Otávio Lage, eleito e não nomeado

Jales Naves

As eleições de 1965 em Goiás para Governador foram as mais disputadas de todos os tempos e em todas as instâncias, quando os dois principais partidos políticos, que eram rivais, novamente se enfrentaram nas urnas. Do pleito surgiu uma nova liderança, o governador eleito Otávio Lage.

Fazendeiro moderno e inovador, um dos responsáveis pela consolidação da cultura do café na região do Vale do São Patrício e até então desconhecido do mundo político, ele se destacou pela dinâmica administração que realizou em Goianésia, como Prefeito, de 1962 a 1965, então uma cidade pequena, inexpressiva. E também por ser filho do deputado federal Jalles Machado, um dos principais líderes da UDN histórica, que se sobressaiu pela firme atuação como parlamentar, defendendo os interesses de Goiás e lutando contra os aliados de Getúlio Vargas no Estado, em especial o antigo PSD.

Determinado, ousado e com uma mensagem nova, para tirar Goiás de um atraso histórico, que o deixava na lanterna dos estados brasileiros, ele conquistou o direito de ser candidato pela União Democrática Nacional numa disputa muito acirrada. Venceu na Convenção Estadual do partido o deputado federal Emival Caiado, considerado favorito, e lutou para ocupar espaço e consolidar sua candidatura com mais três partidos (PTB, PSP e PDC). Foi difícil obter o apoio do governador eleito de forma indireta, marechal Emílio Ribas Júnior; e da cúpula militar, pois um dia antes da convenção udenista o presidente da República, marechal Humberto Castello Branco, lançou a candidatura a Governador, pelo PSD, do deputado federal Gerson de Castro Costa, conforme registraram os jornais do dia.

Depois de superar os obstáculos e dificuldades que se antepunham e assumindo a liderança desse processo, ele soube se impor, consolidar a sua candidatura e, utilizando de estratégias de marketing, conquistar o eleitorado, a partir de um mote especial. A crítica da oposição, de ser despreparado para a função por ser roceiro, foi utilizada como instrumento dessa mudança: ele chegava nas cidades sempre com um chapéu na cabeça e entrava pelas principais ruas montado a cavalo, ou num trator, ou numa carroça, e saía cumprimentando a todos. Dessa forma, foi se tornando conhecido, divulgando sua plataforma de trabalho, centrada em três eixos (educação, energia e estradas) e firmando o seu nome.

Na oposição, que ainda dominava o Estado, simbolizada na figura do senador Pedro Ludovico, o candidato era o médico e deputado federal José Peixoto da Silveira, um dos principais quadros do PSD, que tinha ocupado as três principais Secretarias de Estado (Fazenda, Educação e Saúde), além de ter sido deputado estadual.

A situação era difícil, mas prevaleceu a mensagem desenvolvimentista, a proposta de construção de um novo Goiás, a partir dos três eixos, o que realmente aconteceu, e o resultado favoreceu o candidato da UDN.

Essa observação se torna importante ainda hoje não só para resgatar o nome e o importante trabalho realizado pelo ex-governador Otávio Lage, como para fazer justiça a um dos mais expressivos governantes de Goiás.

Nos últimos anos, seu netos tiveram que defendê-lo diante de críticas improcedentes, injustas e que não correspondiam à verdade. Eles admiravam o avô pela postura íntegra, pelo comportamento ético e por ser um empreendedor preocupado em unir forças para viabilizar projetos. Como a destilaria de álcool, a co-geração de energia a partir do bagaço da cana, o plantio de seringueiras, a inovação tecnológica no campo a partir de sementes certificadas etc.

Quando frequentavam o ensino médio, já se preparando para o vestibular, vários de seus netos tiveram que discutir com os professores de História, que teimavam em dizer que ele tinha sido nomeado Governador de Goiás pelos militares. Inclusive, uma questão em vestibular de uma importante instituição de ensino superior, em 2003, tratava desse tema e dessa forma. Colocando-o como Governador nomeado, e não eleito em pleito democrático e popular.

Otávio Lage foi, na verdade, o único governador de Goiás eleito no período militar, em pleito direto e com a efetiva participação do eleitor.

Um registro que se torna necessário diante dessa falta de compromisso de professores para com a verdade, e que atinge uma pessoa que foi, por princípio, um democrata no exercício de suas funções no Executivo goiano e que honrou o mandato que cumpriu, mesmo num período de exceção.

Jales Naves é jornalista.

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