Nasce um líder nacional: o governador Ronaldo Caiado

Os 212 milhões de brasileiros estão de olho no gestor de Goiás, que é visto como um político sério, não populista e dotado de autoridade

Nilson Gomes

Especial para o Jornal Opção

O novo coronavírus ameaça tomar da depressão e do câncer o título de mal desta primeira metade do século 21. Os mortos, atualmente contados às centenas, são projetados aos milhares, talvez milhões. Os infectados seriam 1 bilhão ao redor do globo. Covid-19, a doença batizada com uma sigla, cresceria em progressão geométrica até o trimestre final de 2020. Com as vacinas em estágio experimental, povoando mais os textos especulativos que os de ciência, restaria um único e dificílimo recurso: confiar ao homem sua própria sobrevivência.

Foi essa anomalia, a vontade humana, que o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), enfrentou no domingo, 15, na Praça Cívica, em Goiânia. Médico, o administrador público resolveu um axioma das ciências jurídicas: pode o cidadão, num logradouro que já no nome celebra o civismo, exaltar seu direito de reunião, expressão e manifestação em desacordo com a ordem do governante? Teria o dirigente estadual atropelado a Lei Maior nacional? Caiado não teve tempo de sacar a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal e resolveu a questão ali mesmo, de pé, sem mudar o ritmo nem o tom da voz. Com frases duras, apresentou-se como o governador que está reconstruindo não somente as práticas administrativas, mas também a autoridade do cargo. E as frases foram saindo diretamente para a História, inclusive a melhor delas: “Não se mostra apoio a um governo colocando em risco a sua população”.

Caiado a pronunciou assim, como quem respira, naturalmente. Naquele momento, era tudo de que ele precisava, respirar naturalmente, e produziu uma obra-prima tão necessária quanto o ar. No ar, naquele momento, ecoava o oposto do que o personagem e sua criação mereciam.

Ronaldo Caiado (DEM): político que, além da autoridade, não adota práticas populistas | Foto: Divulgação

A oração — sim, melhor batizá-la de oração, não como a define a gramática, mas como seria priorizada em seguida, como uma prece —, pois a oração está literariamente à altura de outra à qual pode se ombrear na História: “Deus poupou-me do sentimento do medo”.

A belíssima máxima dita por Juscelino Kubitschek em 1954, quando era governador de Minas Gerais, serviu inicialmente para mostrar seu destemor em se candidatar no ano seguinte à Presidência da República. Diversas outras autoridades, inclusive Fernando Henrique Cardoso, a repetiram. O próprio Caiado encerrou magistralmente com ela um discurso no Senado, em dezembro de 2016, dando o crédito a JK. Nos meios acadêmicos, sabia-se do redator apropriado: o poeta Augusto Frederico Schmidt, ghost-writer oficial do construtor de Brasília, que a teria elaborado num pedaço de papel e colocado no bolso do líder.

Schmidt não era uma pessoa, era uma equipe. Em sua literatura não há verso do nível desta pérola dos pronunciamentos de políticos. No pequeno time convocado para servir ao governador e, em seguida, ao presidente, estava um escritor que se revelaria maior que o chefe, Autran Dourado. Duas décadas atrás, Dourado assumiria: “Sou o autor da frase”. Realmente, estava acima da antologia de Schmidt.

Shakespeare escreveu milhares de tuítes quatro séculos antes de as mídias sociais aparecerem. Uns 99,9% deles são mais fortes que a de Autran Dourado. Com algo em comum: suas criações destoariam se saíssem de sua boca. O bardo inglês depende de grandes artistas (atores, diretores, cenógrafos, músicos) para que suas peças alcancem o imaginado para as palavras. Nos lábios de Autran Dourado, a plateia riria do suposto desassombro. Emitida por JK e Ronaldo Caiado, a frase se torna crível, pois a aludida coragem está embasada em fatos.

JK poupou-se do sentimento do medo e chegou a presidente da República (o Brasil foi feliz e muitos não sabem. Frise-se que um parente de Ronaldo Caiado, Emival Caiado, ajudou Juscelino na luta pela construção de Brasília. Ele era senador).

Caiado poupou-se do sentimento do medo e enfrentou os partidários do coronavírus (o Brasil é feliz, apesar deles).

Nunca é demais repetir o som que pulsa no coração antes de chegar aos ouvidos: “Não se mostra apoio a um governo colocando em risco a sua população”.

A gestão à qual se referiu é a de Jair Bolsonaro, ocupante do cargo que por 50 anos em 5 foi de JK.

Ao redor de Ronaldo Caiado na praça estavam de baderneiros profissionais a inocentes úteis que saíram do sofá da sala como se fossem a um piquenique de palavras de ordem.

O governador poderia muito bem ter ficado quieto em casa, mas o obscurantismo bateu à porta: o Palácio das Esmeraldas, residência oficial do chefe do Executivo goiano, é aquele prédio da cor de fundo de garrafa, atrás das bandeiras, na praça escolhida pelos baderneiros para a celebração à ignorância.

Era urgente reagir ao duplo absurdo de defender o presidente do que ele não estava sendo acusado e violar as medidas de contenção do coronavírus. Há pessoas inteligentes que admiram Bolsonaro, mas nenhuma delas era vista na manifestação. Ali plantou-se uma meia dúzia de três ou quatro que não acreditam no coronavírus, mas creem que a terra só não é plana por causa do Morro do Além e da Serra Dourada.

De repente, a praça passou a ter um bolsonarista inteligente. Caiado foi ao encontro da multidão, não para engrossá-la num apoio dispensável ao presidente, mas para dispersá-la.

Chovia. Alguém chega com um guarda-chuva. Ele permanece ao relento. Aos 70 anos, o governador é do principal grupo de risco de contágio do coronavírus. Poderia ter articulado particularmente com os organizadores do evento, sem ruído, dito platitudes favoráveis ao presidente e voltado para sua sala, se autopreservando. Não.

Caiado foi para o embate, não contra o que chama de inimigo invisível, o vírus, mas um adversário bem maior no tamanho e na letalidade, o alheamento patologicamente provocado pela militância, ali a bolsonarista, noutras paragens a lulista.

Luta contra a cegueira da ignorância

O governador começou dizendo que ninguém combateu mais as esquerdas do que ele. Aplausos. Que defende Bolsonaro. Aplausos. Mas que não deveria haver aglomeração de pessoas. Vaias. Defendia os manifestantes de suas próprias cegueiras. Vaias. Sinalizou que poderiam pegar o vírus. Vaias. Transmitir o vírus. Vaias.

A malta enfurecida pensou — modo de falar, pois turba não pensa — que inibiria o vizinho da manifestação com gritos típicos do sindicalismo cutista. Em vão. Caiado continuou alertando para os riscos. Lembrou que, em caso de morte de alguém que aqueles brutos amem, o parente da vítima iria reclamar na porta do palácio. E os apupos se intensificaram.

Segundos depois, o governador determinou que a balbúrdia estava encerrada e… pronto!, acabou mesmo. Goiás agora tem governo mesmo.

Ao lado do secretário de Comunicação, Marcos Silva, Ronaldo Caiado voltou para casa. Os integrantes da marcha da insensatez foram para o que no direito se chama de Lins, lugar incerto e não sabido. Já o governador foi para um local certo e sábio: a História.

Antes mesmo de transpor o quase nonagenário portão do palácio, Caiado estava em grupos de aplicativos e mídias sociais do País inteiro. A imprensa o celebrava. Até lulistas afamados, seus tradicionais opositores, teciam loas. As cenas e, sobretudo, as frases, tomaram conta das telas de todos os tamanhos.

Ronaldo Caiado é a maior liderança do Centro-Oeste e Norte do Brasil. No Congresso, conquistou admiradores no País inteiro. Porém, à exceção de raros meses, Caiado sempre foi oposição no Estado e no Brasil. E não havia se submetido às agruras da rotina administrativa, ainda mais ao suceder um ciclo de escândalos. Havia tentado ser presidente em 1989 e governador em 1994. Ficou fora do segundo turno em ambas. Agora era diferente. Quebrou o tabu segundo o qual teria trocentos mandatos proporcionais, mas não majoritários. Ganhou dois seguidos, o de senador em 2014 e de governador em 2018. Mas faltava uma cena. Não falta mais. Maduro, calejado, experimentado, Ronaldo Caiado foi à praça para advertir os mal informados e até os mal intencionados quanto à possibilidade de morrerem e matarem por falta de informação correta, e saiu de lá carregado em celulares de todos quantos padecem órfãos de líderes. Nasceu ali, naquele momento, o líder nacional que Goiás não tem desde que o mesmo JK foi cassado e morto pela ditadura militar cuja volta era pedida nas faixas ostentadas pela meia dúzia que vaiava Caiado.

Todas as redes de TV e rádio. Todos os jornais de todas as regiões. Todos os portais, sites, blogs. Todos os articulistas, comentaristas, apresentadores, colunistas. Todos concordaram com os gestos e as frases de Ronaldo Caiado. Parafraseando outra frase célebre — do dramaturgo e cronista Nelson Rodrigues —, foi uma unanimidade inteligente.

Enquanto se redige este texto, na madrugada de sábado, 21, estão confirmados 18 goianos com coronavírus e mais de 500 sendo examinados. Os terraplanistas diriam que é pouco defunto (no caso, nenhum) para muito choro. Ou seja, gostariam de ir a estádios lotados, feiras congestionadas, shoppings bem frequentados — não se diz teatro, museu e cinema porque esse tipo de gente não consome cultura. Assim, os corpos se empilhariam em casas e hospitais e, finalmente, quem crê que a Terra é plana se convenceria também de que o coronavírus mata.

Ronaldo Caiado passou a semana sendo notícia ao redor do planeta, rotina mantida desde que recebeu de braços literalmente abertos os brasileiros vindos da China. Foi pioneiro no humanitarismo e em assumir medidas drásticas, como o fechamento de shoppings. O governador de São Paulo, João Dória (PSDB), titubeou quanto a vedar a abertura dos centros de compras, fez de conta que mandou lacrar, depois autorizou o funcionamento e por fim, cercado de cadáveres, afastou o populismo. Por essas e outras, Caiado foi citado e adjetivado pelos colegas chefes de Executivo estaduais, prefeitos e os mais respeitados da comunicação. Na edição desta semana, a revista “Veja” destaca o governador goiano na versão impressa e o entrevista para podcast da on-line.

O presidente da República, mitificado pelos manifestantes que vaiaram Caiado, está menor a cada dia. Seu aliado governador de Goiás, que se manteve firme na contestação dos portadores de cartazes exigindo a volta do AI-5, se agiganta.

Na quinta-feira, 18, o novo coronavírus matou o engenheiro químico Sérgio Campo Trindade, único brasileiro até hoje a ganhar o Nobel — o da Paz, em 2007. Se a doença tivesse apenas uma vítima e ela fosse Trindade, já seria preocupante.

No Rio, a primeira vítima fatal foi uma empregada doméstica.

Resumindo, o vírus não é de esquerda nem de direita, derruba ricos e pobres, leva um cientista ganhador da maior láurea do mundo da mesma maneira que uma diarista.

Aos insanos na praça, Caiado perguntou se estavam acompanhando os acontecimentos mundiais. Foi um esforço de retórica, pois está ciente de que eles não sabem o que acontece nem debaixo das próprias ferraduras. Durante toda a semana, permaneceu tomando decisões favoráveis à preservação da vida, mesmo que os beneficiários inicialmente reajam contra. Foi o que tentou dizer à malta — até disse, mas não ouviu.

O médico Ronaldo Caiado foi à TV na noite de sexta-feira, 20, e saudou como heróis seus colegas profissionais da saúde. Insistiu que, ao tomar “atitudes duras, às vezes incompreendidas”, salvou vidas. Inclusive, em potencial, a dos que o vaiavam quando alertava sobre o perigo de contágio nas manifestações.

O líder Ronaldo Caiado está 100% focado na travessia para momentos melhores. Virão em boa hora. Caiado ainda não teve descanso. Assumiu um Goiás com R$ 24 bilhões em dívidas, sendo R$ 6 bilhões a curto prazo e metade disso atrasada: era o salário dos servidores e suas contribuições ao sistema previdenciário. O Estado não tem crédito para comprar sequer um tijolo. Os antecessores de Caiado ficavam com dinheiro vindo de Brasília para ser repassado aos municípios, um crime contra a segurança alimentar de mais de 1 milhão de crianças. As rodovias tinham 7 mil quilômetros de buracos e, se o asfalto é Sonrisal, seus bueiros são de açúcar, derretem com orvalho e, com a chuva, viram creme. O rombo no Ipasgo também era bilionário. Segurança pública não conseguia impedir nem apurar crimes, às vezes por interferência política. Em 2018, o então presidente da Codego e seus diretores foram presos por roubar metade dos recursos destinados ao Anel Viário do Distrito Industrial de Anápolis, o Daia. Licença ambiental só era conseguida à custa de propina, o que travou R$ 64 bilhões em investimentos. Menos de 15 meses depois, Caiado pagou 14 folhas e meia, os bandidos (contados os de gravata) tiveram de optar entre mudar de profissão ou de Goiás, o Ipasgo opera no azul, os empreiteiros estão refazendo as estradas pelo dinheiro já recebido (a outra opção é cadeia), os laudos ambientais foram moralizados (apesar de a máfia sobreviver, por ser efetiva), o Anel Viário do Daia está sendo concluído, os municípios recebem em dia os repasses federais.

Pode parecer um balanço regional. Não é mais. Toda ação de Caiado passa a ter amplitude nacional. Ao reconstruir um Estado para mais de 7 milhões de brasileiros, as demais 26 unidades da federação o observam com lupa.

Portanto, naquele domingo na Praça Cívica, Caiado foi à chuva não para se queimar — recordando mais uma frase, desta vez atribuída a Vicente Matheus, lendário cartola corintiano. Caiado estava ali para fazer o que faz todos os domingos (andar na praça que fica em frente a sua moradia) e dia e noite: mostrar na prática que Goiás agora tem governo. E sob o olhar de quase 212 milhões de brasileiros.

Daqui a um tempo, covid-19 terá sido apenas mais uma das doenças que Caiado ajudou a erradicar em Goiás. A primeira delas foi a cleptomania diante do erário, cujo surto durou longos 20 anos.

Nilson Gomes é jornalista.

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