O recado de Cid Gomes é que o PDT quer ocupar o espaço do PT daqui pra frente

Lula da Silva soterrou Brizola e afundou Ciro Gomes, em 2018. Os Gomes não querem ser coadjuvantes daquele que impede sua ascensão política

Ciro Gomes: um dos mais qualificados líderes do PT | Reprodução

Quando a ditadura estava nos estertores, seus formuladores, como Golbery do Couto e Silva, reinventaram o sistema político — abrindo espaço para mais partidos. O objetivo era, em larga medida, dinamitar o MDB de Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, que, mais do que um partido, era uma ampla frente política, com políticos de direita, de centro, de esquerda e de extrema esquerda. O PTB, partido que fustigara os militares entre as décadas de 1940 e 1960, seria retomado, mas não com o suposto radical Leonel de Moura Brizola (1922-2004), e sim com a moderada Ivete Vargas, sobrinha de Getúlio Vargas. Restou a Brizola criar o PDT.

A vida é mesmo contraditória. Os militares não queriam Brizola na Presidência, e, com dois partidos, o PTB, fora de seu controle, e o PDT, as forças trabalhistas se dividiram.. O que em tese reduziria a força do político originário do Rio Grande do Sul mas radicado no Rio de Janeiro. Mas o que enfraqueceu mesmo Brizola foi o PT e, sobretudo, seu principal líder, Lula da Silva. Durante anos, houve quem acreditasse que Lula da Silva teria sido uma invenção dos militares para “matar”, politicamente, Brizola. Não foi. O líder do PT é uma invenção das lutas operárias de São Paulo, da articulação de intelectuais e, também, da Igreja Católica dita progressista.

O fato é que, enquanto Brizola permanecia quase como “dono” do Rio de Janeiro, Lula da Silva começava a ganhar o Brasil — tornando-se um político nacional. O sonho de Brizola era ser presidente do país e fez o que pôde para consegui-lo. Mas esbarrou num algoz que, teoricamente, parecia aliado — Lula da Silva.

Em 1989, quando parecia a vez de Brizola ser presidente, Lula da Silva entra na disputa e vai para o segundo turno com Fernando Collor. Aos correligionários do PDT, Brizola disse: “Cá para nós: um político de antigamente, o senador Pinheiro Machado, disse que a política é a arte de engolir sapos. Não seria fascinante fazer esta elite engolir o Lula, esse sapo barbudo? Vamos no menos pior, pelo menos”. Collor foi eleito, mas sedimentava-se a ideia de que o principal líder da esquerda era não mais Brizola, e sim Lula da Silva.

Em 1994, Brizola volta a disputar e fica em quinto lugar. Lula da Silva foi o principal adversário de Fernando Henrique Cardoso, o presidente eleito. Em 1998, sentindo que o petista havia ocupado seu espaço, Brizola aceita ser seu vice. A dupla perde para Fernando Henrique Cardoso, o Sr. Plano Real.

Era o fim de Brizola. Lula da Silva conseguiu aquilo que os militares não conseguiram: ao ocupar seu espaço no âmbito da esquerda, liquidou-o politicamente.

O grito de independência dos irmãos Gomes

Na semana passada, a imprensa deu espaço merecido ao grito de Cid Gomes “contra” o PT de Lula da Silva. Tornou-se consenso que havia sido um desabafo, especialmente porque o senador eleito pelo Ceará, um dos políticos mais competentes do PDT, seguiu na campanha. Mas há outras duas leituras, conectadas.

Primeiro, Cid Gomes sabe que, se continuar segurando com força a alça do caixão da campanha do candidato do PT a presidente da República, Fernando Haddad, o PDT corre o risco de ser enterrado junto. O país está dizendo “não”, de modo estrondoso, ao PT de Lula da Silva. Se não mostrar que discorda do PT, ao menos em certa medida, o PDT ficará com duas derrotas nas costas: a do primeiro turno, com seu candidato, Ciro Gomes, e a do segundo turno, com o poste que virou graveto.

Segundo, e mais importante: os irmãos Gomes, Ciro (chegou a ser apoiado por Brizola no primeiro turno da eleição de 2002) e Cid, conhecem a história do PDT e não querem que o partido se torne o PC do B 2 — um eterno coadjuvante do PT.

Na eleição deste ano, se o PT tivesse apoiado Ciro Gomes para presidente, como queria o petista Jaques Wagner — foi atropelado por Lula da Silva —, é provável que o pedetista teria ido para o segundo turno, e, com menos desgaste do que o petismo, seria um adversário mais consistente para Bolsonaro.

Como Lula da Silva disse “não” e bancou Haddad — que, de graveto, passará a palito pra dente —, Ciro Gomes entrou no “octógono” sozinho e, embora não tenha sido nocauteado, perdeu por pontos. O PT o tirou do MMA eleitoral.

O PT, portanto, continua “matando” os candidatos presidenciais do PDT. O predador de Ciro Gomes, na eleição deste ano, não foi Bolsonaro, e sim Haddad, quer dizer, Lula da Silva. Se não der o grito de independência — o que se deu com a viagem de Ciro Gomes para a Europa (“não estou nem aí” — é o seu recado) e o discurso-bomba de Cid Gomes (nem Bolsonaro fez tantos estragos numa campanha que, a rigor, está nas cordas e à beira da cova política. O PT luta, no momento, não mais para vencer Bolsonaro, e sim para que a derrota seja menos humilhante) —, o PDT vai continuar como figura quase decorativa no cenário político nacional, sempre morrendo na praia.

Em suma, Cid Gomes deu o grito de independência do PDT. A tradução exata de suas palavras é: o PDT quer ocupar o espaço do PT já a partir das eleições para prefeito, em 2020, e sobretudo na disputa presidencial de 2022. O partido, com o PT enfraquecido, depois da possível derrota acachapante para a direita, poderá ocupar o espaço de líder da esquerda — com o espírito de centro-esquerda — em termos nacionais. O espaço político não fica vazio por muito tempo — é o que os irmãos Gomes estão percebendo. Então, o PDT quer ser, já agora, o partido que, com o empurrão da direita de Bolsonaro, pode levar o PT, de vez, para a cova. Se o PDT não ocupar o espaço, por qualquer receio infanto-juvenil, o PT pode ressurgir? Talvez não. Mas é possível que, se o PDT não entender o recado das urnas, outro partido surgirá e ocupará o espaço vazio no espectro da esquerda. (Euler de França Belém)

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