Por que saio do PSOL em tempos “pandemônicos”

Pauta psolista em Goiânia não é pelo que é comum a todos, pela liberdade e pelo socialismo, ao lado dos despossuídos, mas pelo que separa, por uma dificuldade tacanha em unir e lutar juntos

Reinaldo Pantaleão

Provocado pelo companheiro, amigo de muitas lutas, grande arquiteto e urbanista Lenine Bueno a expor as razões de me desfiliar do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), vou fazer aqui alguns apontamentos.

Sou militante de esquerda desde os tempos duros da década de 1960, portanto há mais de 50 anos. Quando na antiga Campininha das Flores me envolvi e participei ativamente da luta secundarista contra a ditadura militar, já no Colégio Estadual Pedro Gomes, isso foi feito com paixão, entrega e consciência social. Vi muitos amigos e lutadores caírem nessa luta, sofri pessoalmente muitos reveses, fui recolhido pelos militares e tive de dar um sumiço por um período. Mas não foi nada em comparação a outros lutadores, que foram exilados ou mortos, ou mesmo que tiveram suas vidas dilaceradas por não poder viver, atuar e se pronunciar politicamente.

Formei minha visão de mundo diante dessa cena de lutas, expressão cultural e artística de Beatles a Odair José; futebolística de Tostão a Guilherme; e aspirante a uma vida livre, respeitosa, sem opressão, poética à la Neruda e revolucionária como nos preceitos dos livros de Karl Marx.

Pintura de Antonio Berni

Nos tempos de UFG, estive sempre vinculado a movimentos democráticos e populares, próximo ao PCB, em diálogo com a AP (Ação Popular) e institucionalmente colaborando com a luta honrosa do “Comitê Goiano Pela Anistia” (sendo seu primeiro secretário-geral). Àquela altura, com o bipartidarismo, filiado ao MDB — claro, ao lado da turma do MDB progressista e de esquerda, os “manda-brasa”.

A efervescência político-cultural era grande e em 1980 fui fundador do PT com outros tantos companheiros; pessoas com quem aprendi muito, debati, atuei, errei, respeitei, discordei; com alguns rompi e de outros me reaproximei. Fui fundador do Sintego e da CUT, sempre ao lado e coletivamente com muita gente que, ao travar relações pessoais e políticas foram meus professores.

Fui candidato em todas as eleições de 1980, na tentativa, como todos, de agregar capital político e social para a mobilização que o PT fazia, em sua relação profícua, para intervir nos rumos da sociedade brasileira, com os movimentos de base, com a Igreja, com os sindicatos. Na segunda metade dos anos 1990 me desfilei, fui ao PCdoB por um ano, retornei ao PT e lá estive, apesar dos pesares e dos desvirtuamentos até o momento em que o presidente Lula nomeou o goiano Henrique Meirelles para o Banco Central. Aí não tinha mais razão de ser.

Continuei, como sempre (desde 1969), a ministrar aulas de História e a participar cotidianamente, de acordo com as condições apresentadas. Logo no início do PSOL me filei e lá se vão quase 15 anos. Um partido importante para a democracia brasileira e para a esquerda, na medida em que fazia e faz um contraponto às degradações do petismo, ao sectarismo casuísta e a um acordo espúrio com as classes dominantes.

O PSOL iniciou sua trajetória como uma possibilidade de futuro que, infelizmente, não me encanta mais. Recolheu todos os espectros à esquerda que, insatisfeitos com o PT, repetiram depois muitos erros desse partido.

O horizonte de uma sociedade socialista, a alteração das relações de produção, do modo de organizar a sociedade, com oportunidades iguais a todos sempre foi a medida do confronto com a estrutura capitalista e me serviu como ímpeto de luta e de sonho. Para isso, uma solidariedade e respeito entre os companheiros de luta é algo imprescindível. O que hoje não acontece mais no partido. Mesmo com um papel fundamental na política nacional e no Parlamento, o PSOL se tornou um partido dividido, com correntes que deveriam servir para garantir a diversidade, mas que somente impulsionam minissiglas dentro de uma sigla já muito pequena, em termos orgânicos.

A pauta psolista em Goiânia hoje, guardados alguns casos, não é pelo que é comum a todos, pela liberdade e pelo socialismo, ao lado dos despossuídos, dos trabalhadores em situação de calamidade capitalista, mas, sim, pelo que separa, por uma dificuldade tacanha em unir e lutar juntos.

Isso só mostra que a juventude pode ser muito colorida, porém pouco jovial em alguns casos, porque acomodados na “sala de jantar”, bebendo uísques e “ocupados em nascer e morrer”, o que os fazem reunidos em torno do sectarismo e do maniqueísmo. Um partido que afasta mais do que agrega. Nisso, o uso do identitarismo tem sido equivocado, pauta fundamental que deve ser reafirmada nas bandeiras do movimento feminista e antirracista em uma sociedade extremamente machista, racista e desigual como a brasileira. Como se tornam específicos demais simplificando o entendimento e as relações, ficamos perdidos nos temas da cidade.

Fui candidato em todas as eleições pelo PSOL, com uma boa média de votos e uma campanha bonita e surpreendente para prefeito em 2012. Em um contexto pessoal delicado (eu havia saído há pouco de uma cirurgia no cérebro por conta de um meningioma e fiz toda a campanha sem uma parte do osso craniano), me parece que o resultado foi bom porque tivemos uma ótima votação.

O partido se encontrava então numa encruzilhada estratégica por termos outro nome na pré-campanha e, com o anúncio de tempos difíceis para a cidade – foi a campanha que levou à reeleição o bom ser humano mas péssimo prefeito Paulo Garcia, o ex-vice de Iris Rezende que usou a máquina e obteve mais quatro anos para fazer muito mal à Goiânia –, então a minha entrada no processo foi uma tentativa para unir um campo político combativo. Depois, fui presidente municipal do PSOL e, junto a alguns nobres companheiros e amigos, regularizamos a situação formal do partido. Tudo isso apesar de pessoas importantes internamente negligenciarem e distanciarem (com deslealdade, inclusive) outros companheiros, até o presente momento.

Atualmente e infelizmente, o PSOL em Goiânia não tentou construir uma aliança com outras forças de esquerda. Não dialogou sobre as possibilidades e ignorou qualquer menção à construção de um campo que pudesse ser mais forte no combate ao reacionarismo bolsonarista e ao neoliberalismo que impera. Se fez essa conversa, não tive notícia e, se houve algo assim, certamente foi à boca miúda.

Nesse sentido, é fundamental congregar uma perspectiva radicalizada, que veja a política nas relações cotidianas, que faça trabalho de base constantemente e aspire uma possibilidade de futuro, diversa, ativa e emancipada. O PSOL fez muito, mas tropeçou nos seus próprios pés. O socialismo é um norte e nos encontraremos em muitas batalhas juntos.

Só me aposentei formalmente da sala de aula. Sigo na luta contra todo tipo de opressão, preconceito e discriminação e, como um bom “animal político”, enxergo na história uma escrita constante das ações humanas, na qual podemos fazer do bem comum um ideal a ser escrito. Precisamos cuidar da relação do homem com a natureza; da vida das pessoas (principalmente agora!); precisamos construir uma alternativa e conquistar espaços públicos para o que é comum; agregar forças inteligentemente; abandonar o oportunismo; estar sempre em processo educativo dialético; formar e se formar, politicamente.

Hoje e sempre, eu acredito é na rapaziada! As minhas posições não mudam: sou marxista, ateu generoso e defensor da democracia popular! Sempre na linha do Comandante Carlos Marighella: “Ousar Lutar! Ousar Vencer!”. Como diz o poeta: “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. A luta continua! Abraços fraternos.

Reinaldo Pantaleão é professor de História e militante de esquerda.

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