Valério Luiz, meu pai, e o tempo atacante

Artigo escrito em homenagem ao jornalista Valério Luiz de Oliveira, assassinado há quatro anos

| Foto: Reprodução

Valério Luiz de Oliveira: assassinado há quatro anos | Foto: Reprodução

Valério Luiz de Oliveira Filho

“Você torce pro Goiás, não torce?”, perguntou meu pai, todo empolgado, com uns adesivos alviverdes na mão. Entrara de repente na sala, vindo de uma reportagem, onde provavelmente ganhara os brindes. Engraçada a aleatoriedade das coisas. Aos 6, 7 anos de idade, eu nunca havia pensado a respeito, mas, tirando os olhos da TV e me deparando com aquela empolgação, temi desapontar. Respondi “sim” e subi na cama pra adesivar os vidros manchados da janela, mesmo sob os protestos da minha irmã Laura, que desafortunadamente dividia o quarto comigo.

Valério Luiz foto da família 2

Era legal demais ir ao Serra, apesar do meu pai precisar chegar três horas antes, pra jornada de transmissão da rádio, e eu ficar lá, perambulando pelas cabines, esperando a hora do jogo. Nos clássicos entre Goiás e Vila, estádio lotado, a família se dividia: Andrezinho, Manuella e eu vestíamos a camisa do Verdão; Yuri, Luiz Cláudio e os outros primos, além da Laura, usavam a do Tigre. Mais que pelos gols, vibrávamos com os vendedores de sanduíche e refrigerante. A mesma vibração não devia compartilhar meu avô Mané, que sempre comprava pra todos.

Quem chama o futebol de alienante não entende o lado lúdico da vida, a poesia ao mesmo tempo plástica e épica do momento em que o time entra em campo e a torcida ergue a bandeira, sagrada insígnia de causa nenhuma. Lembro da imponência daquela camisa branca gigante do Vila, e de como meus primos colorados, sentindo-se os reis do Universo, zombavam de mim enquanto ela era estendida. Finalmente soa o apito, meu pai manda ver da cabine e o ano é 1999, o mais emocionante da história futebolística mundial segundo os arquivos da minha memória infantil.

Valério Luiz foto da família 5

A temível escalação do Goiás conta com Sílvio Criciúma, Marquinhos, Josué, Alex, Aluísio, Araújo e Fernandão, praticamente uma seleção de 70 em verde sem amarelo. Mas o Vila tem Harley, baixinho que cata como um gato, Sabino e o perigoso Anderson. Ainda no começo do segundo tempo, massacre: três a zero pro verde. A grandiosa bandeira alvirrubra agora está pequenininha, recolhida num canto da arquibancada, e os primos, destronados. A vitória certa se aproxima, até o perigoso Anderson, fazendo jus ao epíteto, marcar dois gols e a colocar em perigo.
Valério Luiz foto da família

Aos 23 minutos, escanteio malsucedido na área esmeraldina e a bola recuada cai no meio-campo com um zagueiro do Vila, Leonardo. Jogada comum, os narradores aproveitam pra soltar os merchans, estou distraído. De repente, o estádio silencia ao presenciar, incrédulo, o que não acontece acontecer*. Lá da intermediária mesmo o “beque” dispara um chutão e a pelota, viajando vagarosamente rumo aos anais do Serra, encobre nossas certezas, nossos protestos, nosso goleiro. Luizão e Luciano também marcam, sacramentando os cinco a três, números praticamente cabalísticos para os vilanovenses desde então.

Valério Luiz foto da família 4

Meses após tamanha tragédia, já no Campeonato Brasileiro da Série B, humildemente retornei ao templo do futebol goiano. Os deuses, compadecidos pela minha devoção, recompensariam. No intervalo do jogo, admito, a fé fraquejava: dois a zero pro Bahia, do artilheiro Uéslei. Apita o juiz e começa o segundo tempo. Dill faz um logo de cara, o Verdão pressiona. Araújo recebe passe do meia Túlio e tenta se meter entre dois pra alcançar a área. Não sendo transparente, é desarmado e a bola sobra ali na esquerda com Marquinhos, canhoto bom de lançamento.

Valério Luiz e sua filha Laura

Fernandão, um pouco à frente da meia-lua, pula e mata no peito a enfiada certeira. A redonda sobe, para lá em cima, o estádio inteiro pressente a intenção. Num átimo todos os olhos estão absortos, arregalados, silenciosamente perguntando se é possível, se ele vai conseguir. O movimento vem amplo, nobre, quase em câmera lenta. O gramado vira um tapete, e vermelho, sim, mas em respeito ao verde da camisa, à realeza desse improvável golaço. Uma bicicleta perfeita, e na gaveta. Quantos presenciaram algo assim além de nós, testemunhas oculares do milagre?

Valério Luiz foto da família 7

Terminada em quatro a quatro, a partida teve gol olímpico, de voleio, de falta. Voltei empolgado, comentando com meu pai, que fazia comparações técnicas entre os principais lances e os jogos do filho nos campeonatos da escolinha Futebol Arte, onde frequentei por anos. Nunca fui craque. Vivi meus momentos, contudo. Na opinião familiar e nem por isso menos incisiva do cronista e zagueiro armador nato Valério Luiz (talentoso nas duas áreas, chegou a jogar no Atlético), meu defeito era ficar olhando pra bola, de cabeça baixa, sem visão de jogo. “Inteligência espacial”, recomendava.

Valério Luiz foto da família 6

Minha única habilidade, na real, era ser rápido. Um toque na frente e ninguém me alcançava. Libertadora a sensação de deixar os adversários pra trás. Não por acaso meus pés mexiam na cadeira quando Araújo chutava comprido rente à lateral esquerda, além de dois, três, e os ultrapassava feito um raio acompanhado apenas pelo trovão despencando da nuvem torcedora. Sonho um dia gritarem seu nome, meu pai, homenageando as tardes felizes e inocentes enterradas em algum lugar naquele gramado aonde eu descia contigo pra brincar com os fios dos microfones.

A massa sonora consubstanciaria sua presença paterna e, junto a minhas irmãs, a sentiria, outra vez, ao nosso lado. Entraria de novo pelas narinas o cheiro da grama pisada, dos refrigerantes, dos sanduíches. Só depois, ao desligar o radinho insosso sem seus comentários, contemplando os torcedores esvaziarem aos poucos as arquibancadas e o coração de quem fica, choraria a lembrança de um tempo que, como um atacante passando o zagueiro, estilo Araújo na ponta esquerda do Serra ou seu filho sobre os extintos campos mirins do Jardim América, não volta mais.

Valério Luiz de Oliveira Filho, em homenagem a seu pai, jornalista Valério Luiz de Oliveira, covardemente assassinato há exatos 4 anos, em 5 de julho de 2012.

*expressão inspirada em trecho do livro “As Pequenas Mortes”, de Wesley Peres.

(As fotos são do álbum da família de Valério Luiz)

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Jane Joplin

muito tristes o que fizeram com ele devemos cobra pro mais justiça isso e o que esse pais nunca vai conceder a nos lamentável esse pais sem justiça o que nos resta e sentir saudades dos nosso entes queridos que perdemos cada dia que passa nesse pais sem leis!!!!