Nova terapia argentina promete regenerar coração após infarto e desperta expectativa entre especialistas
22 julho 2026 às 13h30

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O infarto é uma das principais causas de morte por doenças cardiovasculares no Brasil e no mundo. Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), a condição foi responsável por cerca de 300 mil a 400 mil mortes no país em 2025. Em Goiás, mais de 9 mil pessoas morreram em decorrência de doenças cardiovasculares, conforme dados da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO).
Agora, uma pesquisa desenvolvida na Argentina promete não apenas reduzir a mortalidade, mas também melhorar a qualidade de vida de pacientes que sobrevivem ao infarto. A startup Amnova Biotech desenvolve um hidrogel com propriedades regenerativas capaz de reparar parte do tecido cardíaco danificado após o evento.
A tecnologia é liderada pela bióloga Pilar Ferrer, no Medicina Traslacional, Trasplante y Bioingeniería (IMETTYB), vinculado à Universidad Favaloro, em Buenos Aires. Inspirado nas propriedades da membrana amniótica humana, o material ainda está em fase pré-clínica, com testes em humanos previstos para 2028.
Apesar da expectativa, os resultados divulgados até o momento ainda não foram publicados em uma revista científica revisada por pares, o que significa que os dados ainda não passaram pela validação independente da comunidade científica.
Para o cirurgião cardiovascular e professor Edmo Atique Gabriel, o estudo representa uma nova tendência da medicina voltada à regeneração de tecidos, assim como ocorreu com a descoberta da polilaminina pela bióloga brasileira Tatiana Sampaio.
“O mundo está dando um avanço na medicina regenerativa e os cientistas estão saindo da zona de conforto para realmente chegar nessas conquistas.”

Segundo o especialista, o hidrogel atua preservando as fibras cardíacas lesionadas e reduzindo a expansão da área afetada pelo infarto, o que pode diminuir o risco de insuficiência cardíaca.
Edmo também considera a pesquisa um avanço importante diante do aumento da incidência de infartos entre pessoas com menos de 50 anos.
Para ele, o melhor cenário seria a incorporação futura dessa e de outras terapias regenerativas ao Sistema Único de Saúde (SUS), ampliando o acesso ao tratamento e reduzindo a mortalidade.
Sobre a possibilidade de a tecnologia chegar rapidamente ao Brasil, o médico acredita que a proximidade entre os países pode facilitar esse processo. “Não tenho dúvidas de que o acesso será muito mais rápido aqui para o Brasil e para os países vizinhos da Argentina.”
Ele também avalia que o projeto pode impulsionar novas pesquisas na área.
“Ela pode ser uma referência para o mundo e também um estímulo para desenvolver pesquisas semelhantes ou até adotar a mesma metodologia que essa colega bióloga está executando.”
Os primeiros ensaios clínicos em humanos estão previstos para ocorrer em 2028. Atualmente, os testes são realizados em ovelhas, escolhidas pela semelhança da anatomia e da fisiologia cardiovascular com a dos seres humanos. Para Edmo, essa etapa é fundamental para garantir a segurança antes da aplicação em pacientes.
Já o cardiologista Ricardo Faria, professor do curso de Medicina da PUC Goiás, afirma que a terapia é promissora, embora tecnologias semelhantes já sejam empregadas em outras áreas da medicina, como a ortopedia.

Segundo ele, o principal potencial da técnica está na capacidade de regenerar parte do músculo cardíaco e recuperar a força de bombeamento do coração, o que poderia reduzir significativamente os casos de insuficiência cardíaca após o infarto, condição que ainda apresenta elevada mortalidade.
Apesar do otimismo, Ricardo defende cautela na interpretação dos resultados e ressalta que a eficácia da terapia ainda precisará ser comprovada nos estudos clínicos.
Além disso, ele destaca que existem importantes barreiras éticas para a realização dos testes em humanos. “Os estudos feitos com a população humana não podem causar prejuízo aos participantes, mas também não podem prometer benefícios que ainda não foram comprovados. Eles precisam ser conduzidos em uma população que está em uma condição delicada, como o período pós-infarto.”
O cardiologista estima que ainda serão necessários de dois a três anos de pesquisas para avaliar a viabilidade clínica da terapia. “Quando fazemos estudos em humanos, passamos pelas fases três e quatro dos ensaios clínicos, que envolvem uma série de critérios éticos justamente para evitar erros em questões tão importantes.”



