Edgar Welzel
Edgar Welzel

Sobre a pandemia do novo coronavírus (parte 1)

O lockdown não parece adequado: há no país uma massa enorme de trabalhadores que depende de seu trabalho de hoje para se alimentarem amanhã

Edgar Welzel, da Alemanha, e Irapuan Costa Junior, do Brasil

A atual geração, dos jovens aos de idade avançada, nunca se confrontou com uma pandemia que aflige a humanidade de forma global como a do coronavírus. Descoberto em 17 de novembro de 2019 em Wuhan, cidade com cerca de 8,3 milhões de habitantes, no leste da China, cerca de 2.600 km ao sul de Pequim, o diminuto agente infeccioso em poucas semanas tornou-se inimigo figadal urbi et orbi.

Descrito inicialmente pelos chineses como simples gripe, incongruência assimilada por alguns chefes de Estado no mundo ocidental pelo diminutivo “gripezinha”, rapidamente o coronavírus mostrou sua verdadeira face: de simples gripe assumiu ares de epidemia para em seguida transformar-se em pandemia de sinistras proporções.

No início de janeiro de 2020 a questão, em linguagem moderna, viralizou em duplo sentido.

Em poucas semanas o coronavírus globalizou e é, desde então, tema dominante em nível mundial e nenhum cientista sério ousa declarar até quando a pandemia nos manterá em seus grilhões e quantas vidas ainda ceifará; nenhum economista sério se dispõe a precisar a magnitude dos efeitos colaterais resultantes das medidas restritivas necessariamente tomadas de forma diversa nos países ao redor do globo.

Enquanto isso a periculosidade do coronavírus continua sendo matéria de pesquisa. Nunca na história da Humanidade a corrida à procura de um antídoto de fácil e rápida produção em massa tem sido tão concorrida como a momentânea que envolve intensas atividades científicas em laboratórios de pesquisa, na indústria farmacêutica e demais instituições do gênero. Admite-se que milhares de forjadores ao redor do Planeta estejam envolvidos nesta silenciosa e necessária faina.

Claro é que esta exaltação criadora também é motivada por interesses políticos e econômicos e, não por último, por ambições em repercussão prestigiosa para o primeiro que apresentar um produto comprovadamente infalível e aceito pela comunidade científica internacional.

O primeiro país rigorosamente atingido na Europa foi a Itália. Os trágicos desenvolvimentos, com acentuada intensidade na região norte daquele país, são conhecidos. São conhecidos também os reiterados apelos de Giuseppe Conte, chefe do governo italiano, às demais nações europeias por ajuda.

De nada lhe valeram seus apelos de desespero. Foram, isto sim, sinais de alerta para os governos dos demais países europeus ao norte dos Alpes que, com exceção de Boris Johnson, primeiro-ministro da Grã-Bretanha, interpretaram o desespero italiano como mensagem e a transformaram em ação. Foi a hora na qual a Europa acordou e se conscientizou, apoiada por virologistas de renome dos diversos institutos europeus, da dramaticidade do ainda não bem conhecido coronavírus.

No dia 16 de março, Emmanuel Macron, presidente da França, dirigiu-se a nação a fim de prevenir os franceses sobre a seriedade do coronavírus e sobre medidas restritivas que o governo deverá tomar. Em discurso de20 minutos, Emmanuel Macron usou seis vezes a palavra guerra: “Estamos numa guerra na qual não lutamos com tanques contra um exército, nem contra uma outra nação. Fato é que estamos em guerra contra um inimigo invisível”.

Diante destas ocorrências, autoridades europeias desfraldaram a bandeira vermelha e, sem que demonstrassem pânico, mas com seriedade, competência e irrefutável persuasão comunicada de forma uníssona, não cansaram de repetir a necessidade de medidas extremas, anormais. O povo entendeu os apelos e respeitou as recomendações.

Medidas de precauções restritivas, nunca antes tomadas de forma tão drástica, como a paralisação das atividades fabris, comerciais, da aviação, da gastronomia, hotelaria, da cultura, das diversões em geral e desportivas, das escolares bem como o isolamento social, distanciamento e cuidadosas prescrições higiênicas foram aceitas menos como obrigatoriedade, antes como necessidade de contribuição individual para diminuir os riscos de contaminação pessoal.

Nunca houve, em tempos de paz, medidas restritivas desta magnitude. Angela Merkel, chanceler da Alemanha, resumiu a problemática numa curta frase: “Nunca tivemos um caso como este. Estamo-nos confrontando com o maior problema desde a Segunda Guerra Mundial. Ninguém tem experiência sobre o assunto. Mas temos que enfrentá-lo. Nossa preocupação principal é o bem-estar da população”.

A Europa paralisada, cidades mortas, ruas desertas, autoestradas livres que, em caso de emergência, poderiam servir de pista de pouso para qualquer tipo de aeronave. Um quadro aterrador, quase dantesco, nunca presenciado em nossa geração à qual inicialmente nos referimos.

Com a rapidez dos desenvolvimentos não houve nem tempo para longas discussões político-partidárias.  Líderes políticos europeus paralisaram o continente mais com um misto de sugestões, pedidos, recomendações e admoestações do que com leis, decretos, alvarás ou decisões parlamentares.

Fato é que não existia medida ou solução que se adaptasse a todos os países de forma padronizada já que as condições hospitalares e de saúde básica diferem em muito de um país a outro e, não raro, de região para região dentro de um mesmo país. Pode-se afirmar que as medidas foram muito semelhantes — com exceção da Suécia, único país europeu que optou por uma solução própria, com menos restrições, vista desde o início com ceticismo por bom número de cientistas europeus. Sem que haja estudos exaustivos, já agora mostra-se que a medida sueca não foi das melhores.

A pandemia do coronavírus não é algo de novo. No decorrer da História da Humanidade a civilização humana já sempre foi confrontada com epidemias e pandemias. No II Livro de Samuel, no Antigo Testamento, encontra-se a seguinte referência redigida há cerca de 2.500 anos: “Então enviou o Senhor a peste a Israel, desde pela manhã até ao tempo determinado; e desde este dia até Berseba, morreram 70 mil homens do povo” (24;15).

Em um manuscrito de papiro mais antigo de 5 mil anos, do tempo dos faraós, encontram-se referências sobre enfermidades coletivas que, segundo pesquisadores modernos, enquadram-se no conceito de epidemia e pandemia. Nas estepes da Eurásia, nas imediações do Mar Negro, foram encontrados esqueletos de 5 mil anos nos quais pesquisadores detectaram provas de moléstia pandêmica.

A Civilização Maia na Guatemala, Honduras e Nicarágua já desaparecera na era pré-colombiana. Pesquisas modernas sustentam que o desaparecimento daquela alta civilização tenha sido causado por pandemia.

Outro exemplo é a Peste Negra que, na Idade Média, a partir de 1347 vitimou um terço da população em muitas cidades europeias. Para quem nunca leu o Decamerão do autor florentino Giovanni di Boccaccio (1313-1375), sugerimos ler no mínimo as primeiras 10 páginas. Boccaccio começa desculpando-se perante as damas de Florença por ter que começar suas narrações por um assunto não muito agradável. Em seguida descreve detalhes da Peste Negra que grassou de forma grave em Florença. Na época ainda não se tinha conhecimentos virológicos, mas já se sabia que a enfermidade era transmitida de pessoa para pessoa. Pasme o leitor: Boccaccio descreve o isolamento e o distanciamento social. Enfim grandes paralelos com a situação que estamos vivendo com o atual coronavírus.

Admite-se hoje que uma das causas da queda de Constantinopla em 1453 tenha sido uma peste que grassava na época vitimando um quarto da população. Em consequência não houve soldados em número suficiente para proteger as fronteiras.

Em época mais recente a Gripe Espanhola que assolou grande parte do mundo logo após a Primeira Guerra Mundial e que durou quatro anos de 1919 a 1923 vitimando milhões de pessoas. Não há cifras unânimes e, dependendo da fonte que se consulte, a Gripe Espanhola ceifou a vida entre 50 e 70 milhões de pessoas. São estes apenas alguns exemplos. Na literatura especializada encontram-se centenas de exemplos que assolaram a Humanidade desde Adão e Eva. Voltemos à Europa atual.

Na luta contra o inimigo invisível constata-se que, na Europa, alguns países lograram melhores resultados do que outros. O tema é amplo e extremamente complexo pois envolve uma multiplicidade de enfoques cuja análise é de competência de virologistas e demais especialistas em estudos universitários e laboratórios do ramo, só após o coronavírus tiver se despedido e quando dados mais confiáveis estiverem à disposição. Abre-se aqui um amplo campo científico para pesquisadores, para teses de doutorado e trabalhos afins.

Novo coronavírus na Ásia e confinamento

Se o impacto da pandemia foi tremendo na Europa, o mesmo não se pode dizer do acontecido em vários Estados asiáticos, provavelmente pelo fato de terem sido atingidos por epidemias de caráter similar no passado recente, como a Gripe Suína (ou H1N1) de 2009, SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave) de 2003, a Gripe Aviária (ou H5N1) de 1997, a Gripe de Hong-Kong de 1968 e a Gripe Asiática de 1957. Singapura, Hong Kong, Taiwan e Japão parecem ter usado essa experiência anterior no adotar agora medidas de isolamento que deram resultado, dado o baixo nível de contágio que experimentaram. Embora se trate de um vírus novo, algumas medidas de proteção social testadas no passado devem ter se mostrado eficazes, dado o número relativamente reduzido de não só contaminações como de fatalidades agora observados nesses estados asiáticos.

No continente americano, até o presente, o impacto tem sido de magnitudes diversas, dependendo do país que se examine. Sem dúvida, os Estados Unidos foram os mais atingidos, seguidos do Brasil, o que em boa parte se explica por serem os mais populosos. Dos dois, até o presente, são os Estados Unidos de longe os mais impactados, sem deixar de lado o fato de que o chamado “pico” da pandemia já teria ocorrido lá e ser ainda indefinido no Brasil.

O fato de se tratar de uma virose absolutamente nova, de que pouco se conhecem os mecanismos de prevenção, contágio, medicação e letalidade foi um agravante, para muitos dos países atingidos. No Brasil, as autoridades, verdadeiramente atarantadas com a novidade, recebendo sinais erráticos da OMS, ela também sem norte seguro quanto à lida com a doença, adotaram de saída o que parecia ser a medida mais simples: o isolamento horizontal, o “lockdown”. Não parece ter sido o mais adequado, pois há no país uma massa enorme de trabalhadores, principalmente os informais, que simplesmente depende de seu trabalho de hoje para se alimentarem amanhã. Para estes, é simplesmente impossível o “lockdown”.

Houve, e ainda persiste, uma certa tensão social, surgida quando o governo federal se manifestou contra o isolamento horizontal e a maioria dos governadores o defendeu, gerando questão que a Suprema Corte definiu como prerrogativa de prefeitos e governadores impor ou não as medidas de isolamento. O Executivo federal, diante disso, e prevendo uma situação de fome, adotou medidas de auxílio financeiro para a grande massa informal e para desempregados, mas não pode sustentá-las por muito tempo. Como além de tudo, o isolamento havia sido imposto um tanto precocemente, com os governos estaduais temendo a superlotação dos hospitais, a população, ao fim de duas semanas, passou à desobediência civil, e os índices de isolamento nunca chegaram aos 70% pretendidos, ficando próximos dos 50%. Esse, o quadro atual, ainda não alarmante perante outros países, com um índice de infecção ainda relativamente baixo, perante os europeus e os norte-americanos. Mas persiste, até o momento em que se escreve a presente análise, uma expectativa incerta.

Nota

Voltaremos ao assunto numa das próximas edições do Jornal Opção quando abordaremos com mais detalhes os desenvolvimentos em alguns países de surto mais crítico e uma tentativa leiga sobre as razões pelas quais alguns países europeus lograram melhores resultado do que outros.

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