Afonso Lopes
Afonso Lopes

A agonia do ex-gigante

Em nível nacional, já foi considerado o “maior partido do mundo ocidental”. O de Goiás, era tido como o mais forte PMDB do país, mas pode nem ao menos lançar candidato próprio ao governo em 2018

Iris Rezende, com seu completo domínio do PMDB goiano, é a redenção e também a condenação da sigla | Fernando Leite/Jornal Opção

Iris Rezende, com seu completo domínio do PMDB goiano, é a redenção e também a condenação da sigla | Fernando Leite/Jornal Opção

Quem nasceu da década de 1980 para cá não tem a menor noção, a não ser pela pouca literatura a respeito, do que o PMDB representou para o Brasil na fase de redemocratização. O partido não tinha bandeiras. Era ele próprio a bandeira da maioria esmagadora da população brasileira. Um extraordinário fenômeno partidário jamais alcançado por outra agremiação.

Nem o PT dos velhos tempos, no auge, conseguiu sequer se aproximar da quase unanimidade nacional que o PMDB foi. Quem olha hoje para esse PMDB que aí está, liderado por figuras como Michel Temer (SP), Valdir Raupp (RO), Renan Calheiros (AL) ou Eduardo Cunha (RJ), provavelmente não percebe o que era o PMDB de Ulysses Guimarães (SP), Tancredo Neves (MG), Mário Covas (SP) ou Franco Montoro (SP). E isso para ficar em nomes um pouco mais frescos na memória. O PMDB era a elite máxima da política brasileira, e graças àquela elite a democracia se tornou um fato irreversível. O Brasil, enquanto nação democrática, deve muito ao velho PMDB. Não a esse PMDB dos dias atuais. Esse, não.

O partido era tão hegemônico com sua grandeza que seus líderes diziam que era o “maior partido do mundo ocidental”. Provavelmente, não era, não. Em outros países, como no México do PRI, provavelmente existiram partidos maiores. Mas por aqui ninguém ousava contestar a frase um tanto quanto prepotente e extremamente ufanista.

Nessa mesma época, não de ouro, mas de diamantes, do partido em nível nacional, os peemedebistas goianos cunharam a própria frase: o PMDB de Goiás é o mais forte do Brasil.

Ninguém foi conferir se a frase realmente era verdadeira ou não. O PMDB goiano era forte demais da conta para alguém duvidar. Tanto que nas eleições de 1986, a segunda para governador do Estado após o retorno das eleições diretas, a disputa aconteceu entre dois peemedebistas, Henri­que San­tillo e Mauro Borges. A oposição não tinha um só nome com representação abrangente, e por isso abraçou de imediato a candidatura de Mauro, que havia deixado o PMDB. Aliás, Mauro deixou o partido, mas o PMDB jamais saiu de dentro dele.

Nunca.

Foi um tempo em que o PMDB ganhava praticamente tudo o que disputava, do governo aos vereadores. Ganhou inclusive a Presidência da República, com Tancredo Neves, na eleição indireta de 1985. Por sinal, nas eleições de 86, a oposição conseguiu vencer em apenas um Estado. Em todos os demais, em todas as cinco regiões do país, só deu PMDB.

O tempo passou e o PMDB de antigamente perdeu sua enorme identificação com boa parte da população brasileira. Em Goiás, não foi nada diferente. Em 1998, em uma virada histórica, os peemedebistas co­meçaram o atual calvário. Ao contrário do que ocorre em nível nacional, onde o partido ainda consegue maioria aqui e acolá, em Goiás a si­tuação é bem ruim. Para alguns o­bservadores da cena política estadual, Iris Rezende e seu completo domínio do PMDB no Estado, é sua redenção e também a sua condenação.

Tanto uma avaliação quanto a outra faz sentido. Sem a enorme liderança e presença de Iris, o PMDB não seria tão grande como foi, e de certa forma ainda é, embora incomparavelmente menor do que nas décadas de 1980 e 1990. Mas também por essa liderança ser tão abrangente dentro do fora do PMDB, o partido jamais conseguiu se renovar, e envelheceu juntamente com Iris. E isso é um fator inexorável. A pegada já não é a mesma. Nem do partido e nem de Iris.

Pode ser o ocaso do ex-gigante da política goiana? Sim, pode ser. Por sinal, existem sinais evidentes de que isso já está em curso. Do jeito que as coisas estão acontecendo nas entranhas do PMDB, é pouco provável que o partido consiga lançar candidato próprio ao governo do Estado em 2018. O nome mais viável é obviamente, e sempre, o de Iris. Mas enfrentar mais uma disputa após duas derrotas consecutivas é dose cavalar até mesmo para um líder como ele. A solução seria o irismo aceitar que outra corrente interna entrasse no jogo. Mas quem, a não ser um integrante do chamado grupo maguitista. O PMDB hoje se resume a esses dois grupos. Como existe um veto aos maguitistas, a saída é encontrar nome externo. É onde entra Ronaldo Caiado (DEM), única liderança bastante expressiva em nível estadual que é aceita pelo irismo.

Em resumo, o PMDB, o outrora gigante da política goiana, agoniza publicamente, e pode chegar ao ponto de nem ao menos lançar candidato próprio ao governo do Estado em 2018. Difícil perspectiva para o partido que há 36 anos iniciou a conquista política de Goiás, e que aos poucos vai se tornando cada vez menor.

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