Há muito o Brasil, como boa parte das democracias liberais, está polarizado pelo avanço de uma direita mais extremada. O bolsonarismo deixou de ser um fenômeno eleitoral para se tornar um movimento político que pressiona o posicionamento mais radical de quem tem mandato e outrora já foi (ou teria sido) mais moderado.

Esse processo tem contaminado a discussão de várias pautas que, em tese, seriam neutras para a oposição (como a reforma ministerial do governo Lula) ou até mesmo apoiadas por seus membros caso fossem da situação, como é a questão da reforma tributária.

A bola da vez na polêmica é a votação da taxação de grandes fortunas – algo que afeta, em termos de cobrança de tributos, apenas milionários e bilionários –, aprovada pela Câmara dos Deputados com larga margem pró-governo, após a “coincidência” da demissão de Rita Serrano da presidência da Caixa Econômica Federal para abrir mais um espaço de acomodação para os aliados de Arthur Lira (pP-AL), presidente da Câmara e “capo” do Centrão.

Essa foi mais uma votação em que alguns deputados de Goiás, como Zacharias Calil (UB), Gustavo Gayer e Professor Alcides, se mantiveram firmes em suas convicções antigoverno. No coração de cada um deles, parece haver um sentimento (ou ressentimento?) que reelabora o velho preceito anarquista: “Se hay gobierno do Lula, soy contra”, não importa a matéria.

No caso da taxação dos super-ricos, ao trio se juntou o novato Márcio Corrêa (MDB), que se declara bolsonarista e que assumiu a vaga de Célio Silveira, licenciado por questão de saúde. Os quatro votos contrário, nesse caso, não pegaram bem nem mesmo entre os eleitores de direita, cuja parcela eles querem agradar.

É que a reação nas redes sociais diante da divulgação dos votos não foi positiva. Um internauta disse num comentário: “[Zacharias] Calil me parece uma pessoa tão sensata, que decepção”. Outros lamentaram que os parlamentares “votassem em favor de si mesmos” (embora não se possa dizer que os políticos goianos entrem nessa conta (talvez um ou outro, por conta de empresas que possua). É preciso ressaltar que grande parte dos que protestaram não era esquerdista.

O fato é que o eleitor médio é altamente tributado e vê a taxação de quem possui grandes fortunas como uma forma de justiça. A questão é que vários dos parlamentares de Goiás em Brasília pretendem se envolver diretamente em campanhas nas eleições majoritárias do próximo ano. Se seus opositores souberem explorar esse voto mais ideológico do que técnico e a turma do andar de baixo cobrar explicações, o efeito na popularidade pode ser muito negativo em um momento que começa a contagem regressiva para a volta às urnas. (E.D.)