Augusto Diniz
Augusto Diniz

Como teria sido o debate na Globo entre Bolsonaro e Haddad

Essa é uma dúvida que vai pairar na cabeça dos brasileiros, ou parte deles, para sempre, já que a emissora preferiu cancelar o programa que seria exibido na noite de sexta (26/10)

Já que a Rede Globo cancelou o debate pela desistência estratégica de Bolsonaro em participar, fizemos aqui o que poderia ter sido o encontro que não houve entre os candidatos | Fotos: Reprodução/Facebook e Ricardo Stuckert

Ao contrário do que a Rede Globo fez na disputa para governador do Distrito Federal na noite de quinta-feira (25/10), o debate presidencial que seria transmitido na sexta (26) entre os presidenciáveis foi cancelado. O candidato que aparece em primeiro lugar nas pesquisas de intenções de votos no DF, o emedebista Ibaneis Rocha, não apareceu. Seu adversário nas urnas, o governador e candidato a reeleição Rodrigo Rollemberg (PSB) concedeu uma entrevista de 20 minutos ao vivo à emissora no horário marcado para o programa.

Na corrida presidencial, o canal adotou uma postura bem diferente. Assim como todas as outras emissoras fizeram durante o segundo turno com a desistência estratégica do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) de estar presente nos debates, a Globo também cancelou o encontro entre o deputado federal capitão da reserva do Exército e o ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro Fernando Haddad (PT), que insistiu sem sucesso para que os canais mantivessem os debates previamente marcados para as três semanas finais das eleições.

A única diferença no caso de Ibaneis e Bolsonaro é a de que o emedebista no DF confirmou presença e resolveu não comparecer. O candidato a presidente pelo PSL adotou a tática de não se desgastar com debates no segundo turno. O fato é que, quando uma emissora adota a medida de cancelar a realização do debate porque um dos participantes não estará presente, indiretamente ela beneficia um dos candidatos, por mais que insistam em chamar a Globo de petista, o que nem de longe se encaixa no perfil jornalístico do canal.

Como não houve debate na sexta-feira entre Bolsonaro e Haddad, a coluna Conexão resolveu criar um debate fictício entre os dois candidatos a presidente da República com falas reproduzidas de seus últimos discursos em eventos de campanha. Mesmo que não seja um debate real, cabe ao eleitor, de forma racional, encarar o texto como uma narrativa ficcional, mesmo que seja construída em cima de declarações reais e verdadeiras dos presidenciáveis na semana final da disputa eleitoral. Os temas são livres em um único bloco sem intervalo. O deputado do PSL e o ex-ministro petista fazem um confronto direto de frases retiradas de seus discursos.

Início da discussão
Começa aqui o debate que nunca aconteceu entre os dois candidatos a presidente no segundo turno – algo inédito em 29 anos seguidos de disputas presidenciais nas quais houve debate em todos os segundos turnos quando a eleição chegou à reta final com dois candidatos: 1989, 2002, 2006, 2010 e 2014 – com frases ditas por Bolsonaro e Haddad nos últimos sete dias no palanque de forma presencial ou por transmissão ao vivo. Como os candidatos não estão em nossos estúdios, vamos iniciar nosso debate com o presidenciável do PSL Jair Bolsonaro, que falará através de uma live, que será transcrita para que você, leitor, possa acompanhar. Seja bem-vindo, Bolsonaro.

Direto do discurso transmitido no domingo (21) na Avenida Paulista, em São Paulo, via celular, Bolsonaro usa seu primeiro um minuto e meio no debate: “Nós somos a maioria. Nós somos o Brasil de verdade. Junto com esse povo brasileiro construiremos uma nova nação. Não tem preço as imagens que vejo agora da Paulista e de todo o meu querido Brasil. Perderam ontem, perderam em 2016 e vão perder na semana que vem (hoje) de novo. Só que a faxina agora será muito mais ampla. Essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós”.

Agora é a vez de Haddad, direto de comício na quinta-feira (25) em Recife, Pernambuco, fazer sua primeira participação no debate que a Globo não realizou. “Eu tenho uma boa notícia para vocês. No Datafolha, em três dias, a distância entre nós já caiu seis pontos. Vocês sabem que de hoje para sábado (27) as famílias se reúnem para tomar uma decisão importante. Porque sabem que a decisão que tomarem vai refletir nas suas vidas por pelo menos quatro anos. É um momento muito delicado da vida nacional em que o povo está sendo enganado, levando a votar numa pessoa que não tem currículo, não tem serviço prestado, e pior, não tem amor pelo País nem pelo povo. Uma pessoa que não tem compromisso com a soberania nacional e menos ainda com a soberania popular. Está fácil virar voto. Está fácil virar voto no País inteiro. Na cidade de São Paulo eu já passei o Bolsonaro. É a cidade em que eu governei. Entre um livro de um ministro da Educação e a arma de um soldadinho de araque, o Brasil vai ficar com o que?”, indaga o petista.

No domingo (21/10), Jair Bolsonaro (PSL) fez um discurso de casa ao vivo no celular que foi transmitido em um telão na Avenida Paulista | Foto: Reprodução/YouTube

Bolsonaro segue sua fala com tom pausado e espera a reação da plateia, que não deveria se manifestar ao longo do debate, mas não é repreendida por não haver mediador. “Ou vão para fora ou vão para a cadeia. Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria. Nós acreditamos no futuro do nosso Brasil. E juntos, em equipe, construiremos o futuro que nós merecemos. Temos o melhor povo do mundo, a melhor terra do planeta, e vamos, com essa nova classe política, construir realmente aquilo que nós merecemos. Estou aqui porque acredito em vocês. Vocês estão aí porque acreditam no Brasil. Ninguém vai sair dessa pátria porque essa pátria é nossa. Não é dessa gangue que tem uma bandeira vermelha e tem a cabeça lavada. Sem indicações políticas faremos um time de ministros que realmente atenderá às necessidades do nosso povo”, propõe o capitão da reserva.

O ex-ministro da Educação reclama que o adversário ultrapassou sete segundos do tempo que teria reservado à sua segunda fala no debate. E diz Haddad: “Vai ficar com a educação, vai ficar com o trabalho, vai ficar com a dignidade, com o respeito às pessoas. Na última entrevista que ele deu, o Bolsonaro falou que as mulheres, que os negros, que o nordestino deveriam deixar de se fazer de coitados. Eu quero dizer ao Bolsonaro, seu arregão, coitado é você. Você é um arregão, e vai chamar alguém de coitado, rapaz? Se toca! Se olha no espelho! Vem pro debate. Ainda tem tempo. Vem pro debate”.

“Nós vamos ter um debate sexta-feira (26). Nós estamos fazendo um pool de emissoras para ele debater. Os correligionários dele dizem que é estratégia dele não ir para o debate. Eu nunca vi alguém que se diz do Exército dizer que a estratégia dele é se esconder, é fugir. Ele não honra nem as Forças Armadas a quem ele disse pertencer. Ele não respeita ninguém. Não tem serviço prestado e não vai ganhar essa eleição”, contra-ataca Haddad.

“Podem ter certeza, vocês podem confiar em nós, porque nós confiamos em vocês”, responde Bolsonaro. “O Brasil será respeitado lá fora. O Brasil não será mais motivo de chacota junto ao mundo. Aqui não terá mais lugar para corrupção. Seu [ex-presidente] Lula da Silva (PT), se você estava esperando o Haddad ser presidente para assinar o decreto de indulto, eu vou te dizer uma coisa, você vai apodrecer na cadeia. Brevemente, você terá [senador] Lindbergh Farias (PT) para jogar dominó no xadrez. Aguarde. O Haddad vai chegar aí também. Mas não será para visita-lo não. Será para ficar alguns anos ao teu lado. Já que vocês se amam tanto, vocês vão apodrecer na cadeia”, avisa o deputado federal.

Chega a vez de Haddad responder, que começa relembrando o que disse Bolsonaro. “No domingo passado, ele chegou a dizer que a oposição a ele, se ele ganhar, vai ter que escolher entre a prisão e o exílio. Eu quero dizer para ele que ele não vai ter oposição porque ele não vai ser governo. Ele não vai ser governo. O Brasil merece mais que isso. Merece muito mais. E nesses três dias, o Brasil vai se fazer respeitar. Vai se fazer respeitar dentro e vai se fazer respeitar fora. A imprensa inteira do mundo está escandalizada com o comportamento das nossas elites. Escandalizada de apoiar um sujeito que enaltece ditador, que fala mal de mulher, que não respeita negro. Está escandalizada com o autoritarismo. Está escandalizada com o seu plano econômico. Quer seguir o Temer, que já foi rechaçado pela população. Quer entregar a nossa soberania para os americanos. Um soldadinho que bate continência para a bandeira americana não pode ser presidente do Brasil. Não pode ser presidente do Brasil.”

Mais ataques
Bolsonaro continua seu ataque ao partido do adversário nas urnas. “Porque lugar de bandido que rouba o povo é atrás das grades. Você achava que estava tudo dominado, não estava não. Esse povo sempre se levantou nos momentos mais difíceis da nação para exatamente salvá-la. Vocês da Paulista, vocês que fazem manifestação em todo Brasil, vocês estão salvando a nossa pátria. Não tenho palavras para agradecê-los nesse momento. Vocês estão salvando o meu, o seu, o nosso Brasil. Petralhada, vai tudo vocês pra ponta da praia! Vocês não terão mais vez em nossa pátria porque eu vou cortar todas as mordomias de vocês. Vocês não terão mais ONGs para saciar a fome de mortadela de vocês”, dispara o presidenciável do PSL em tom de ironia.

A palavra volta a Haddad: “Eu estou aqui em Pernambuco recebendo apoio de todas as lideranças do Estado, todas as lideranças que percebem o risco que o Brasil está correndo. Agora é hora de unidade, é hora de união. A gente, quando tem uma ameaça de fora, a gente começa a se unir dentro para combater o adversário que coloca em risco o nosso futuro. Eu estou aqui com o [governador de Pernambuco] Paulo Câmara (PSB), estou aqui com o [prefeito de Recife] Geraldo Júlio (PSB). Estou aqui em memória de [falecido ex-governador] Miguel Arraes. Estou aqui com [viúva de Eduardo Campos] Renata Campos, com [deputada federal eleita] Marília Arraes (PT), com [deputado federal eleito] João Campos (PSB), com [senador] Humberto Costa (PT). Estou com todos na mesma trincheira: a trincheira da democracia, a trincheira dos direitos”.

“Mas eu estou aqui também num dia especial e queria pedir um favor para vocês. Tem uma coisa que a gente tem, vocês podem perceber, é que professor zela muito por uma coisa, que é a nossa consciência. É o nosso dever cívico. É o nosso compromisso com a verdade. E eu quero pedir para vocês uma gentileza, quero pedir um presente para um amigo meu. Esse amigo meu faz aniversário depois de amanhã (sábado 27). Eu quero que todo mundo cante um parabéns para ele, que vai ser filmado e vai ser levado para que ele saiba que Pernambuco não abandona um filho que dignificou esse Estado e que fez do Brasil uma grande nação. O maior presidente da República da história do Brasil: Luiz Inácio Lula da Silva.”

Fernando Haddad (PT) fez comício na noite de quinta-feira (25/10) em Recife, capital de Pernambuco | Foto: Ricardo Stuckert

Foi a vez de Bolsonaro reclamar que o tempo de Haddad havia estourado em 27 segundos. “Será uma limpeza nunca vista na história do Brasil. Vagabundo vai ter que trabalhar. Vai deixar de fazer demagogia junto ao povo brasileiro. Vocês verão as instituições sendo reconhecidas. Vocês verão umas Forças Armadas altivas que estarão colaborando com o futuro do Brasil. Vocês, petralhada, verão uma Polícia Civil e Militar com retaguarda jurídica para fazer valer a lei no lombo de vocês. Bandidos do MST, bandidos do MTST, as ações de vocês serão tipificadas como terrorismo. Vocês não levarão mais o terror ao campo ou à cidade. Ou vocês se enquadram e se submetem às leis ou vão fazer companhia ao cachaceiro lá em Curitiba (PR)”, ameaça o capitão da reserva.

Considerações finais
Como o presidenciável do PSL gasta muito tempo na tentativa de construir as frases que vai dizer e fala muito devagar, Haddad consegue aproveitar seu tempo para falar mais. “Esse é o recado do [Ricardo] Stuckert, nosso fotógrafo oficial. Vamos de parabéns, Pernambuco. Eu puxo. Parabéns pra você… Lula guerreiro do povo brasileiro. Quero dizer para Pernambuco que seu filho dileto faz aniversário no sábado. Mas eu faço questão de dar um presente para o Brasil no domingo derrotando Jair Bolsonaro. Vamos vencer essas eleições por Pernambuco, pelo Nordeste e pelo Brasil. Boa noite, Recife. Boa noite. Esta é Ana Estela, minha companheira. Um abraço a todas as mulheres de Pernambuco, às pernambucanas e nordestinas que orgulham esse País”, se despede o candidato do PT.

Chega a ver de Bolsonaro dizer suas últimas palavras no debate. “Amigos de todo Brasil, esse momento não tem preço. Juntos, eu disse juntos, nós faremos um Brasil diferente. Meu muito obrigado a todos do Brasil que confiaram seu voto em mim por ocasião do primeiro turno. Ainda não ganhamos as eleições. Mas esse grito em nossa garganta será posto para fora no próximo dia 28. Conclamo a todos vocês que continuem mobilizados e participem ativamente, por ocasião das eleições, do próximo domingo de forma democrática”, convoca seu eleitores o candidato do PSL.

E aproveita para atacar um veículo de comunicação nacional específico e defender seus lemas de campanha: “Sem mentira, sem fake news, sem Folha de São Paulo! Nós ganharemos esta guerra. Queremos a imprensa livre, mas com responsabilidade. A Folha de São Paulo é o maior fake news do Brasil. Vocês não terão mais verba publicitária do governo. Imprensa livre, parabéns. Imprensa vendida, meus pêsames. Somos amantes da liberdade. Queremos a democracia e queremos viver em paz. Nós amamos as nossas famílias. Nós respeitamos as crianças. Nós respeitamos todas religiões. Nós não queremos socialismo. Nós queremos distância de ditaduras do mundo todo. Amigos da Paulista e do Brasil, meu muito obrigado a todos vocês. E vamos juntos trabalhar para que no próximo domingo aquele grito que está em nossa garganta, que simboliza tudo que nós somos, seja posto para fora: Brasil acima de tudo e Deus acima de todos. À vitória. Valeu. Abraço, meu Brasil”.

Com as considerações finais dos candidatos, um em discurso por meio de uma live transmitida ao vivo na Avenida Paulista e o outro em um comício em Recife, encerramos aqui o debate que deveria ter sido realizado na sexta-feira, mas infelizmente não ocorreu pela primeira vez em um segundo turno presidencial desde a redemocratização. Espero que tenhamos colaborado com o exercício da democracia e ajudado você a avaliar os candidatos. Um bom voto a todos.

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