Marcos Cabral deixa para Lúcia R$ 24 milhões e a casa arrumada

PF, MPF e MPE vão querer investigar a farra de cursos, eventos e locações, que existiam até 2018. Ex-secretário trabalhou para permitir à ex-senadora reativar programas sociais

Nilson Gomes

Num tempo em que até a umidade relativa do ar seca tudo inclusive quando chove, é um refresco saber que Marcos Cabral deixou R$ 24 milhões no caixa da Secretaria de Desenvolvimento Social, a Seads.

São, precisamente, R$ 23.919.072,66 para a nova ocupante do cargo, a ex-senadora Lúcia Vânia, implementar as políticas públicas sociais decididas pelo governador Ronaldo Caiado, iniciadas por Marcos Cabral e já viabilizadas.

Marcos Cabral, Lúcia Vânia e Ronaldo Caiado | Foto: Lívia Barbosa/Jornal Opção

Uma mudança e tanto. Quem conhece a máquina estadual sabe que se trata de antigo mocó do Estado que cevava aves de rapina.

A Seads se chamava Secretaria de Cidadania, um monstrengo que cuidava de tudo, menos de… cidadania.

Era uma central de escândalos.

Entre outras formas de surrupiar verbas federais e estaduais, os cursos, os eventos e as locações anteriores a 1º de janeiro de 2019 precisam ser muito bem investigados pelas polícias Civil e Federal e os Ministérios Públicos Estadual e Federal.

Em Goiás, tornou-se comum roubalheira com dinheiro que chegava de Brasília para treinamento, aperfeiçoamento e outros apelidos dados a ladroagem.

São os cursos sobre o nada, que demandam lanches, diárias, contratação de palestrantes amigos (do alheio), locação de som, equipamentos de informática, auditórios, hotéis e quejandos.

(Alô, MPF: às vezes, criminosos agem em nome de respeitadas instituições internacionais.)

Este artigo é uma notitia criminis a ser levada a sério pelas autoridades.

Existem absurdos notados aos olhos de leigos e leigo só consegue enxergar apenas a ponta do iceberg de lodo. Especialistas das polícias e dos MPs poderão desfiar essa meada e mudar a temperatura em Goiás — o bloco de gelo parece atingir da superfície às Fossas Marianas.

Marcos Cabral: gestor eficiente e criativo | Foto: divulgação

O que Pedro Sales fez na Codego, Marcos Cabral fez na Seads: implantou mudanças tão necessárias quanto desgastantes, limpou o beco dos aflitos, afastou suspeitos, enxugou a folha, modernizou métodos, aprimorou processos, enfim, tentou aproximar o órgão do século 21.

As realizações de Pedro Sales precisam ser resumidas num livro de Administração. Portanto, não cabem aqui, agora, mas serão objeto de artigo posterior.

Pedro e os dois Marcos, o da Codego e o do Detran, são as grandes revelações de Caiado. As outras estrelas do governo (Anderson Máximo, Andrea Vulcanis, Cristiane Schmidt, Ismael Alexandrino, Marcos Roberto Silva, Rodney Miranda, Silvio Fernandes, Wilder Morais) estão com esperado bom desempenho, mas não são novidade, haviam tido outras chances.

O que se sabia de Marcos Cabral era como prefeito por três mandatos em Santa Terezinha, no Vale do São Patrício.

Quando assumiu a gestão inicialmente, em 1997, tinha 25 anos e uma cidade que parecia ter sido devastada por vulcão, furacão, tufão, inflação, depressão, sei lá, alguma monstruosidade com ão.

Existe o salário mínimo do trabalhador (merreca de milim) e salário mínimo de FPM, o repasse mais insignificante para os municípios (merreca de 0.6).

Com essa merreca, Marcos Cabral fez 411 obras no primeiro mandato. Quatrocentos e onze obras!

Quando se elabora balanço de gestão querendo superlativizá-lo, contam-se como obras até metro de meio-fio, tábuas de pinguela e quebra-mola.

As 411 obras de Marcos Cabral em um mandato tinham realizações de vulto, como aeroporto pavimentado, estádio, parque agropecuário, faculdade, oito prédios públicos, asfalto na cidade inteira e em mais meia dúzia de povoados. Tudo isso em Santa Terezinha!

Voltou à prefeitura de 2009 a 2012 e, agora, em 2017 e 2018.

Para sintetizar a conversa, fez 103 pontes de concreto, praças, bibliotecas, unidades de saúde, centro de reabilitação nos moldes do Sarah Kubitschek — guardadas as devidas proporções, né, turma do anti.

Comprou 12 tratores, quatro caminhões, três retroescavadeiras, 17 ônibus escolares.

O Rio Crixás, que corta a bela Santa Terezinha, estava com uma erosão terrível, parecida com algumas do Araguaia.

Que fazer?

Marcos Cabral fez do limão uma H2OH!

O buracão (outro ão da destruição) foi transformado em porto.

O sistema local de saúde chegou a tal nível de sofisticação que o governador Ronaldo Caiado vai fazer Policlína no Hospital Municipal, reconstruído por Marcos Cabral, entregue com equipamentos para implantar UTI.

Tá difícil achar UTI em Goiânia, Aparecida ou Anápolis? Marcos Cabral deixou uma no jeito em Santa Terezinha.

Assim como Pedro Sales, Marcos Cabral é gestor — acostumado a tocar obras, conseguir recursos em organismos nacionais e estrangeiros, além de formar equipes eficientes.

Tornaram-se curingas do governador por serem ases nas funções que ocupam.

Não importa se é rodovia na Goinfra, promoção social na Seads ou desenvolvimento econômico na Codego — um gestor está preparado para o desafio.

Inexiste secretaria grande, companhia pequena. O que há é um Estado a ser reconstruído.

Marcos Cabral e Pedro Sales estão na equipe de Ronaldo Caiado, não na Codego, na Goinfra ou na Sead com s (a social) ou sem s (a de administração).

As repartições compõem o governo e Caiado envia para comandá-las os executivos nos quais confia, não importa a sigla da fachada ou o orçamento anual – o que importa é resultado. E isso Pedro Sales e Marcos Cabral mostraram de forma mais do que satisfatória onde estiveram.

Nilson Gomes é jornalista.

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