Augusto Diniz
Augusto Diniz

Ao insistir com Lula candidato, PT perde tempo nos debates e pode ficar fora da TV

Na dúvida se o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), receberá os votos que iriam para o ex-presidente da República, que está preso há 4 meses, partido se atrapalha

Candidatura do PT é chamada de chapa tríplex nas redes sociais por ser a única com três nomes, com um pseudo-candidato e dois vices | Foto Ricardo Stuckert

A apresentação do registro de candidatura do PT vai ser deixada mesmo para a última hora, na quarta-feira, 15. Mas esse não é o grande problema do partido na corrida presidencial. Na tentativa de levar até o momento final a mudança do nome que estará nas urnas na disputa pelo cargo de presidente da República pela sigla, o Partido dos Trabalhadores pode levar seu plano A como a insistência que levará a legenda ao poço. Ainda mais em uma eleição cheia de dúvidas, indecisão e descrédito por parte do maior interessado e que decide o jogo, que é a população com direito a voto.

Enquanto as alas do PT discutem se o melhor a se fazer é tirar ou não o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad do material de campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e tratar o vice da chapa como um elemento surpresa, pronto a herdar os votos do mentor petista. Lula provavelmente será impedido pela Justiça de disputar as eleições e o partido deixa de explorar o tempo que teria para debater propostas e mostrar a viabilidade de seu candidato ao eleitor nos debates televisivos.

A legenda já perdeu a primeira oportunidade, que aconteceu na quinta-feira, 9, na Band. O programa, que deveria ter nove candidatos, foi composto por somente oito porque o nome do Partido dos Trabalhadores não tem autorização judicial para deixar a cadeia para participar de entrevistas, sabatinas, debates ou qualquer evento de campanha.

Lideranças próximas a Lula relutaram bastante, mas autorizaram Haddad, candidato a vice do ex-presidente, a se colocar como porta-voz do petista nos debates. A dúvida é saber se as emissoras de TV e rádio aceitarão ter no lugar do candidato um representante de Lula. Por mais que a audiência na cidade de São Paulo, que tem mais de 12 milhões de habitantes, tenha sido de apenas pouco mais de 700 mil pessoas, essas ficaram com a impressão de que o PT não está na disputa. Parte dos telespectadores que acompanharam o debate da Band terminaram as cansativas três horas de programa sem ver um representante petista no ar.

Como a tendência é a de a Justiça Eleitoral analisar o pedido de registro de candidatura de Lula antes do fim do mês de agosto, pode ser que a tentativa de acreditar em uma benevolência do Supremo Tribunal Federal (STF) com o ex-presidente não aconteça. Já pensou o PT fora da propaganda eleitoral de TV nos blocos de 12 minutos e meio e sem pílulas de 30 segundos nos intervalos comerciais das emissoras abertas? Por mais que se gaste muito dinheiro com publicações impulsionadas destinadas a públicos muito bem selecionados, mais de 63 milhões de brasileiros sem acesso a internet não verão nada do conteúdo online petista durante a campanha.

A dúvida é a viabilidade da tática da transferência de votos dar errado com tanto tempo antes do dia 7 de outubro? Não há outra alternativa a não ser mudar logo o nome do candidato a presidente e registrar Fernando Haddad na cabeça da chapa e a deputada Manuela D’Ávila (PCdoB) já no dia 15 de agosto, mesmo 53 dias antes da votação no primeiro turno. Muita gente já sabe que Lula tem uma chance muito remota, quase nula, de conseguir ter seu registro de candidatura aceito. Além da condenação em segunda instância no caso do tríplex no Guarujá (SP), a Justiça brasileira não mostra muito boa vontade com o ex-presidente e tende a resolver o caso o quanto antes.

A aliança petista ganhou nas redes sociais o apelido de “chapa tríplex”, em referência ao processo do apartamento no Guarujá que levou Lula à cadeia e ao fato de ser a única coligação na disputa presidencial que tem três candidatos. Lula e Haddad surgem de forma oficial e Manuela como a terceira integrante que deve passar a ser a vice em pouco tempo. Se a tendência é que cada vez mais eleitores tomem consciência desse arranjo, por que não assumi-lo de imediato até quarta no registro de candidatura do PT?

Haddad já se aproximou do grupo lulista e teve o aval do ex-presidente para ser seu vice na chapa e representante de Lula caso a candidatura do líder petista dê errado. Para o PT, Lula e Haddad, seria muito mais interessante começar a trabalhar o nome do ex-prefeito de São Paulo como presidenciável a partir de agora, mesmo que ele comece mal nas pesquisas, longe dos cerca de 30% de Lula. Os petistas e toda coligação teriam a oportunidade de tirar de Haddad a possível figura de candidato fantoche ou laranja de um guru preso, o que poderia gerar saldo negativo e dúvidas sobre quem governaria o País caso do PT venha a vencer nas urnas.

A substituição de Lula por Haddad na reta final só aumentaria o questionamento e dúvida sobre o futuro de Haddad se vier a ser eleito presidente. Por isso cabe ao PT bom senso na hora de tentar solucionar um problema que a Justiça não tende a ter interesse de ajudar o partido, se a decisão for mesmo a defendida até o momento, que é a de insistir com Lula. O ex-presidente é uma figura popular pela qual boa parte do eleitorado nutre uma lembrança de afeto pelos tempos de bonança econômica. Mesmo em tempos difíceis para a sigla. Cabe aos petistas decidirem se querem ter um candidato nos debates, no programa eleitoral na TV e no rádio ou apenas uma ideia – “Lula livre” – a ser defendida a qualquer custo, independente das consequências.

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