A “Conexão” da semana passada tratou da ascendência de uma “nova direita” – que, na verdade, é o nome dado para a radicalização do que chamam de “conservadorismo”. As aspas aqui são porque não há nada de conservador no que pretendem seus militantes, que querem desconstruir (quando não destruir) o que está posto na democracia liberal que vigora no Ocidente. Revolucionários para alguns, contrarrevolucionários para o outro lado.

Em bom português, o que há no Brasil e no mundo de hoje é o avanço de uma extrema direita que cada vez menos se disfarça como tal. A prova disso foi a tenebrosa reunião que juntou mil fascistas declarados em Roma, dia 6 de janeiro. Todos vestindo preto, postados como soldados, gritavam “presente” a uma só voz e faziam a saudação romana, de triste memória, com o braço estendido. Eles prestavam ali um desagravo que mantêm de forma recorrente há 47 anos, relembrando a morte de três militantes do Movimento Social Italiano (MSI), um grupo pós-fascista da Itália, por rivais da extrema esquerda. Como a primeira-ministra do país, Giorgia Meloni, também é uma radical de direita, essa mobilização vem crescendo ano a ano.

Por aqui, em particular, há uma preocupação com o avanço de células neonazistas e alguma tolerância além do limite – o que passa facilmente para o campo da negligência – a manifestações de caráter fascista ou que o tangenciam. Foi isso que ocorreu em Santa Catarina, como reação ao resultado do segundo turno das eleições presidenciais de 2022, no contexto dos protestos antidemocráticos que quiseram parar o Brasil, clamando apoio a um golpe militar em portas de quartéis, bloqueando estradas e até derrubando torres de energia.

Como o restante da sociedade tem reagido a esse tipo de acontecimento, que relembra alguns dos piores momentos do século passado? Com algo entre indignação e perplexidade, mas cada vez em menor intensidade. Ou seja, o que era escandaloso tempos atrás – por exemplo, alguém defender o nazismo publicamente – já não causa tanto espanto nem reação, porque o ritmo contemporâneo, de “sentimentos líquidos”, como classificaria Zygmunt Bauman, não dá respiro para reflexões. E, como se mostra evidente, o excesso de estímulos das redes sociais, dentro do que está sendo designado já há algum tempo como “economia da atenção”, neutraliza uma reação efetiva às aberrações que vão levando o mundo a um estágio cada vez mais primitivo, irônica e perigosamente quando o mesmo mundo nunca foi tão tecnológico.

Um fenômeno decorrente de todo esse processo é o esvaziamento do centro do espectro ideológico. Basta ver a quantidade de políticos que tempos atrás eram considerados moderados e foram se radicalizando ou, no mínimo, tiveram de tomar um lado. No Brasil não faltam casos: gente que era de centro caiu para um dos lados, a maior parte para a direita, puxados pelo bolsonarismo. O PSDB é o melhor dos exemplos e o ex-governador, ex-candidato a Presidência, ex-senador e hoje apenas deputado Aécio Neves é o mais destacado nome da lista. Para o lado da esquerda foi Geraldo Alckmin, hoje no PSB e considerado neocomunista pelos reacionários, depois que aceitou ser vice-presidente na chapa do petista Luiz Inácio Lula da Silva.

Nos Estados Unidos, é inacreditável ver como um sujeito no máximo centrista como Joe Biden tornou-se, mais do que referência, a única opção para enfrentar o poderio do carisma extremista de Donald Trump, o mesmo que um dia disse “eu poderia parar na metade da 5ª Avenida [principal via de Nova York], disparar contra as pessoas e não perderia eleitores”.

O interessante é que o cabo de guerra puxado pelas forças extremistas de direita leva o outro lado para longe de suas próprias pautas de origem. Se há dez anos eram os mais à esquerda os que criticavam as instituições, em uma atitude rebelde ao sistema – é bom lembrar que parte do PSOL aderiu entusiasticamente ao advento da Operação Lava Jato –, hoje é a mesma esquerda que defende o Supremo Tribunal Federal (STF), o Congresso Nacional e, enfim, a política.

Internamente, nas agremiações partidárias do campo, as tradicionais teses e correntes (chamadas de tendências em alguns partidos) perderam força. E a coesão da esquerda se enfraqueceu muito por causa do avanço das pautas identitaristas diante dos ortodoxos que exaltam a luta de classes. Essas pautas progressistas, ligadas ao feminismo, à causa LGBTQIAPN+, ao movimento negro etc., diga-se, têm sido o alvo principal da direita. Mais do que alvo, combustível: quanto mais se fala da questão de costumes, mais a direita ganha adeptos que dizem “se defender” ou “defender a família” – quando, na verdade, não há nenhum ataque a seus próprios direitos.

Observando o todo do quadro, dá para sentenciar: não importa se está no poder (como no Brasil ou nos Estados Unidos) ou ou não, pelos próximos anos a esquerda estará acuada e inevitavelmente “inclinada” ao centro, que passou a ser o lugar do bom senso e do pensamento científico, já que a histrionice e o negacionismo se tornaram marcas da tal nova direita. Temas nada mais nem nada menos do que científicos, como a vacinação em massa e o aquecimento global, são hoje contestados abertamente por quem nunca folheou um livro de biologia e, ao mesmo tempo, defende uma suposta liberdade de expressão para pregar contra a urna eletrônica e dizer que o formato da Terra é questão de opinião.

Na história da evolução do pensamento político, trocou-se a discussão econômica por uma pauta de valores que se preocupa mais com questões morais (casamento homoafetivo, educação sexual etc.) e metafísicas (ensino religioso, liberdade de culto etc.) do que aspectos da vida material, como o enfrentamento da fome, a proteção ao meio ambiente e o acolhimento aos refugiados.

O rebuscamento da esquerda, hoje, virou sinônimo de afetação, porque as pessoas se revoltaram contra o que parece longe de seu próprio mundo, inclusive discursivo. É mais fácil entender o que está próximo, e o simplismo sempre está. Dessa forma é que, em uma confraternização em família, aquele tio que cuida da grelha começa a espalhar sua opinião rasa, mas convicta, sobre ter pena de morte para trombadinhas, a “parte boa” da ditadura, o “lugar da mulher” e como o mundo “tá sem graça” porque não pode mais fazer piada de gay nem de preto. O pior: sem medo de se expor ao ridículo, ele vai conseguindo adesões, porque para alguns ali, só era necessário achar alguém com essa coragem.

E foi assim – como em um dia não tão distante profetizou Umberto Eco sobre as redes sociais – que o idiota da aldeia se tornou influenciador com milhões de discípulos – e nem está se falando aqui de Pablo Marçal. Porque os valores a que a direita se apega clamam ao indivíduo, enquanto o que a esquerda precisa transmitir é uma mensagem coletiva que não anda fazendo muito sentido, apesar de sua total urgência num mundo em frangalhos.

Em outras palavras, fazer esse enfrentamento é uma necessidade de sobrevivência para a esquerda e, até, para a democracia. Mas ambas precisam se reinventar.