a frase “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” como slogan. Isso mesmo tendo, no currículo, três casamentos (o que seria o de menos, mas já é si uma contradição diante dos preceitos) e declarações homofóbicas, misóginas, machistas e extremamente violentas e desumanas.

Noves fora tudo isso, já incomoda a quem é de fato cristão ver o divino servindo de marketing para político. Quando a discrepância entre o discurso e a prática afloram de modo tão nítido, é caso para refletir se, na verdade, há outras questões para se admitir não ver o lobo em pele de cordeiro assentir com ele tomar conta do rebanho.

Etimologia
No exercício do poder, o lobo Bolsonaro têm se mostrado de fato nada cristão em seus atos. Pelo contrário, tem feito questão de tomar posicionamentos diabólicos. Aqui, o uso do adjetivo não vem apenas como forma de expressão forte para o discurso, mas tem pertinência etimológica: a palavra diabo vem do grego diabolos, que por sua vez tem origem no grego antigo dia-ballein. Tradução? “Aquele que cinde, separa, atira para longe, rasga, condena”.

Como antípoda da conhecida oração franciscana, o discurso diabólico é aquele que, onde havia a fé, leva a dúvida; onde se tem a verdade por pressuposto, instaura uma mentira – ou uma fake news disfarçada (o diabo gosta de disfarces) de “liberdade de expressão”. Semeador da discórdia por natureza, impõe incertezas na cabeça dos incautos. Hora de fechar os parênteses.

Veja bem: até 2020, quantos pais ou mães pensariam duas vezes em proteger seus filhos com uma vacina em meio a uma pandemia mortal? No Brasil, é o presidente quem puxa a fila dos que rejeitam a imunização para as crianças, ao chamar o produto de “experimental” repetidas vezes e ao afirmar categoricamente que não vacinará sua filha de 11 anos.

A narrativa da divisão, da aposta na incerteza improvável, mesmo diante de dados estatísticos claros e opostos, corroeu a mente dos menos instruídos e dos mais inseguros. Onde havia princípios de pesquisas avalizados para uso depois de várias fases de teste, estabeleceu-se a teoria da conspiração sobre a vacina. Quantas pessoas morreram por isso? Quantas crianças morrerão?

Para combater o coronavírus, pesquisadores do mundo inteiro se uniram em uma gigantesca força-tarefa. Conseguiram acelerar a viabilização de não apenas um, mas vários imunizantes, de forma extraordinária, a partir do compartilhamento de conhecimentos e do uso de pesquisas anteriores com vírus semelhantes. Criar uma vacina eficiente apenas um ano depois da descoberta do agente etiológico foi uma grande vitória da humanidade.

A ciência é a grande inimiga do obscurantismo que Bolsonaro representa e lidera. E, especialmente no Brasil, em meio a todo o processo errático de condução da pandemia protagonizado pelo governo federal, o saber e a prática científicos foram protagonizados pelas universidades públicas.

Em Goiás, a UFG disponibilizou seus melhores quadros para o atendimento das demandas necessárias. O governo estadual se baseou nas projeções do Grupo de Modelagem da Expansão da Covid-19, coordenado pelo professor Thiago Rangel, do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), para estudar os cenários de fechamento e abertura da economia, tentando minorar perdas de vida prejudicando ao mínimo possível a renda de empresas e trabalhadores; a professora Gabriela Duarte, do Instituto de Química (IQ), liderou uma equipe que desenvolveu testes rápidos para Covid-19 (pesquisa bancada pelo Ministério Público do Trabalho, no valor de R$ 1,3 milhão); o Instituto de Estudos Socioambientais (Iesa), com o professor Manuel Eduardo Ferreira à frente, idealizou, realizou e alimenta o site Covid Goiás, uma base de dados de casos, internações e mortes que ajudam,  a entender os rumos da pandemia em cada município e no Estado como um todo; na Escola de Engenharia Elétrica, Mecânica e de Computação (EMC), no momento mais crítico do caos sanitário, foram projetados e depois disponibilizados respiradores mecânicos, em trabalho comandado pelos professores Rodrigo Lemos e Sigeo Kitatani Jr.

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Testagem para a Covid-19 no Centro de Eventos Ricardo Bufaiçal da UFG, no Campus Samambaia | Foto: Divulgação

Desnecessário falar que  os leitos e os profissionais de saúde do Hospital das Clínicas, que há décadas servem à saúde do município e de toda a Grande Goiânia, mais do que nunca cumpriram um papel vital – além de ter sido inaugurado, durante a pandemia, o novo e amplo prédio do complexo.

Ironicamente, enquanto tudo isso ocorria, o então titular do Ministério da Educação continuava a gritar (e a postar em suas redes sociais) que a universidade era um antro de “comunistas” que vagabundeavam em meio a muita orgia e balbúrdia regadas a maconha e overdoses de Paulo Freire.

O tempo vai deixar transparente como foi a história da pandemia. E o que vai contar dela, também, é que a paga que Bolsonaro deu à UFG e a dezenas de outras instituições de ensino superior pelos serviços prestados à sociedade, por meio da ciência, da pesquisa e do trabalho de seus quadros, foi interferir da pior forma a seu alcance no rito democrático das comunidades acadêmicas.

Afinal, quem poderia imaginar Bolsonaro fazendo questão de escolher uma petista para comandar uma universidade? Foi o que se deu quando preferiu a professora Angelita e preteriu a escolhida Sandramara. A primeira é pioneira dos quadros do PT e havia sido candidata a deputada estadual em 2014. Mas vale até nomear uma inimiga (“vamos metralhar a petezada”, como já chegou a dizer) para contrariar o desejo da instituição.

Qual o intuito, qual o sentido? O de sempre, como bom diabo: causar a discórdia, estabelecer o racha, inaugurar o tempo da dissensão no meio da instituição, enfraquecê-la, dividi-la para, se tiver a oportunidade, dar o golpe.

Felizmente, a UFG é madura o suficiente para entender o momento e absorver o revés, ainda que o ineditismo da desobediência desse contrato não escrito – o de avalizar o nome preferido pela votação – vá doer por muito tempo. Especialmente em quem, durante sete meses, viveu a expectativa de ver referendado seu projeto de gerir a universidade, construído em décadas de dedicação.

A trama – gratuita, além de diabólica – foi enfrentada com tristeza e serenidade, especialmente por Sandramara, Edward e Angelita, empossada na sexta-feira. Sucesso a ela, que precisará do apoio de toda a comunidade universitária durante estes tempos nebulosos.

Justamente o tempo é senhor. E, se o que é bom um dia passa, tampouco o que é nefasto dura para sempre.

21 respostas para “Deus acima de todos? A escolha na UFG mostra como o governo Bolsonaro é diabólico”

  1. Avatar Salatiel Correia disse:

    Nas inúmeras entrevistas que a futura reitora da UFG concedeu a imprensa ela demonstrou publicamente desconforto com esse triste episódio ,ao qual
    ela qualificou como sendo “triste”.Ante ao sentimento de tristeza da futura magnifíca ,creio que faltou a ela ser feita a pergunta certa. Eis a pergunta: por que a senhora não desiste de assumir o cargo?

  2. Avatar Salatiel Correia disse:

    O lamentável episódio envolvendo a sucessão na reitoria da UFG não repercutiu bem no âmbito da sociedade goiana. Nas inúmeras entrevistas concedidas pela futura reitora , ela demonstrou tristeza com o acontecido.
    Ante a melancolia da futura magnifica,faltou ser a ela feita a pergunta certa: por que a senhora não demostra seu descontentamento renunciando ao cargo?Simples assim.

  3. Avatar Cintia disse:

    Enfim acabou o monopólio, o mesmo deveria ocorrer com o sindicato que representa os professores da UFG.
    Os funcionários deveria ser concursados e não indicado como acontece a vários anos.

  4. Avatar José Boris disse:

    Em Breve o lobo diabólico que vestiu de cordeiro e enganou uma nação sairá do poder. Esperamos que a saúde, a educação e assistência social possam respirar.

  5. Avatar Tânia F disse:

    Sabemos que é impossível agradar a todos, mas o Sr. Elder se esforçou muito para criticar, a escolha da nova administração da UFG, nesse artigo. Sugiro que se esforce mais nós próximos.

  6. Avatar Dorival disse:

    Esse longo e enfadonho texto, onde o(a) autor(a) se esforça para se fazer culto, salta aos olhos o ódio expressado contra o presidente. Ora, na definição de “consulta” fica já explícita que a prerrogativa da escolha é do Presidente da República, fato. O problema é que vocês não suportam o contraditório, além de acharem que universidades são territórios livres de atuações outras, dotadas de soberania territorial. Não são e vocês terão até 2026 para compeenderem essa realidade.

  7. Avatar Daniela Siqueira disse:

    Excelente artigo! Obrigada!
    Resistência!

  8. Avatar Ailton Felipe disse:

    O tempo dirá quem é diabólico nesta história.
    Esse seu comentário não passa de paixão por esse ou aquele candidato, acho que ele o presidente fez o que bem entendeu.
    Vcs se acham os donos da verdade , que bom que temos um presidente que não deve favores.

  9. Avatar Altair Paulo Soares disse:

    Tenho certeza que vc não tem um pingo de mentalidade do bem! Pois se tivesse não escreveria uma porcaria de matéria deste tamanho, e ainda mais sendo hipócrita em dizer que o nosso Presidente e contra a nação brasileira em dizer que ele não vacinar sua filha! Eu não vacino meus filhos pois não tem nenhuma confirmação de eficácia contra a covid e vc vem dizer que ele está errado? Para com essa hipocrisia, e seja mais inteligente, e se quer ajudar faça matéria falando a verdade dos fatos e não com assuntos obscuros!

  10. Avatar Cláudio f santos disse:

    Da do de ler uma matéria dessas. Lixo puro ódio do bem. Mas vamos lá. Para diferenciar um militante do PT. De um militante do PSOL ofereça capim aos dois o comer é do PT. E o que fumar é do PSOL. Pior é quem defende ladrão mais ladrão é, que defende genocida mais genocida é. Segue o bale, 03 anos sem a polícia federal investigar corrupção , a não ser nós casos dos respeitadores adquiridos pelo consórcio nordeste e governo do Pará. Isso deve doer muito.

  11. Avatar Daniel disse:

    Se todos os nomes são capacitados, até agora não entendo essa revolta…

  12. Avatar Eliana disse:

    Parabéns, professora Angelita. Desejo que a senhora faça um excelente trabalho e que seu nome fique marcado com uma nova história a ser contada na UFG

  13. Avatar José Batista da Silva Filho disse:

    Quando se trata de escolha comunitária, ou seja, democrática, que é o caso das instituições de ensino, é simples entender, aceita o processo e respeita o processo. Infelizmente a tinta da caneta do nosso presidente e contrária a democracia.

  14. Avatar Ludemila Alves Torres disse:

    Espero que a nova reitora olhe melhor pra os servidores da UFG, principalmente hospital das clínicas, estamos jogados as traças

  15. Avatar Leandro Pires disse:

    Basta renunciar. Ah mas se renunciar o Presidente pode nomear um interventor . Daí o comunismo que reina na UFG poderá ser quebrado. Entendi toda essa revolta com o Presidente. Antes que falem alguma coisa, sou ex- aluno e conheço do que estou falando .

  16. Avatar Cleone disse:

    Triste ver o jornalismo sendo tão obstinado em fomentar um desconforto pessoal do escritor com a escolha da maioria nas urnas. A notícia bem passada ao público gera o enrequecimento dos leitores, mas um testo mesquinho e cheio de direcionamento ao ódio, simplesmente faz aumentar o ódio que já existe no seio do povo, seja ele apoiador ou “oposição”.

  17. Avatar Reimer Rocha Reimer disse:

    Kkkkk… Verdade amigo… estou rindo de satisfação… O Presidente fez uma jogada de mestre.

  18. Avatar Ludmila Veber disse:

    UFG nunca teve uma administração que correta, nunca foi para os estudantes de classe média ou baixa, sempre foi voltada aos interesses próprios e nunca dos estudantes. Só política de interesse próprio dos seus servidores

    • Avatar Ana disse:

      Concordo plenamente. Eles nunca pensam nos estudantes e sempre tomam a decisão que melhor os convém, sem questionar toda uma comunidade de milhares de alunos que estão lá. Sinceramente achei foi bom, quando os servidores dessa instituição são contrariados, fico feliz.

  19. Avatar Edgard disse:

    Jornalzinho Comunista! Que termine falido o quanto antes.

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