No primeiro dia de seus mandatos, em que ocorria também a eleição para a mesa diretora da Câmara dos Deputados, um grupo de cerca de duas dezenas de parlamentares bolsonaristas, a maioria neófitos, posou para uma série de fotos segurando cartazes com os dizeres “Fora Lula” e “Fora ladrão”, ambos, claro, referentes à pessoa do presidente da República.

Três deles representam muito bem a nova geração da extrema direita que chega a Brasília: André Fernandes, Gustavo Gayer e Nikolas Ferreira, todos eleitos com enormes votações pelo PL do ex-presidente Jair Bolsonaro. Têm tudo para ser a nova geração de “deputags”, um termo ferino para designar parlamentares que costumam trabalhar menos em plenário e mais pelas redes sociais – daí o termo “tags”, em referência a “hashtags”, as palavras-chaves que acompanham o sinal de jogo da velha (#) para engajar assuntos no Twitter, Instagram e outras mídias.

Eleito deputado estadual na onda bolsonarista de 2018, André Fernandes é o caçula do trio. Ano passado, buscou uma vaga na bancada federal do Ceará e obteve 229.509 votos, a maior do Estado para o cargo. É filho de pastor evangélico, preza os chamados “valores conservadores” e promete muita briga contra projetos que considera “contra a família” e que constituam “inversão de valores”. Curiosamente, tornou-se conhecido nas redes sociais após fazer um vídeo em que, vestindo um short, fica de cócoras sobre um espelho e ensinar um método para depilar o ânus. Em outra postagem no YouTube, simulou cheirar cocaína. Durante a pandemia, envolveu-se em polêmicas contra o isolamento social, entre elas, desobedecer a uma proibição de banho de mar em Porto de Galinhas (PE) e tentar conter, em meio a gás de pimenta, policiais do choque que reprimiam uma manifestação contra as medidas sanitárias, protagonizando uma cena pastelão.

Como membro da Assembleia Legislativa do Ceará, o agora parlamentar federal teve acusações de nepotismo por empregar um cunhado e o marido de uma tia e também respondeu processo na Casa por fake news – em um deles, foi suspenso do mandato por 30 dias, em agosto de 2020, após acusar, sem provas, o também deputado Nezinho Farias (PDT) de integrar uma facção criminosa. Outro processo – por quebra de decoro ao veicular acusações, novamente sem provas, a médicos cearenses e ao titular da Secretaria da Saúde do Estado de adulteração de atestados de óbitos durante a pandemia de Covid-19 – foi arquivado.

A realpolitik não se faz apenas pela internet. A política do Parlamento é, antes de tudo, um jogo presencial, que se faz com muita articulação e diálogo com os colegas

Na política, Gustavo Gayer não “puxou a mãe”, como se diz na linguagem popular: Conceição Gayer, que morreu em 2006, foi vereadora em Goiânia e deputada estadual por Goiás na década de 80, e era reconhecida militante feminista. Seu filho, professor e empresário, teve votação relativamente surpreendente na eleição municipal de Goiânia em 2020. Com o poder de mobilização da extrema direita pelas redes sociais, disputando a Prefeitura pelo DC, ficou em 4º lugar, com mais de 45 mil votos, à frente de outros 12 candidatos, entre eles Major Araújo (PSL), apoiado diretamente por Jair Bolsonaro, que à época estava sem partido.

Meses antes da eleição, no 1º de Maio, Gayer havia filmado um ato pacífico de profissionais da saúde na Praça dos Três Poderes em memória de colegas mortos na pandemia e em prol de melhores condições de trabalho durante a crise sanitária. No vídeo, o hoje parlamentar afirmou que fora “um, dois médicos no máximo”, eram farsantes se passando por médicos e enfermeiras. Uma desinformação que poderia ser corrigida se o próprio autor da postagem tivesse procurado os manifestantes ali, ao lado. Eleito o segundo mais votado de Goiás para a Câmara no ano passado, já chegou chutando a porta: em sua diplomação, em dezembro, chamou o evento de “teatro”. No dia da posse e eleição das mesas diretoras do Legislativo, ficou chateado com a vitória do senador Rodrigo Pacheco na outra Casa e escreveu: “Isso aqui é uma p*taria de um grande teatro. Uma democracia de vitrine. Não há mais parlamento nessa p*rra” (o texto original postado no Twitter não tem os asteriscos).

A grande estrela entre os novatos, no entanto, é Nikolas Ferreira, que era vereador em Belo Horizonte e foi eleito deputado federal com a maior votação do Brasil, com quase 1,5 milhão de votos. Tem cara de garoto, apesar de ser mais velho que André Fernandes, mas, como o colega, também é filho de pastor. Está na militância bolsonarista desde 2016 e ficou conhecido por, assim como o Carlos Bolsonaro (Republicanos) no Rio, viajar pelo Brasil e pelo mundo sendo legislador de uma cidade – com o que também ganhou a pecha de “vereador federal”.

Como Gayer e Fernandes, primou pelo ativismo negacionista e pela desinformação durante a pandemia. No começo do mandato, já provocou polêmica com algo que nada tem a ver com o exercício da função, ao ironizar a escolha pela TV Globo, da dançarina Thaís Carla como nova modelo Globeleza para o próximo carnaval – uma forma de a emissora se engajar contra o preconceito às pessoas obesas. “Tiraram a beleza e ficou só o Globo”, escreveu.

Todos os três lidam como poucos com as redes sociais. Sabem tirar delas o melhor engajamento possível, atraindo admiradores com suas ironias e também provocando a ira e a reação dos opositores, o que só favorece a que os algoritmos trabalhem ainda mais para evidenciá-los.

A questão é que a realpolitik não se faz apenas pela internet. A política do Parlamento é, antes de tudo, um jogo presencial, que se ganha com muita articulação e diálogo com os colegas, inclusive do campo ideológico oposto. Ainda estão deslumbrados com o que conseguiram graças ao fenômeno que se tornaram na internet, mas, das duas uma: ou vão cair na realidade em algum momento do que é o trabalho legislativo ou ficarão isolados na Casa, falando apenas a seus nichos – o que, diga-se, ainda é muito.

Na Câmara, as referências do campo da direita radical para a grande mídia continuam sendo Eduardo Bolsonaro, principalmente – como herdeiro do líder-mor –, Carla Zambelli e Bia Kicis, todos do PL. A ocupação dos holofotes por políticos influencers tende a gerar disputa por espaço e, com uma pitada de vaidade, o bloco que se mostrou unido para posar com cartazes anti-Lula pode facilmente se dissolver. Aguardemos os próximos capítulos – ou melhor, as próximas postagens.