Opção cultural
No último sábado eu fiz uma aula de jazz depois de 11 anos sem dançar. Já se passou quase uma semana, meu corpo ainda tá doendo, mas eu gostei tanto que transbordei. Eu tinha me esquecido a delícia de fazer alguma coisa só por mim mesma e velho, é bom demais.
Parei de dançar há quase 11 anos. Fui bailarina desde a infância e depois de mais de 20 anos experimentando palcos por aí eu encerrei tudo com um discurso claro demais: vou engravidar e fazer uma pós-graduação. O ano era 2014 e eu dançava em uma companhia que se chamava Das Los.
Nessa última década, fiz a pós. Veio Cecília, Matheus, muito trabalho, uma casa cada vez mais difícil de manter limpa e tantas tarefas. Eu tentei academia tantas vezes. Mudei pra um prédio com academia. Fiz hidroginástica, natação, pilates, musculação, corrida. O diagnóstico: a bailarina não gosta de nada disso.
Minha rotina é tão insana que se eu compartilhar, metade me julga, metade não acredita que é possível. Não cabe, ainda, uma atividade física noturna e não há tempo ao longo do dia pra dançar, muito menos grana, mas eis que surgiram umas meninas com uma ideia maravilhosa. Uma aula por mês, sábado, de manhã. E eu topei.
Dancei no Sesi em 2005, 2006. Nem lembro exatamente, mas foram anos bons demais. E foi essa turma que se reencontrou. Eu dançava em 4 lugares diferentes. Ballet, jazz, contemporâneo e ainda participava do grupo de dança da igreja. O corpo tava no auge, a dança sempre tocou minha alma, eu era boa aluna na escola então ocupar 90% do meu tempo com arte era possível.
No sábado passado, enquanto vestia uma meia calça e um colan da Cecília eu fiquei me perguntando: como eu arrumo a vida pra existir um pouco além da maternidade, da jornalista e da esposa? Não é só uma questão de ter rede de apoio, de ter em casa alguém que divide demandas ou de priorizar a si mesmo. É um misto de tantos sentimentos e prioridades que, infelizmente, a gente muda, nem sempre dá.
Outro dia eu tão cansada pra fazer um almoço, num dia caótico, esquentei o que tinha na geladeira e deixei Cecília e Matheus almoçarem porque eu percebi que a comida não dava pra três. Não dava tempo de fazer, não tinha grana pra comprar pronta, eu só precisava dessas duas crianças de barriga cheia e tomei meu leite, comi um pão e fui revisar meus textos. "Na janta eu capricho", prometi pra mim mesma.
Pra quem não tem um filho parece tão simples dizer pra gente se cuidar, pra gente não esquecer de quem é. Na prática, meu irmão, é outro rolê. O bom é que eu já passei por isso uma vez. A gente sabe que passa, que as coisas aos poucos vão retomando seu lugar. A caipirinha me espera depois da amamentação e os hobbies voltarão a ter espaço.
Aprendi há um tempo que devagar também se chega. Voltei a ouvir músicas altas no carro e agora Matheus aprendeu a dormir enquanto eu grito e não apenas ao som de xote da alegria. A dança vai ocupar um pedacinho de espaço na minha vida de novo. Quero voltar a estudar e ter pelo menos uma hora minha, só minha, por semana. Mas eu não tenho uma pressa maluca, não. Eu sei que daqui a pouco aquele bebê fica mais independente e se tudo correr conforme o planejado, eu não terei outro bebê nunca mais.
A maternidade faz o tempo passar depressa, acelera o relógio, aumenta boleto, leva o cansaço a um patamar antes desconhecido. É a versão que eu mais me orgulho de mim mesma. Mas eu sei que não é (e não pode ser) a única.
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