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SAUDADES
Luiz Augusto Paranhos Sampaio: o senador das letras, cronista e arquiteto da memória goiana

A Sessão Magna da Saudade na Academia Goiana de Letras-AGL, ocorrida no dia 26 de novembro de 2025, marcou a solene despedida ao confrade Luiz Augusto Paranhos Sampaio. O ponto alto do evento se deu no simbólico traslado de sua fotografia para a Galeria da Saudade, quando o escritor ingressa no panteão da imortalidade por sua contribuição literária. Toda a esfera intelectual goiana sente a partida deste ilustre ocupante da Cadeira n.º 16, quando o ciclo se encerra para que o seu legado, performado em memória viva, floresça na eternidade acadêmica.

Sua existência terrena foi a materialização de um notável entrelace entre a erudição clássica e a intensa vita activa cívica, deixando um legado indelével para a cultura, o direito e a história de Goiás. Luiz Augusto Sampaio personificava uma linhagem de intelectuais raros, capazes de exercer o poder e o serviço público com a mesma elegância e rigor dedicados à escrita e à pesquisa. O adeus a este Senhor das Letras em Goiânia foi marcado por um momento que refletiu a distinção que cultivou em vida. Seu corpo bem posto, alinhado em um ataúde distinto, foi conduzido ao sepulcro no tradicional Cemitério das Palmeiras, em Goiânia, sob o peso do luto e do respeito de uma assembleia, chegou à cerimônia final de despedida carregada de emoção e reverência, reunidos não apenas seus confrades da Academia Goiana de Letras, mas também uma família que lhe era cara, incluindo seus dois filhos adotivos — um deles um Juiz Federal aposentado em Brasília — e, comoventemente, netos e netas, testemunhas do legado afetivo que transcendia o serviço público e a literatura, revelando um homem de profundas conexões pessoais.

A trajetória de Sampaio é a de um verdadeiro polímata, sustentada por uma formação acadêmica robusta e singularmente dupla. Ele se graduou em Letras Neolatinas pela Faculdade de Filosofia da Universidade Católica de Goiás em 1959, e em Direito em 1960. Esta base, que unia o rigor das humanidades — o domínio da expressão, a análise da linguagem e o conhecimento das culturas clássicas e modernas — à precisão técnica e ética da ciência jurídica, pavimentou sua carreira multifacetada, permitindo-lhe transitar entre o gabinete do jurista, o púlpito do professor e a cadeira do escritor com uma autoridade inquestionável e uma visão de mundo abrangente.

No magistério, Luiz Augusto Sampaio exerceu uma influência duradoura, sendo professor em colégios e faculdades goianas. Sua capacidade de formar e inspirar líderes se traduziu diretamente em sua bem-sucedida incursão na esfera pública. Sua projeção cívica começou cedo e em alta voltagem: filiado ao Partido Democrata Cristão (PDC), elegeu-se o vereador mais votado de Goiânia em 1962 (com 1.114 votos), um feito notável que indicava sua popularidade e o reconhecimento de sua inteligência pela população. Sua liderança foi rapidamente confirmada com sua eleição para a Presidência do Legislativo Municipal em 1965. Além disso, presidiu o Diretório Regional do PDC, demonstrando uma forte e precoce liderança política.

O ápice de sua carreira na advocacia pública foi a nomeação para o cargo de Procurador-Geral da União, um posto de máxima relevância institucional que atestou o reconhecimento nacional de sua integridade, seu saber jurídico e sua inatacável capacidade técnica. Sua passagem pela União, onde também atuou como amigo próximo de figuras proeminentes, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, sublinhou a amplitude de seu raio de influência para além das fronteiras de Goiás. Na Academia Goiana de Letras, onde tomou posse em 17 de novembro de 2005, ocupando a Cadeira n.º 16 (cujo patrono foi Henrique Silva, um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, e o primeiro ocupante, Gercino Monteiro), manteve-se uma figura central e influente até o fim, contribuindo ativamente para a vida cultural da instituição. Seu discurso de posse foi intitulado "Profissão de Fé. Confissão de Amizade", demonstrando seu profundo vínculo afetivo com a confraria.

Sua intensa atividade como jurista, político e escritor mereceu várias honrarias, sendo acolhido em várias instituições, como a Associação Goiana de Imprensa, União Brasileira dos Advogados de Goiás, Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, Academia Goiana de Direito e Academia Catalana de Letras. Entre as distinções, destacam-se a Medalha do Pacificador, a Medalha Amigo da Marinha, a Medalha de Mérito Tamandaré, o Colar do Mérito Judiciário do Trabalho, o Grau de Comendador (do TSE) e a Ordem do Mérito Aeronáutico. Sua veia crítica era notável; armava-se em sátira para dissecar os costumes, levando a uma visão pedagógica que buscava corrigir e castigar rindo as aberrações.

Em 2024, o Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG) e o Instituto Cultural Bernardo Élis Para os Povos do Cerrado (ICEBE) prestaram-lhe uma homenagem no auditório da Casa Rosada do IHGG sessão concorrida e memorável. O presidente do ICEBE, Dr Nilson Jaime, preparou um belíssimo vídeo e organizou uma exposição dedicada à Vida e à Obra de Luiz Sampaio, sob a direção do Dr Jales Guedes Mendonça, destacando a vastidão e a importância de sua contribuição intelectual.

A vasta produção literária de Luiz Sampaio, com mais de trinta títulos, é um repositório da memória e da cultura goiana, marcada por sua versatilidade e rigor. Dentre suas obras, “Café Central” (1964) emerge como um trabalho de importância seminal, aclamado como o primeiro livro de crônicas sobre Goiânia e o marco de fundação de um gênero voltado à observação da nascente identidade urbana da capital. Como cronista, Luiz utilizou o cinzel da sua pena para fornecer o primeiro grande espelho literário à cidade, capturando o Zeitgeist da Goiânia dos anos 60. Em outras obras do gênero, como "Crônicas Maliciosas" (1999), ele demonstrou seu talento com um exercício de humor picaresco e "exploração maliciosa" de situações, possuindo uma "grande agilidade de linguagem".

Se a sua obra Café Central marcou o lirismo da crônica urbana, o livro “Primeira Lista de Assinantes de Telefones de Goiânia, 1943” (2016) demonstrou o rigor metodológico de Luiz Augusto Paranhos Sampaio como historiador e sociólogo da memória. Este livro utiliza a lista telefônica inaugural (360 nomes) como chave para decifrar a estrutura de poder e a elite social da Goiânia inicial, sendo um minucioso documentário sociológico que resultou no resgate de cerca de 200 biografias e 78 relatos sobre estabelecimentos comerciais. O trabalho confirmou o compromisso inegociável de Sampaio com a preservação da memória goiana através da fonte primária.

Outros trabalhos subsequentes, como "O escravismo" nas páginas da "Matutina Meiapontense" (2023) e o livro póstumo "Primeiras-Damas – De Mariana da Fonseca a Rosângela Lula da Silva" (2024), reafirmam essa vocação para a exegese histórica rigorosa e a divulgação de fontes primárias, solidificando seu papel como um dos grandes arquitetos da historiografia goiana contemporânea. Sua produção jurídica também é notável, destacando-se "Comentários à Nova Constituição Brasileira" e obras como "Processo Administrativo" e o "Estatuto do Idoso".

Sampaio era indissociável de sua distinção e de seu rigor, qualidades que lhe conferiam a aura de um gentleman. Ele cultivava uma dignidade e uma impecabilidade raras, mantendo a serenidade (a fleuma) mesmo diante das limitações da idade e da fragilidade física. O modo alegre, embora discreto, e a fleuma descritas em rede social pelo confrade Iuri Godinho eram a marca de um homem que transformava a própria presença em um evento de gravidade e importância. Sua partida encerra o ciclo de um mestre cuja memória de inteligência, serviço cívico e dedicação à Academia e à família permanecerá como um farol para as futuras gerações de intelectuais goianos. Sua contribuição transcende a soma de seus cargos e obras; reside na maneira como dignificou cada papel que exerceu, deixando um modelo de excelência e rigor para o estado de Goiás e para o Brasil.

Todavia, ele apenas terminou o capítulo de uma série de existências, porquanto a vida não cessa… A vida é fonte eterna e a morte é o jogo escuro da ilusão, como escreve André Luiz:

“Uma existência é um ato,
Um século / um dia
Um corpo - uma veste
Um serviço - uma experiência
Um triunfo - uma aquisição
uma morte - um sopro renovador!”

O nosso imortal foi para onde os bons desfrutam do sublime espetáculo do infinito.

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CULTURA
“O Avesso da Pele”, de Jeferson Tenório: o avesso de uma nação — breve ensaio

No encontro do “Clube do Livro da UBE”, de 27 de novembro de 2025, sob a direção do Presidente, professor Ademir Luiz, a discussão de O Avesso da Pele demonstrará o quanto esse romance continua atual e necessário. Na qualidade de articulista e como pesquisador que estudou a obra no âmbito da disciplina Direito e Linguagem no IDP — elaboramos uma resenha crítica à guisa de leitura complementar — sinto-me compelido a oferecer uma análise mais densa: não apenas da narrativa, mas das tensões entre literatura, memória, racismo estrutural e o papel formativo da linguagem.

Publicado em 2020 e laureado com o Prêmio Jabuti de 2021, O Avesso da Pele narra a trajetória de uma família negra em Porto Alegre, pelo olhar de Pedro — narrador e filho de Henrique (professor) — que tenta reconstruir a vida do pai após seu assassinato numa abordagem policial. A narrativa se faz por meio de memórias, lacunas, objetos, relatos de conviventes — ao mesmo tempo que atravessa o luto, a negritude, as fraturas existenciais e os traumas que marcam não apenas uma pessoa, mas uma herança para gerações. A narrativa é estruturada de modo inusitado e potente: a voz narrativa, muitas vezes em segunda pessoa, convoca o leitor a habitar o lugar do pai — Henrique — ou a mergulhar no avesso da pele, essa parte invisível da identidade, atravessada pela história e pelo preconceito.

Embora o luto e a relação familiar — pai/filho — sejam eixos centrais, o livro denuncia com clareza a persistência do racismo estrutural no Brasil contemporâneo. A desconfiança às pessoas negras, o medo da autoridade policial, a objetificação dos corpos negros — todos esses elementos permeiam a trama como aspectos cotidianos da negritude. A figura de Henrique, professor de escola pública, também denuncia o colapso do sistema educacional e a dureza de ensinar em espaços marcados pela desigualdade, pobreza, racismo e descaso institucional. Mais do que expor o sofrimento, Tenório (via Pedro) aponta a literatura, a memória e o afeto como ferramentas de resistência. A reconstrução da trajetória paterna é também um esforço de ressignificar a negritude — não apenas como marca de dor, mas como herança identitária e de ancestralidade.

A força de O Avesso da Pele não está apenas no que é narrado, mas em como: há momentos em que o autor confere à linguagem uma dimensão poética, intensa, capaz de traduzir o trauma, o sentimento de perda, a busca por presença e a dor existencial. Por exemplo: “Às vezes você fazia um pensamento e morava nele. Afastava-se. … Construía uma casa assim. Longínqua. Dentro de si. Era esse o seu modo de lidar com as coisas. Hoje, prefiro pensar que você partiu para regressar a mim. Eu não queria apenas a sua ausência como legado. Eu queria um tipo de presença, ainda que dolorida e triste. E apesar de tudo, nesta casa, neste apartamento, você será sempre um corpo que não vai parar de morrer. Será sempre o pai que se recusa a partir.” Esse fragmento revela a ambivalência entre ausência e presença, perda e memória, dor e redenção — elementos que fazem da obra muito mais do que denúncia: fazem dela um lamento e uma esperança coletiva.

Na resenha, agora articulada, percebi que a escolha narrativa — fragmentada, carregada de memórias, lacunas, silêncio — é uma estratégia estética coerente com a temática: reconstruir o pai é também reconstruir uma identidade marcada por silêncios, apagamentos e violência. A linguagem poética e disforme dialoga com as fissuras da história. Além disso, a obra revela o risco de reduzir sujeitos negros a estereótipos, violência, criminalidade — algo que a sociedade frequentemente naturaliza, mas que a literatura de Tenório escancara em sua brutalidade e persistência. Por outro lado, a aposta na afetividade — na memória, no amor, no luto — não cai numa sentimentalidade vazia: ela articula uma crítica social que pede não só empatia individual, mas transformações estruturais — na educação, na memória nacional, na consciência racial.

Desde sua publicação, O Avesso da Pele alcançou destaque: além do Prêmio Jabuti, foi finalista de premiações importantes. Contudo, a obra foi alvo de controvérsias: em 2024, entrou na mira de setores conservadores que alegaram haver “linguagem inadequada” e cenas sexualizadas — o que levou, em alguns estados, à retirada do livro do ambiente escolar. Esse episódio revela que o incômodo provocado não está na suposta “vulgaridade” da linguagem ou da sexualidade, mas no desconforto que a literatura causa ao expor a violência racial, estrutural — aquilo que muitos prefeririam manter invisível. Como observa o autor: “é curioso como palavras de baixo calão e atos sexuais causam mais incômodo do que o racismo, a violência policial e a morte de pessoas negras.”

Reconhece-se em O Avesso da Pele um instrumento poderoso de reflexão sobre a negritude, a violência institucional e a memória histórica brasileira. A obra é um apelo humano, um convite à empatia, um alerta. Para o campo jurídico e social, o romance põe em cena a urgência da visibilidade: das vítimas, das suas histórias, dos corpos e das memórias que o Estado — direta ou indireta — tem apagado. No contexto de debates sobre violência policial, racismo estrutural e direitos humanos, o livro funciona como um documento literário e moral. Para a linguagem, a obra demonstra que o português — essa língua nacional marcada por heranças coloniais — pode se tornar veículo de reparação simbólica, de denúncia, de memória. A segunda pessoa do narrador, a fragmentação temporal e o luto expressado em linguagem intensa e poética tornam a leitura um ato de reconstrução identitária. Para a memória social, o romance contribui para desfazer o mito da “democracia racial” e expõe a persistência das feridas abertas no corpo da nação — feridas que muitas vezes se chamam “cor da pele”.

Em um Brasil que constantemente tenta apagar ou minimizar a dor de sua população negra — seja por meio da negação, seja por omissão institucional — O Avesso da Pele surge como um grito literário: dolorido, urgente, necessário. A obra não é mero exercício ficcional ou memorialismo íntimo. Ela é um testemunho, um legado e uma convocação. Para lembrar, para sentir, para resistir. Para fazer com que o “avesso” deixe de ser escondido — e se torne visível, reconhecido, reconhecível. Talvez essa seja a mais profunda função da literatura: dar voz aos silenciados; transformar feridas em memória coletiva; e, sobretudo, nos obrigar a encarar o avesso da pele — e, com ele, o avesso da história.

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