Opção cultural
Isso foi uma bofetada em meus olhos: o vaso com uma pata-de-elefante com mais de dois metros estava repleto de tocos de cigarro. Uma cena explícita de gente imbecil, cabeça de coité...
O pintor da vida moderna, de Baudelaire, apresenta, poeticamente, uma visão sobre o objeto da arte, sua possível técnica e suas condições de produção
Lisandro define o cinema brasileiro como uma “montanha-russa”, que alterna momentos de grande visibilidade internacional com longos períodos de fragilidade interna
Lista de leituras de Gyovana Carneiro, Beto Silva, Soraya Castro, Marçal Aquino, Nash Chaul e Martha Batalha
Romance narra a história de homens de três gerações de uma mesma família que conviveram com a guerra e a violência em Palermo, capital da Sicilia
O coração só se revela quando se confessa, e a confissão só existe quando se converte. Confessar é voltar-se novamente à Verdade que sustenta a vida. Conversão e confissão formam um movimento de retorno e é nele que o coração se transforma
Hipertenso e diabético, Tobias bebia cachaça... Ele explicou ao médico: “É que eu sou um homem bem relacionado, doutor. Quase todo dia aparece um convite. E a gente num pode recusá, não é mesmo? Num fica bem… eu num quero acabá mal falado”
Uma das maiores poetas globais, a escritora chega aos 90 anos celebrando a vida e a carreira com “O Jardim das Oliveiras”. Não contorna a pedra no meio do caminho — move a pedra e suas engrenagens, com uma escrita refinada e transcendente
Sinto um certo alívio em não me enquadrar em determinados moldes alheios de felicidade, em não me deixar levar por alegrias cheirando a naftalina, daquelas que são guardadas dentro de baú para uso em datas específicas
Dirigido por Kleber Mendonça Filho, longa foi eleito Melhor Filme em Língua Estrangeira e reforça presença do cinema brasileiro na temporada de premiações
Há neste romance muitas solidões caminhando juntas: fragmentos de vidas que batem em ritmos distintos, mas que se reconhecem no silêncio
Ao lado de Dmítri Bóbyshev, Anatôli Náiman e Joseph Brodsky, Evguêni Rein integrou o grupo "Órfãos de Akhmátova". O poeta completou 90 anos
A música de Aluísio Cavalcante, em parceria com Gregory Carvalho, é exemplo da boa qualidade musical que impera no Brasil, mas que poucos conhecem, porque transita fora da mídia tradicional
“Senhor, concedei-me,/ Em troca das fundas/ Angústias profundas/ Que agora me dais,/ Que possa o meu corpo,/ Que a sorte desterra,/ Dormir nesta terra/ Que guarda meus pais”
A democracia representativa vive hoje uma de suas mais profundas ambiguidades: a maioria numérica no Parlamento nem sempre corresponde à maioria política da sociedade. Eleições produzem números; a política, porém, produz sentidos, conflitos e legitimidades. Quando o Parlamento deixa de expressar a pluralidade social e passa a operar como instrumento de interesses concentrados, ocorre um fenômeno inquietante: uma maioria parlamentar transforma-se, substantivamente, em minoria política.
No ambiente acadêmico me dei conta de que essa tensão não é nova. Já estava presente nos clássicos do pensamento político. Tocqueville advertia que a democracia corre risco não apenas pela tirania das maiorias, mas também pela captura das instituições por elites que falam em nome do povo sem representá-lo de fato. Rousseau foi ainda mais radical: a soberania não se delega sem perda; quando o povo se limita a votar e depois se cala, deixa de ser soberano. Marx, por sua vez, denunciou o Parlamento liberal como espaço onde interesses de classe se apresentam sob a máscara da universalidade jurídica.
O problema contemporâneo não é a inexistência de maiorias, mas a dissociação entre número e legitimidade. Parlamentos podem aprovar leis com maioria formal enquanto produzem políticas rejeitadas pela maioria social. A legalidade permanece intacta; a legitimidade, corroída.
No Brasil, esse fenômeno assume contornos dramáticos. O Congresso Nacional, embora eleito pelo voto popular, é profundamente marcado por desigualdades estruturais de representação. Bancadas organizadas por interesses econômicos — financeiro, agrário, armamentista, religioso-midiático — frequentemente pautam a agenda legislativa em detrimento de temas centrais para a maioria da população: desigualdade, racismo estrutural, pobreza, moradia, educação e saúde pública.
A matemática parlamentar, nesses casos, não traduz vontade popular, mas capacidade de organização do poder econômico. Forma-se uma maioria legislativa que governa contra a maioria social. Trata-se de uma maioria procedimentalmente válida, porém politicamente minoritária.
É aqui que o pensamento de Steve Biko oferece contribuição decisiva. Líder da Consciência Negra sul-africana, Biko ensinou que opressão não se sustenta apenas pela força institucional, mas pela colonização da consciência. Para ele, não basta que estruturas sejam formalmente democráticas se continuam a reproduzir hierarquias raciais, econômicas e simbólicas herdadas do colonialismo. Uma ordem política pode se dizer representativa e, ainda assim, operar contra os interesses vitais da maioria oprimida.
Biko alertava que a dominação moderna é sofisticada: ela não precisa negar direitos abertamente; basta esvaziá-los de sentido. O mesmo ocorre no Parlamento. A presença formal de representantes negros, pobres ou periféricos não garante, por si só, ruptura com uma lógica política estruturada para manter privilégios. Sem transformação das condições materiais e simbólicas do poder, a representação torna-se decorativa.
No caso brasileiro, essa contradição se manifesta de modo evidente quando pautas de enfrentamento ao racismo estrutural, às desigualdades regionais ou à concentração de renda são sistematicamente bloqueadas, relativizadas ou adiadas em nome de uma suposta “responsabilidade fiscal” ou “neutralidade institucional”. O Parlamento fala em nome da nação enquanto silencia sobre a experiência concreta da maioria da população.
Os clássicos ajudam a compreender esse paradoxo. Gramsci já havia advertido que o poder moderno se exerce tanto pela coerção quanto pelo consenso. Uma maioria parlamentar pode governar porque construiu hegemonia, não necessariamente porque representa a maioria social. Quando essa hegemonia entra em crise, surge o que ele chamou de interregno: o velho ainda não morreu, o novo ainda não nasceu — e, nesse intervalo, proliferam distorções institucionais.
Reduzir a maioria parlamentar a uma minoria política não significa negar a democracia, mas salvá-la de sua forma vazia. Significa reconhecer que legitimidade não se mede apenas em votos, mas na capacidade de responder às demandas históricas de justiça social, igualdade racial e dignidade humana. Significa admitir que a democracia pode adoecer quando se limita à contabilidade eleitoral e ignora a realidade material da sociedade.
Steve Biko lembrava que “a arma mais poderosa do opressor é a mente do oprimido”. No Parlamento, essa arma se traduz na naturalização de uma política que trata desigualdade como dado técnico, racismo como tema secundário e pobreza como fatalidade econômica. Romper essa lógica exige mais do que reformas regimentais: exige consciência política, no sentido profundo que Biko atribuía ao termo.
O desafio brasileiro, portanto, não é apenas produzir maiorias legislativas, mas reconectar número e sentido, voto e vida concreta, legalidade e justiça. Enquanto a maioria parlamentar continuar legislando como minoria política — surda às vozes periféricas, negras e populares —, a democracia seguirá formalmente intacta e substantivamente incompleta.
E a história ensina: democracias que ignoram suas maiorias reais não costumam cair de uma vez. Elas se esvaziam, lentamente, até que o silêncio substitua o debate e a apatia ocupe o lugar da participação. O Parlamento permanece de pé; a política, não.

