Augusto Diniz
Augusto Diniz

Bolsonaro usa morte para atacar os que considera adversários com mentiras e agressões à história e dor de familiares

Não cabe ao presidente da República dizer o que acha, ouviu falar ou sua “vivência” para inflar militância com radicalização de discurso eleitoral e cortina de fumaça

Jair Bolsonaro Palácio da Alvorada - Foto Antonio Cruz Agência Brasil editada

Bolsonaro resolveu mentir sobre a morte do pai do presidente da OAB, sequestrado, torturado, morto e que teve o cadáver ocultado, para atacar um desafeto político e inflar sua militância de olho em 2022 | Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Ao tiozão do boteco que nega que o homem tenha pisado na Lua, que acredita que a Terra é plana, o nazismo seja de esquerda, Olavo de Carvalho possa ser considerado relevante ou que a ditadura militar é uma mentira que o PT inventou para se vitimizar, tudo é permitido no ambiente do desprezo de sua filosofia de copo de cerveja ao lado de quem aceita ouvir os absurdo que ele não consegue guardar para si. O problema é que os tiozões do botequim tomaram as redes sociais. E um deles chegou ao cargo de presidente da República.

Empossado no cargo, muitos acreditaram que o ex-deputado federal Jair Messias Bolsonaro (PSL-RJ), depois de 28 anos no Congresso, deixaria o discurso de um bêbado que vomita impropérios antes de apagar na sarjeta ao fim da noite e guardaria as mediocridades apenas no pensamento. Mas o arroto constante de absurdos mostra que a estratégia de alimentar sua militância mais fiel ultrapassa o limite do aceitável e mira na consolidação de uma margem de 30% do eleitorado, percentual suficiente ao menos para colocá-lo no segundo turno em 2020, quando Bolsonaro tentará a reeleição.

O problema mais grave para o País, que vive em frangalhos com 13,2 milhões de desempregados e previsão de crescimento do Produto Interno Bruno (PIB) em 2019 abaixo de 1%, é a campanha eleitoral interminável. Estamos presos na campanha de 2018 até hoje. Mas Bolsonaro conseguiu agravar o que já era impensável com mentiras sobre a morte de uma vítima da ditadura militar, mais um sequestrado, torturado, assassinado e que teve seu cadáver ocultado pelo Estado brasileiro entre 1964 e 1985.

No incômodo em ver o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe de Santa Cruz Oliveira Scaletsky, se colocar como crítico constante de sua gestão e posicionamentos, o chefe do Executivo resolveu atacar gratuitamente a dor dos familiares de Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira, desaparecido até hoje, mas que teve sua morte confirmada por documentos sigilosos do Ministério da Aeronáutica e pela Comissão da Verdade.

Consta nos arquivos do Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo (Dops-SP): “Nascido em 1948, casado, funcionário público, estudante de Direito, preso no RJ em 23/02/74”. Para Bolsonaro, tudo isso se trata de “balela”, como disse hoje ao questionar a autenticidade e legitimidade do trabalho de investigação realizado pela Comissão da Verdade.

Um dia antes, na segunda-feira, 29, ao reclamar da OAB por ter, segundo o presidente da República, ter impedido a quebra de sigilo do “advogado caríssimo” de Adélio Bispo, autor da tentativa de homicídio contra Bolsonaro no dia 6 de setembro de 2018 em Juiz de Fora (MG), durante ato de campanha eleitoral, resolveu dizer que se Felipe Santa Cruz quiser saber o que aconteceu com o pai dele o chefe do Executivo pode contar. “Um dia se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, eu conto para ele. Ele não vai querer ouvir a verdade. Eu conto para ele.”

O hoje presidente da OAB ficou órfão aos 2 anos. O corpo do pai nunca foi encontrado, mas o Estado brasileiro, durante a ditadura, reconheceu a prisão de Fernando Santa Cruz. Na sequência de sua fala de ontem, Bolsonaro segue na filosofia do achismo do tiozão de boteco. “Não é minha versão. É que a minha vivência me fez chegar às conclusões naquele momento. O pai dele integrou a Ação Popular, o grupo mais sanguinário e violento da guerrilha lá de Pernambuco, e veio a desaparecer no Rio de Janeiro”, dispara sem qualquer condição de comprovar a mentira vociferada.

Corte Hitler

Enquanto tinha o cabelo cortado no mesmo estilo de Adolf Hitler no mesmo horário em que participaria de uma reunião com o chanceler francês Jean-Yves Le Drian para discutir detalhes para que o país do velho continente aceite o acordo Mercosul-União Europeia, Bolsonaro volta a dar nova versão sobre o caso. Mais uma mentira. “Não foram os militares que mataram, não. Muito fácil culpar os militares por tudo o que acontece.”

Você imagina que, mesmo sem acreditar que o presidente da República disse algo tão absurdo e mentiroso, parou por aqui. Mas não. “Até porque ninguém duvida, todo mundo tem certeza, que havia justiçamento. As pessoas da própria esquerda, quando desconfiavam de alguém, simplesmente executavam”, conseguiu se superar no mesmo dia Bolsonaro.

Vamos aos equívocos e atrocidades proferidas por Bolsonaro em menos de 12 horas na segunda-feira. A primeira besteira foi jogar a culpa na OAB por não autorizar a quebra de sigilo da conversa do autor do crime de tentativa de homicídio contra o presidente da República e seu advogado. Alguém precisa ensinar ao chefe do Executivo eleito de acordo com as leis brasileiras que existe no País algo chamado respeito às prerrogativas dos advogados. E uma dessas garantias legais é o direito inviolável ao sigilo das conversas que mantém com seu cliente.

Superada o primeiro desrespeito à legislação brasileira disparado por Bolsonaro, vamos ao segundo, que na verdade é um combo de agressões, atropelos, ofensas, desrespeitos e demostrações de insensibilidade fria e sem limites do presidente da República. Ao dizer que sabia desde a década de 1970 o paradeiro do pai desaparecido do homem de frente da OAB, Bolsonaro se colocou na condição de cúmplice de quatro crimes graves cometidos pelo Estado brasileiro durante a ditadura militar: sequestro, tortura, homicídio e ocultação de cadáver.

Como trata-se de mais uma demonstração de desprezo à história, a documentos, fatos, investigações, aplicação de conhecimento científico no esclarecimento de uma morte acompanhada de desaparecimento e a inexistência até hoje de um corpo para acalentar a dor dos familiares que vivem há mais de quatro décadas a ferida aberta e exposta da falta de respostas para o sumiço de uma vítima do autoritarismo e truculência instalados no Brasil pós-golpe de 1096 por 21 anos, Bolsonaro se coloca na condição do tiozão do boteco, que não tem qualquer compromisso ou preocupação com o que sai de sua boca enquanto derrama cerveja do copo ao se perder em sua bebedeira.

Ouvir falar ou vivência pessoal não esclarecem fatos, não comprovam afirmações e não servem para nada além de ofender de maneira gratuita, inaceitável e incompreensível uma pessoa identificada como desafeto pessoal ou político. A coisa piora quando analisamos as consequências calculadas do ato de Bolsonaro, que usou do cargo de presidente da República para radicalizar, como pede seu eleitorado mais fiel, e manter o clima de tensão e ódio polarizado entre duas camadas que representam cada uma cerca de 30% daqueles que votam no Brasil.

Tensão interminável

Jair Bolsonaro cabeleireiro live Facebook 1 - Foto Reprodução Facebook

A comunicação simples, com vídeos de baixa qualidade e áudio ruim transmitidos ao vivo pelo Facebook dão o tom do apelo emocional da comunicação direta de Bolsonaro com seus eleitores | Foto: Reprodução/Facebook

Manter o clima de necessidade de troca de acusações no campo virtual é uma estratégia eleitoral constante e ininterrupta do líder do clã Bolsonaro. O debate da campanha não pode ser interrompido para que o presidente, pelas vias legais – a urna -, chegue à reeleição em 2022. É preciso intensificar acalorada a militância disposta a defendê-lo a qualquer custo, como também é primordial que sofra ataques de representantes ou pessoas que se identificam com ideias de esquerda no País.

Quanto mais for tripudiado e criticado, mais fortalece a vontade de seus apoiadores em defendê-lo a qualquer custo, até mesmo se isso os colocar no papel de ridicularizados. A busca pela racionalidade feita pelo PT, que não fez a devida autocrítica diante dos escândalos de corrupção e lavagem de dinheiro que rodearam figuras importantes da cúpula nacional do partido o jogaram contra uma população cansada de ser tratada como inferior e desesperada por se vingar emocionalmente da chacota vivida durante mais de uma década.

E é aí que a desconstrução da figura de Bolsonaro se torna algo complicado. Enquanto a radicalização cada vez mais evidente fortalece o apoio dos fanáticos de forma incondicional, a necessária crítica se torna um triunfo bolsonarista. Enquanto os opositores e quem se incomoda com as mentiras, ataques gratuitos e declarações conspiracionistas e antidemocráticas do presidente prioriza as falhas racionais, temporais e inverdades do discurso eleitoral ininterrupto do adversário político, Bolsonaro incetiva que o apelo emocional de seus eleitores esteja cada vez mais aflorado e pronto a ser defendido com unhas e dentes, pistolas e fuzis.

Implementar medidas para resolver o problema do desemprego e a retração produtiva brasileira é algo óbvio e esperado de governos racionais. A apolítica não quer saber de solucionar crises ou apresentar políticas públicas para que sejam discutidas pelo Congresso. Quer convencer os apoiadores que uma caneta Bic colocada na mão de um mito é capaz de dar ao Brasil um novo amanhã. Mesmo que a tinta daquele objeto limitado e de pequena importância tenha curto prazo de duração. A caneta Bic é trabalhada no sentimento de representação junto aos apoiadores, não é tratado como um item que uma hora ficará sem tinta.

A tinta aqui é a capacidade de motivar pessoas a defender uma ideia enquanto não se enxerga que, diante do papel, nem uma letra aquela Bic escreve mais. A cada novo debate acalorado em torno das declarações absurdas, mentirosas, conspiracionistas e recheadas de achismos, o Diário Oficial da União segue recheado em suas páginas de portarias como a de número 666, de 25 de julho de 2019, do Ministério da Justiça e da Segurança Pública, e outras atrocidades cometidas contra a população.

Essas sim com uma simples caneta. Não a Bic, mas a que é paga pelo preço de um voto encoberto por uma nuvem de distrações. A caneta da ilusão.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.