Opção cultural
O último romântico
Rodriana Costa
As pálpebras roxas exibiam cores em tons profundos. Impulsos involuntários tremiam as pálpebras sem conseguir erguê-las. Um inchaço protuberante denunciava a brutalidade de punhos cerrados. O maxilar quebrado absorveu o impacto. Agora, imóveis, talvez, fossem um pico de consciência, embora, voltava-se ao limbo.
Em sussurros, uma senhora rezava diante da inércia da filha de feição irreconhecível. A cada dia, se aceitava, um pouco mais, o quase imperceptível ruído dos aparelhos devido à convivência rotineira. Pouco a pouco, o barulho da UTI se misturava ao ambiente, tornando-se quase inaudível aos ouvidos da mulher de olheiras profundas, cabelos oleosos, trajando sempre a mesma roupa. De dedos calosos firmava um terço nas mãos.
Vez ou outra, sentia a culpa. Recorria as memórias. Busca encontrar algum episódio suspeito do genro que explicasse tanta fúria. “Como poderia desconfiar diante de tanto cavalheirismo”.
Enquanto espera um milagre, as lágrimas evidenciam uma fé esmorecida apoiada a chance de 2% de a filha voltar do coma. Seca os olhos, vez ou outra, assoa o nariz.
Um verão na praia. O sol clareava as cadeiras organizadas sobre a areia. Um cenário romântico e sonhado pelo casal, Fausto e Danila. Um verão de tarde crepuscular, em uma cerimônia reservada a poucos convidados. Testemunharam a união do casal que se conhecera a poucos meses. “Amor à primeira vista”, ele dizia, satisfeito a beijar, com delicadeza, a fronte da esposa, que sorria com toda face iluminada.
A casa espaçosa de vidraças exuberantes evidenciava a transparência de seu interior, com um jardim fabuloso, que Fausto tinha como passatempo. Investiu em uma academia completa, anexada à residência. Invejavelmente, foi o maior comentário na família, visto que nenhum membro teria condições financeiras para ostentar tal luxo.

Na família, ele era conhecido pelo seu jeito amigável, gentil, caseiro e dedicado à esposa. Apaixonado, romântico, acompanhava Danila em todos os eventos. Um casal perfeito!
“Minha filha, é preciso deixar seu marido respirar, coitado”, dizia sua mãe ao perceber o comportamento caseiro do genro.
Danila, uma mulher de personalidade forte e decidida, demonstrava estar satisfeita com seu casamento.
As crises de ciúmes, gradativamente, perderam o status de artifício, se evidenciando com mais fervor. O primeiro tapa foi seguido de um arrependimento sem precedentes. Tentou se redimir com uma bolsa de luxo, admirada pela família e alvo de comentários dos cunhados.
“Fausto, desse jeito, você nos coloca em desvantagem. Teremos que vender um rim para presentear as nossas patroas”.
Em momento de desentendimento, as ameaças veladas se diluíam em olhares furiosos, furtivos aos olhos dos outros. A ridicularização fazia-se reservada entre quatro paredes. Medo. Estupros conjugais seguidos de pedidos de desculpas em forma de jantares especiais, presentes caros e buquês de flores.

Um ataque de raiva. Um estrangulamento que a sufocou por alguns minutos. O marido romântico brotava durante uma semana. Tudo perfeito. Cozinhava e levava café na cama com buquê de rosas e cartão com poesia. Entretanto, tal comportamento se repetia se tornando rotineiro. Um bate e assopra. Um chute na barriga, um puxão de cabelo, em momento de nervosismo. Aos poucos, era mais bate do que assopra.
Sorria! Abraçava o marido. Sorria! Devia Sorrir, sempre.
“Você viu o que me fez fazer? Por que você age assim, minha linda?”, dizia como se fosse a vítima da situação.
“Por que eu te amo tanto assim? Perguntava no momento de grande arrependimento. “Por que você é tão linda assim”, dizia em momentos de reconquista. “Às vezes, eu queria que você fosse feia e meu amor mais moderado”.
Em alguns momentos, ela podia contrariá-lo. Ele permitia, desde que de maneira ponderada, o que era medido pelo olhar de repressão suficiente para ela interpretar seus pensamentos.
Com o tempo, não se continha. Dado à violência, espancava Danila em partes do corpo onde podiam ser escondidas: a barriga e as nádegas eram alvos perfeitos. Uma sede insaciável. O amor pelo marido se esfriava, mas ela continuava sorrindo.
A família percebeu certa frieza.
“Danila, tenho que perguntar uma coisa: você está apaixonada por outro?”
Diante da negativa, acreditavam que Fausto amava sozinho a esposa.
“Pobre, Fausto”!
Em uma noite, durante uma festa de aniversário de cunhado, Danila parecia não esconder sua decepção matrimonial. Ignorou os olhares ameaçadores do marido. Furioso, ele a levou pelo braço para um canto escuro e apertou seu rosto como se quisesse destruí-lo. Alguém se aproximou e ele a beijou, enquanto ela o repudiava.
Estava decida a denunciar a agressão sofrida pelo marido durante anos. Adormecida pela culpa e vergonha acordara de um pesadelo. Sob o pretexto de ciúmes, dizia a ela: “mulher minha não sai sem mim”, “mulher minha não veste essa roupa”, “mulher minha não trabalha fora”. Danila se reduzira à propriedade do marido, sem despertar suspeitas.
Sentia um misto de medo e revolta.
Percebendo a intenção da esposa, a questionou na volta para casa. Ela o enfrentou. Então, ele parou o carro e deu o primeiro soco. Incontáveis socos no rosto vieram na sequência. Não poupou as partes descobertas de seu corpo: o rosto era o alvo mais promissor. Com o rosto desfigurando, ele a jogou para fora do carro, em uma marginal movimentada.
Um ruído contínuo sinaliza o fim da vida de Danila. Sua mãe chorava sobre o corpo da filha, amparada por um misto de culpa e raiva.
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No último sábado eu fiz uma aula de jazz depois de 11 anos sem dançar. Já se passou quase uma semana, meu corpo ainda tá doendo, mas eu gostei tanto que transbordei. Eu tinha me esquecido a delícia de fazer alguma coisa só por mim mesma e velho, é bom demais.
Parei de dançar há quase 11 anos. Fui bailarina desde a infância e depois de mais de 20 anos experimentando palcos por aí eu encerrei tudo com um discurso claro demais: vou engravidar e fazer uma pós-graduação. O ano era 2014 e eu dançava em uma companhia que se chamava Das Los.
Nessa última década, fiz a pós. Veio Cecília, Matheus, muito trabalho, uma casa cada vez mais difícil de manter limpa e tantas tarefas. Eu tentei academia tantas vezes. Mudei pra um prédio com academia. Fiz hidroginástica, natação, pilates, musculação, corrida. O diagnóstico: a bailarina não gosta de nada disso.
Minha rotina é tão insana que se eu compartilhar, metade me julga, metade não acredita que é possível. Não cabe, ainda, uma atividade física noturna e não há tempo ao longo do dia pra dançar, muito menos grana, mas eis que surgiram umas meninas com uma ideia maravilhosa. Uma aula por mês, sábado, de manhã. E eu topei.
Dancei no Sesi em 2005, 2006. Nem lembro exatamente, mas foram anos bons demais. E foi essa turma que se reencontrou. Eu dançava em 4 lugares diferentes. Ballet, jazz, contemporâneo e ainda participava do grupo de dança da igreja. O corpo tava no auge, a dança sempre tocou minha alma, eu era boa aluna na escola então ocupar 90% do meu tempo com arte era possível.
No sábado passado, enquanto vestia uma meia calça e um colan da Cecília eu fiquei me perguntando: como eu arrumo a vida pra existir um pouco além da maternidade, da jornalista e da esposa? Não é só uma questão de ter rede de apoio, de ter em casa alguém que divide demandas ou de priorizar a si mesmo. É um misto de tantos sentimentos e prioridades que, infelizmente, a gente muda, nem sempre dá.
Outro dia eu tão cansada pra fazer um almoço, num dia caótico, esquentei o que tinha na geladeira e deixei Cecília e Matheus almoçarem porque eu percebi que a comida não dava pra três. Não dava tempo de fazer, não tinha grana pra comprar pronta, eu só precisava dessas duas crianças de barriga cheia e tomei meu leite, comi um pão e fui revisar meus textos. "Na janta eu capricho", prometi pra mim mesma.
Pra quem não tem um filho parece tão simples dizer pra gente se cuidar, pra gente não esquecer de quem é. Na prática, meu irmão, é outro rolê. O bom é que eu já passei por isso uma vez. A gente sabe que passa, que as coisas aos poucos vão retomando seu lugar. A caipirinha me espera depois da amamentação e os hobbies voltarão a ter espaço.
Aprendi há um tempo que devagar também se chega. Voltei a ouvir músicas altas no carro e agora Matheus aprendeu a dormir enquanto eu grito e não apenas ao som de xote da alegria. A dança vai ocupar um pedacinho de espaço na minha vida de novo. Quero voltar a estudar e ter pelo menos uma hora minha, só minha, por semana. Mas eu não tenho uma pressa maluca, não. Eu sei que daqui a pouco aquele bebê fica mais independente e se tudo correr conforme o planejado, eu não terei outro bebê nunca mais.
A maternidade faz o tempo passar depressa, acelera o relógio, aumenta boleto, leva o cansaço a um patamar antes desconhecido. É a versão que eu mais me orgulho de mim mesma. Mas eu sei que não é (e não pode ser) a única.
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