A “reeleição” de Lula – entre aspas porque a corrida sucessória pode se dar com outro nome do PT ou de partido aliado – já começou em 31 de outubro, no “day after” das eleições presidenciais. Ou, talvez, em 9 de janeiro, quando a prisão dos “patriotas” frustrou de vez a mal-ajambrada tentativa de golpe de Estado do dia anterior e quando, de fato, o governo assumiu as rédeas para liderar as instituições democráticas.

Mas por que tanta pressa, tanta ansiedade, para falar da corrida eleitoral do “longínquo” 2026? É que, na verdade, não há nada “distante” no horizonte da política. A disputa pelo poder não cessa um dia e nela não existe “cedo”, só “tarde”, como dizia o grande estadista-frasista Tancredo Neves.

E a briga pelo poder é sempre pensada onde se ganha e onde se perde, mas principalmente na parte em que houve reveses.

E políticos profissionais monitoram diuturnamente o tabuleiro das urnas como se fosse uma partida de War. Como no conhecido jogo de guerra e estratégia da Grow, o PT sabe onde está sua força, sua debilidade e quais são seus principais alvos. Mas, nesse jogo, até que ponto vale a pena apostar seus “exércitos” em determinada região, ainda mais se ela for já tão fortemente dominada e, ao mesmo tempo, tão pouco adensada?

Estamos falando do Centro-Oeste. Em termos populacionais, Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul não têm 7,5% do eleitorado nacional. Somente São Paulo, o Estado, tem três vezes esse porcentual (22,2%); e São Paulo, a capital, tem 5,9% – ou quase 80% do eleitorado de toda a região.

Ou seja, bastaria concentrar as ações eleitorais de forma intensa na zona metropolitana de São Paulo, com mais de 30 municípios, para igualar ou “neutralizar” o esforço no extenso território das quatro unidades federativas do Centro-Oeste.

Mas não é com um cálculo simplista assim que a coisa funciona, porque governadores são “únicos” e os senadores de Roraima, por exemplo, têm tanto peso no Congresso quanto os de Rio, São Paulo ou Minas Gerais. Mais do que isso, “colorir de vermelho” um Estado onde houve uma derrota no pleito anterior é um sinal simbólico importantíssimo.

Em 2002, quando Lula foi eleito pela primeira vez, o PT chegou a “fechar” o Centro-Oeste, ganhando em todos os quatro colégios eleitorais. Mas já não vence em um deles desde 2010, quando Dilma Rousseff superou José Serra (PSDB) no Distrito Federal. A partir daí, foi tudo azul na região – a cor “oposicionista” que passou a ser convencional desde as disputas com os tucanos.

Estar de volta ao poder, e com alguém tão influente como Lula, significa um potencial maior de sacudir esse quadro. Mas qual será o peso real de Lula para o PT em Goiás daqui a três anos? Tudo passa pelo que vai “acontecer” nos municípios em 2024.

As disputas locais têm suas peculiaridades e a cúpula do PT sabe disso. Por isso, a aposta de que, com a economia indo bem e com a popularidade do governo em alta, mais lideranças municipais entrem na barca, seja se “tornando” petista, seja se filiando a um partido aliado.

Nesse sentido, o PT quer, senão vencer no Centro-Oeste, a região “agro” do Brasil – e em forte concorrência com o Sul como a mais antipetista –, ao menos reduzir o tamanho da desvantagem – ou o número de “exércitos” das forças rivais.