Augusto Diniz
Augusto Diniz

Cuidado: o marxismo cultural vai te pegar

Inspirado em teorias da conspiração norte-americanas, o comunismo teria se adaptado após a queda do Muro de Berlim e se transformado nos anos 1990 em um projeto de persuasão discursiva maligna

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O alemão Karl Marx morreu em 1883, mas 136 anos depois é alvo de teorias da conspiração que não dizem respeito a assuntos dos quais sequer chegou a tratar | Foto: Reprodução

Esconda suas crianças. Tire seus filhos da rua. Existe uma nova ameaça que vai deixar pais, mães e responsáveis com os cabelos em pé. Ela se chama marxismo cultural e está à solta. No Brasil, o artífice desse pânico social é o filósofo Olavo de Carvalho, que uniu a expressão a outro novo terror das distorções teóricas usadas para dominar bestas: globalismo.

Quando Vanusa cantou em nosso País a música “Quem tem medo do lobo mau”, com letra de Wilson Simonal, a artista não teria como imaginar que a canção infantil ganharia uma nova interpretação no século XXI pela piração de quem não lê as teorias que comenta sem saber, mas vocifera contra uma ameaça para, na verdade, amordaçar os que acreditam e mordem a isca.

Mal sabia o Lobo Mau que a ameaça real seria vermelha, curiosamente da cor do capuz da Chapeuzinho. “Quem tem medo do marxismo cultural”, gritam o ministro da Educação, o filósofo brasileiro que mora em Richmond, na Virgínia, e um monte de youtuber da intitulada “nova era”. Tudo bem que o século XXI e o terceiro milênio começaram em 2001, há apenas 19 anos. E é uma pena que essa “nova era” seja o retrato do vazio misturado com a não interpretação do todo pela parte com divulgações massificadas pelas redes sociais que causam temor, pavor e urticária.

De forma cega, muitos cantam:

Silêncio
E a esquerda encobre a lua
E o comunismo derrotado na rua
De manhã ainda me confessou.

Silêncio
Para quem chegou desavisado
E no ar avermelhado
Deixa a cultura dominar.

Silêncio
Para as artimanhas da esquerda
Faz de conta que intelectual é gente
E melhor que não aprender.

Marx Marx, Marx Marx Marx…
Marx Marx, Marx Marx Marx…

Quem tem medo do marxismo cultural
Marxismo cultural, marxismo cultural?!
Quem tem medo
do marxismo cultural?!
O comunismo é bem legal!

Quem é um globalistinha
E tem muita hegemonia?!

Quem é?!

É o esquerdinha!

É!

É esquerdinha!

Cidadão de bem, que virou cordeiro
do marxismo cultural anti-ordeiro!

Quem tem medo do marxismo cultural
Marxismo cultural, marxismo cultural?!
Quem tem medo
do marxismo cultural?!
O comunismo é bem legal!

Ele é um mundo legal! Uuuh!
Marxismo cultural!
Ele é um mundo legal!
Marxismo cultural!
Ele é, ele é um mundo legal!
Marxismo cultural…

A paródia elaborada aqui por esta coluna mostra de forma bem simples como é repassada a teoria conspiracionista do marxismo cultural globalista, que agiria como uma nova forma da esquerda de dominar pelo convencimento e controle da cultura e da intelectualidade. Segundo os antimarxistas culturais, os comunistas teriam encontrado nos livros de Antonio Gramsci uma possibilidade de adaptar a derrocada do comunismo como modelo de organização social e política a partir da queda do Muro de Berlim com um novo foco na hegemonia pela cultura.

É como se a lavagem cerebral que alguns picaretas religiosos fazem com seus fieis para darem ofertas à igreja além do limite prudencial para não comprometer as contas da casa fosse a lógica do Lobo Mau, que convence pela lábia a Chapeuzinho Vermelho a ser o novo banquete do vilão sem perceber a armadilha. O comunismo, na cabeça de Abraham Weintraub e outros, estaria pronto e trabalhando há décadas para controlar a produção cultural e intelectual acadêmica no mundo – globalismo – a partir de uma adaptação das teorias de Karl Marx nos meios de produção cultural – marxismo cultural.

O que a Escola de Frankfurt tem a ver com isso?
Mas a primeira grande falha dessa teoria conspiracionista digna de hospício é acusar a Escola de Frankfurt como o laboratório de elaboração a dominação e proliferação das ideias do marxismo cultural. O que quem não leu os autores da Escola de Frankfurt, como Theodor Adorno e Max Horkheimer, não entende é que eram esses pensadores contrários e críticos da arte em série possibilitada pelo capitalismo. Mas não em defesa do comunismo, mas para discutir a razão e a essência da arte vendida num modelo fordista como um mero produto sem essência.

Mesmo que não seja a mesma lógica, nesse sentido a ideia discutida por Adorno e Horkheimer em “Dialética do Esclarecimento”, publicado pela primeira vez em 1944, defende algo muito próximo do que os alunos de Olavo de Carvalho adoram empunhar como “arte de verdade”. Tudo bem que são discussões distintas, mas que se aproximam na busca pela valorização do sentido de uma obra de arte frente à sua cópia, no caso de parte da “Dialética do Esclarecimento” que discute a indústria cultural, e uma visão medieval de única arte possível e repleta de sentido existente na sua veia sacra, principalmente na Idade Média, como defendem os olavetes.

A ideia de seguir o que um teórico-guru diz sem discutir suas propostas de ressurgimento da verdadeira intelectualidade não é algo original de Olavo de Carvalho. O termo foi copiado de pensadores dos Estados Unidos que usam marxismo cultural ou bolchevismo cultural – em forte referência à Guerra Fria, onde muitos dos adoradores da “nova era” ainda estão presos no tempo – para atribuir aos “judeus da Escola de Frankfurt” a busca pelo controle da sociedade pelo comunismo através de uma dita cultura marxista.

O problema é que, tanto no discurso desses autores norte-americanos, como na adaptação conveniente feita por Olavo de Carvalho, o alvo é a negação do direito das minorias representativas, o que nada tem a ver com minorias numéricas. Como se pautam pela filosofia e modo de vida medievais, mesmo sendo seres nascidos no século XX que vivem no século XXI, olavetes e os que se amedrontaram com o pânico social do marxismo cultural temem uma ditadura gayzista, feminista, abortista, globalista, marxista, comunista, libertária sexual e coisas do tipo.

Pirações como essas têm um único objetivo: negar que todo ser humano é igual perante a lei. Com isso, seria possível defender a teoria de uma inversão de papeis e lugares na sociedade na qual as minorias representativas seriam falsamente uma maioria cultural e intelectual, quando as minorias de verdade seriam as tradições judaico-cristãs, a família formada através do matrimônio religioso entre um homem e uma mulher que têm filhos, que seriam oprimidas por gays, drogados e feministas a se sentir como errados. Toda essa construção pega em cheio o tiozão do bar, que agora está nas redes sociais, e não pode mais ser preconceituoso e racista de forma impune contra negros, loiras, mulheres, a comunidade LGBT ou qualquer outra pessoa.

Repare que a palavra usada para definir todos os diferentes seres humanos foi pessoa. O que a teoria olavista, seguida cegamente pelos olavetes, não consegue distinguir é o direito religioso, garantido pela Constituição Federal, de manifestar sua fé e organização social, o que difere dos direitos civis. O que as minorias lutam é por um reconhecimento de igualdades civis. Ninguém quer entrar na igreja de alguém e impedir que seus cultos sejam feitos. É a regra básica do apenas querem andar na rua e não serem assassinador por serem negros, gays ou mulheres. Mas isso é complicado demais para o tiozão do Facebook entender.

Superada a distorção de minorias que Olavo de Carvalho e seus alunos convenientemente fazem, voltemos à essência da definição do marxismo cultural copiado do que é pregado nos Estados Unidos. A origem do ataque aos ditos marxistas culturais ligado aos judeus tem uma inspiração objetiva: o livro “Mein Kampf” (Minha Luta), de Adolf Hitler. Lançado em 1925, a autobiografia do líder nazista é a inspiração da ideia do marxismo cultural nos Estados Unidos. É de lá que os teóricos que atacam gays, mulheres, negros e dizem que os comunistas pós-Muro de Berlim se infiltraram na cultura e nas universidades para dominar o mundo para a esquerda de forma globalista tiraram suas ideias.

Origem no nazismo
É Hitler quem define em “Mein Kampf” a estruturação do antissemitismo do nazismo. O marxismo cultural é o novo antissemitismo, mas encontrou em outras minorias que não os judeus fora dos Estados Unidos o seu alvo para pregar uma dominação por meio de pessoas dispostas a acreditarem num sem fim de teorias sem sustentação de Olavo de Carvalho e seus alunos.

E vem também de um discurso do nazista Joseph Goebbles, ministro da Propaganda de 1933 a 1945 na Alemanha governada por Hitler. “O bolchevismo não é apenas antiburguês, mas é anticultural. Isso significa, em sua consequência final, a destruição absoluta de todos avanços econômicos, sociais, de Estado, culturais e de civilização conquistados pela civilização ocidental por um nômade e sem raízes grupo de conspiradores internacional que encontrou sua representação nos judeus.” Quem disse isso foi Goebbles em 1935. Qualquer semelhança com o marxismo cultural não é mera coincidência.

Olavo de Carvalho propaga ideias copiadas e adaptadas de autores conspiracionistas como Pat Buchanan, que defende que a Suprema Corte dos Estados Unidos tem muitos judeus e vê nisso um risco grave à cultura norte-americana, em pensamento similar ao do bolchevismo, bolchevismo cultural ou marxismo cultural globalista de Joseph Goebbles.

Buchanan, que foi diretor de comunicação durante o governo de Ronald Reagan, prega que os marxistas culturais vão desvincular a civilização ocidental do cristianismo por culpa dos trabalhos da Escola de Frankfurt. E nesse caso, Buchanan não está preocupado com uma sociedade com maior senso de coletividade ou respeito ao próximo, mas que aceite a homossexualidade com algo natural.

Quando Jair Bolsonaro disse na campanha eleitoral que o Brasil não poderia correr o risco de virar uma nova Venezuela, sua ideia tinha exemplos nos Estados Unidos, com autores que defendem que o marxismo cultural empurra a sociedade ocidental por meio de forças misteriosas para a formação de novas Coreias do Norte. E tudo é jogado sem qualquer explicação. E muita gente compra como verdade absoluta. E defende até a última consequência. Marxismo vira um sinônimo de ditadura, que se torna o mesmo que stalinismo, que chega ao ponto de justificar o nazismo. Sim. Tem quem acredite nisso.

Marxismo cultural = teoria da conspiração
Se você procurar no maior site de verbetes, o Wikipedia, até lá está a descrição é de que marxismo cultural se trata de “uma teoria da conspiração difundida nos círculos conservadores e da extrema-direita estadunidense desde a década de 1990″. Quem pregava que o mundo seria destruído e a humanidade dizimada se as teorias marxistas fossem adotadas era justamente Adolf Hitler, em uma lógica muito adaptada ao discurso dos olavetes, que se inspiraram nos autores antissemitas que fazem o impossível para tentar ligar a Escola de Frankfurt e o marxismo cultural aos judeus.

A ligação da lógica das explicações de que existe um marxismo cultural e os ataques teóricos do nazismo aos judeus estão diretamente conectados. Se você não percebeu a inspiração, sinto em lhe informar, mas está aí a justificativa de tentar ligar o nazismo a um regime totalitário de esquerda. Aceitar que a direita também produziu governos autoritários, extremistas e totalitários é inaceitável para a “nova era”, que entende a direita como o único caminho messiânico para a salvação do mundo. Mas prega as mesmas ideias de perseguição e negação feita pelos líderes nazistas.

Se você acreditou em marxismo cultural, você foi enganado. Mas nunca é tarde para buscar informação além do YouTube e das redes sociais.

Uma resposta para “Cuidado: o marxismo cultural vai te pegar”

  1. Lucas Cantino disse:

    Muito bom !

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