A matéria de Caco Barcellos para o Profissão Repórter, programa de reportagens investigativas da Rede Globo, na semana passada levantou a bola: qual foi a real intensidade do uso da máquina governamental? Até que ponto foi sua influência?

Não se sabe com que indícios, a equipe do programa se deslocou até Coronel Sapucaia, no interior de Mato Grosso do Sul – onde Lula e Bolsonaro haviam empatado no primeiro turno em 4.254 votos –, para acompanhar a última semana eleitoral. O fato é que Caco conseguiu flagrar uma reunião com centenas de pessoas de famílias beneficiadas pelo Auxílio Brasil. Com não muita investigação, constatou que havia ali a prática de assédio eleitoral.

A presidente do diretório estadual do PT em Goiás, Kátia Maria, não tem dúvida: “Nunca antes na história da redemocratização houve um uso tão intensivo da máquina pública para a compra de votos. Foi um assédio eleitoral por parte do poder público e também pelo empresariado, também de forma violenta”, disse, também citando a reportagem do experiente jornalista como evidência, em entrevista publicada nesta edição do Jornal Opção.

Deputada federal eleita depois de dois mandatos na Assembleia Legislativa, a delegada Adriana Accorsi complementa: “Não fosse a força de Lula, com certeza toda essa máquina teria conseguido levar a vitória para o outro lado”, afirmou. De fato, pode-se dizer que Lula carregou a oposição (e, com a ela, a democracia) “nas costas” com seu eleitorado consolidado, quase devoto, principalmente no Nordeste.

O resultado final mostra isso: a diferença entre o petista e o atual presidente encolheu de 6 milhões para 2 milhões de votos de um turno para o outro. Lula teve mais de 60 milhões de eleitores apertando seu número, um recorde na redemocratização. E Bolsonaro superou sua votação no segundo turno de 2018. Mesmo assim, com a disponibilização de tantas “armas” nem sempre tão dentro do “fair play”, ele se tornou o primeiro presidente da República a fracassar na tentativa de reeleição.