Opção cultural

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Gente que pensa que parque é quintal sem dono

Isso foi uma bofetada em meus olhos: o vaso com uma pata-de-elefante com mais de dois metros estava repleto de tocos de cigarro. Uma cena explícita de gente imbecil, cabeça de coité...

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O lirismo de Mário Quintana

O pintor da vida moderna, de Baudelaire, apresenta, poeticamente, uma visão sobre o objeto da arte, sua possível técnica e suas condições de produção

maior parte das propostas, com 11 menções, refere-se e a instituições de ensino e visam estabelecer a obrigatoriedade do estudo da Bíblia na grade curricular escolar (98)
Globo de Ouro expõe força e fragilidade do cinema brasileiro, avalia professor da UFG

Lisandro define o cinema brasileiro como uma “montanha-russa”, que alterna momentos de grande visibilidade internacional com longos períodos de fragilidade interna

Ana Maria Gonçalves e Jeanne de Castro e Arundhatu Roy e André de Leones
Agenda de leituras para 2026 de escritores, intelectuais e jornalistas (Parte 1)

Lista de leituras de Gyovana Carneiro, Beto Silva, Soraya Castro, Marçal Aquino, Nash Chaul e Martha Batalha

Davide Enia fotos Jornal Opção e Facebook 1
Assim na Terra, romance do italiano Davide Enia, trata o boxe com delicadeza e lirismo

Romance narra a história de homens de três gerações de uma mesma família que conviveram com a guerra e a violência em Palermo, capital da Sicilia

Santo Agostinho Confissões três fotos
C de Confessar; confessar não é contar histórias

O coração só se revela quando se confessa, e a confissão só existe quando se converte. Confessar é voltar-se novamente à Verdade que sustenta a vida. Conversão e confissão formam um movimento de retorno e é nele que o coração se transforma

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Aniversários, casamentos e batizados… as razões de Tobias para beber cachaça

Hipertenso e diabético, Tobias bebia cachaça... Ele explicou ao médico: “É que eu sou um homem bem relacionado, doutor. Quase todo dia aparece um convite. E a gente num pode recusá, não é mesmo? Num fica bem… eu num quero acabá mal falado”

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A borboleta pousada é Deus no jardim da poesia de Adélia Prado

Uma das maiores poetas globais, a escritora chega aos 90 anos celebrando a vida e a carreira com “O Jardim das Oliveiras”. Não contorna a pedra no meio do caminho — move a pedra e suas engrenagens, com uma escrita refinada e transcendente

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Ideias velhas à espera do ano novo

Sinto um certo alívio em não me enquadrar em determinados moldes alheios de felicidade, em não me deixar levar por alegrias cheirando a naftalina, daquelas que são guardadas dentro de baú para uso em datas específicas

Filme brasileiro “O Agente Secreto” vence prêmio internacional no Critics Choice 2026

Dirigido por Kleber Mendonça Filho, longa foi eleito Melhor Filme em Língua Estrangeira e reforça presença do cinema brasileiro na temporada de premiações

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Mil Corações Solitários, de Hugo Almeida, não é uma metáfora exagerada, mas um diagnóstico sensível

Há neste romance muitas solidões caminhando juntas: fragmentos de vidas que batem em ritmos distintos, mas que se reconhecem no silêncio

Evguêni Rein poeta russo foto Reprodução
Um poema de Evguêni Rein, um dos mestres literários do Nobel Joseph Brodsky

Ao lado de Dmítri Bóbyshev, Anatôli Náiman e Joseph Brodsky, Evguêni Rein integrou o grupo "Órfãos de Akhmátova". O poeta completou 90 anos

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Nos quarteis da ilusão, de Aluísio Cavalcante: nunca se sabe o passado que nos espera

A música de Aluísio Cavalcante, em parceria com Gregory Carvalho, é exemplo da boa qualidade musical que impera no Brasil, mas que poucos conhecem, porque transita fora da mídia tradicional

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O cemitério de São Miguel… na Cidade de Goiás

“Senhor, concedei-me,/ Em troca das fundas/ Angústias profundas/ Que agora me dais,/ Que possa o meu corpo,/ Que a sorte desterra,/ Dormir nesta terra/ Que guarda meus pais”

DESIGUALDADES
Reduzir a maioria parlamentar a uma minoria política

A democracia representativa vive hoje uma de suas mais profundas ambiguidades: a maioria numérica no Parlamento nem sempre corresponde à maioria política da sociedade. Eleições produzem números; a política, porém, produz sentidos, conflitos e legitimidades. Quando o Parlamento deixa de expressar a pluralidade social e passa a operar como instrumento de interesses concentrados, ocorre um fenômeno inquietante: uma maioria parlamentar transforma-se, substantivamente, em minoria política.

No ambiente acadêmico me dei conta de que essa tensão não é nova. Já estava presente nos clássicos do pensamento político. Tocqueville advertia que a democracia corre risco não apenas pela tirania das maiorias, mas também pela captura das instituições por elites que falam em nome do povo sem representá-lo de fato. Rousseau foi ainda mais radical: a soberania não se delega sem perda; quando o povo se limita a votar e depois se cala, deixa de ser soberano. Marx, por sua vez, denunciou o Parlamento liberal como espaço onde interesses de classe se apresentam sob a máscara da universalidade jurídica.

O problema contemporâneo não é a inexistência de maiorias, mas a dissociação entre número e legitimidade. Parlamentos podem aprovar leis com maioria formal enquanto produzem políticas rejeitadas pela maioria social. A legalidade permanece intacta; a legitimidade, corroída.

No Brasil, esse fenômeno assume contornos dramáticos. O Congresso Nacional, embora eleito pelo voto popular, é profundamente marcado por desigualdades estruturais de representação. Bancadas organizadas por interesses econômicos — financeiro, agrário, armamentista, religioso-midiático — frequentemente pautam a agenda legislativa em detrimento de temas centrais para a maioria da população: desigualdade, racismo estrutural, pobreza, moradia, educação e saúde pública.

A matemática parlamentar, nesses casos, não traduz vontade popular, mas capacidade de organização do poder econômico. Forma-se uma maioria legislativa que governa contra a maioria social. Trata-se de uma maioria procedimentalmente válida, porém politicamente minoritária.

É aqui que o pensamento de Steve Biko oferece contribuição decisiva. Líder da Consciência Negra sul-africana, Biko ensinou que opressão não se sustenta apenas pela força institucional, mas pela colonização da consciência. Para ele, não basta que estruturas sejam formalmente democráticas se continuam a reproduzir hierarquias raciais, econômicas e simbólicas herdadas do colonialismo. Uma ordem política pode se dizer representativa e, ainda assim, operar contra os interesses vitais da maioria oprimida.

Biko alertava que a dominação moderna é sofisticada: ela não precisa negar direitos abertamente; basta esvaziá-los de sentido. O mesmo ocorre no Parlamento. A presença formal de representantes negros, pobres ou periféricos não garante, por si só, ruptura com uma lógica política estruturada para manter privilégios. Sem transformação das condições materiais e simbólicas do poder, a representação torna-se decorativa.

No caso brasileiro, essa contradição se manifesta de modo evidente quando pautas de enfrentamento ao racismo estrutural, às desigualdades regionais ou à concentração de renda são sistematicamente bloqueadas, relativizadas ou adiadas em nome de uma suposta “responsabilidade fiscal” ou “neutralidade institucional”. O Parlamento fala em nome da nação enquanto silencia sobre a experiência concreta da maioria da população.

Os clássicos ajudam a compreender esse paradoxo. Gramsci já havia advertido que o poder moderno se exerce tanto pela coerção quanto pelo consenso. Uma maioria parlamentar pode governar porque construiu hegemonia, não necessariamente porque representa a maioria social. Quando essa hegemonia entra em crise, surge o que ele chamou de interregno: o velho ainda não morreu, o novo ainda não nasceu — e, nesse intervalo, proliferam distorções institucionais.

Reduzir a maioria parlamentar a uma minoria política não significa negar a democracia, mas salvá-la de sua forma vazia. Significa reconhecer que legitimidade não se mede apenas em votos, mas na capacidade de responder às demandas históricas de justiça social, igualdade racial e dignidade humana. Significa admitir que a democracia pode adoecer quando se limita à contabilidade eleitoral e ignora a realidade material da sociedade.

Steve Biko lembrava que “a arma mais poderosa do opressor é a mente do oprimido”. No Parlamento, essa arma se traduz na naturalização de uma política que trata desigualdade como dado técnico, racismo como tema secundário e pobreza como fatalidade econômica. Romper essa lógica exige mais do que reformas regimentais: exige consciência política, no sentido profundo que Biko atribuía ao termo.

O desafio brasileiro, portanto, não é apenas produzir maiorias legislativas, mas reconectar número e sentido, voto e vida concreta, legalidade e justiça. Enquanto a maioria parlamentar continuar legislando como minoria política — surda às vozes periféricas, negras e populares —, a democracia seguirá formalmente intacta e substantivamente incompleta.

E a história ensina: democracias que ignoram suas maiorias reais não costumam cair de uma vez. Elas se esvaziam, lentamente, até que o silêncio substitua o debate e a apatia ocupe o lugar da participação. O Parlamento permanece de pé; a política, não.