Afonso Lopes
Afonso Lopes

Atirando pedras no lago

É fácil perceber quem está atrás nas pesquisas ou sob forte ameaça: é só observar quem promove ataques

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Cada campanha eleitoral é uma história completa, com preâmbulo, início, meio, epílogo e fim. Cam­panhas não são, portanto, episódios de uma série interminável, que se arrastam por décadas sem conclusão alguma. Não. Todas as campanhas eleitorais se isolam completamente, mudando as narrativas, algumas vezes alterando também os personagens, e invariavelmente focando sempre o mesmo tema: a disputa pelo poder político-administrativo.

Ao se observar e comparar algumas campanhas, tem-se a tendência fácil de concluir pela semelhança e, assim, pela continuidade. Há alguns fatos este ano que evidenciam esse comportamento. A campanha de Vanderlan Cardoso (PSB), por exemplo, nasceu baseada na campanha de 2010, como se fosse uma continuidade. Talvez por isso esteja, neste momento, surpreendendo de forma tão negativa em relação aos índices de intenção de voto, bem menores do que a votação da eleição anterior, segundo todos os grandes institutos.

Há coisa de um ano, falava-se que Antônio Gomide (PT), popular prefeito na problemática cidade de Anápolis, seria uma espécie de Marconi Perillo de 1998. Naquele ano, como se sabe, o jovem Marconi, novo na grande seara dos caciques da oposição ao PMDB, foi lançado candidato e se transformou aos poucos numa febre de consumo eleitoral absolutamente irresistível, derrubando por terra um dos maiores mitos políticos de toda a história de Goiás, o até então imbatível Iris Rezende. Gomide, para muitos, e talvez também para ele, seria o próprio Marconi/98 re-escrito, como se a eleição daquele ano ainda estivesse com algumas páginas em branco.

Mas se cada eleição é uma eleição, que se en­cerra completamente sem restar uma só letra a ser acrescentada na próxima disputa, algumas a­ções se repetem. Afinal, o objeto do desejo é sem­pre o mesmo: a vitória. O enredo, em de­terminadas situações, quase não se altera. Neste caso estão as estratégias. Para cada momento, há uma lista de “obrigações” a serem cumpridas. Antes de colocar o bloco na rua atrás dos vo­tos, por exemplo, é necessário ganhar completamente o público interno. Quando não se agrada totalmente em “casa”, haverá sempre, e naturalmente, uma razoável dose de desconfiança também nas “casas” vizinhas. Esse não é um problema definitivo, que previamente condene ao fracasso eleitoral, mas é uma dificuldade que sempre deve ser levada em conta. Es­pe­cialmente nas campanhas atuais, em que se de­pende demais dos tempos de rádio e TV, além de uma excelente cobertura nas chapas de candidatos a deputado estadual e deputado federal.

Também é praxe estabelecer estratégias, sejam elas isoladas dentro do próprio grupamento seja no âmbito do segmento em que se situa a candidatura. Em 1994, as oposições se lançaram com dois fortíssimos nomes ao governo do Estado, Lúcia Vânia e Ronaldo Caiado. Absolutamente divorciados enquanto objetivo comum, se devoraram pelas bordas, enquanto Maguito Vilela, do governista PMDB, se fartou no centro da mesa e do prato eleitoral. No final, nem união no 2º turno ocorreu de fato entre os oposicionistas. Nem houve clima para se discutir essa junção de interesses.

Outro ponto que sempre é observado nas campanhas eleitorais é quanto ao formato. Disputas equilibradas tendem a resvalar na troca intensa de ataques, tanto no campo político como no, infelizmente, pessoal. Ao contrário, se um candidato se sobressai e assume uma boa vantagem sobre os demais concorrentes, criando assim uma real e perceptível perspectiva de vitória, a tendência é que ele evite ataques aos adversários para não criar nenhuma marola que possa vir a remexer as águas do lago eleitoral. O oposto é corriqueiro: candidatos que vislumbram o precipício da derrota eminente tendem a se tornar mais agressivos. É como se jogassem pedras no lago para, quem sabe, provocar alguma onda em que possam surfar. Esses aspectos das campanhas não mudam quase nunca. É fácil, portanto, saber quem lidera a corrida eleitoral e quem está com prévio gosto de possível derrota na boca. Basta observar o comportamento das campanhas.

Atualmente, a campanha de Iris, Go­mi­de e Vanderlan iniciaram uma série de ataques contra a campanha do governador Mar­coni. Se as marolas que estão sendo pro­vocadas por eles vão formar algum tipo de onda ou não, não há como saber. É cer­to que quem ataca geralmente tem muita di­ficuldade para crescer. Ao contrário, o agressor geralmente diminui as próprias chances. Mas é certo também que quem é atacado pode cair ou pelo menos parar de subir. Saber atuar bem para controlar as marolas criadas pelas pedras atiradas no lago eleitoral é fundamental. Se a campanha de Marconi vai conseguiu se defender na medida exata sem aumentar a marola do ataque, se fará sabido dentro de mais algumas semanas. Poucas semanas, pouquíssimas.

Em tese, o principal argumento de ataque de Iris é fraquíssimo. Escalar o caso Ca­choeira como artilheiro do seu time na esperança de virar o jogo eleitoral, obedecidas as pro­porções, seria o mesmo que escrever os no­mes dos jogadores da seleção de 1970 nas ca­misetas do time escalado por Felipão na Copa de 2014 na esperança de ga­nhar da Alemanha, no Mineirão. O que Iris e os demais opositores precisam é de algum fato realmente novo e deveras impactante, que forme uma onda instantânea. Pedras no lago remexem as águas eleitorais em forma de marolas, mas não abalam as margens. A oposição precisa de um tsunami.

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