Líderes empresariais aliam machismo a negação à ciência

Caiado reconhece o empoderamento das mulheres e lhes pede ajuda no combate ao coronavírus, para desespero de quem acha que carreata salva vidas e empresas

Nilson Gomes

Especial para o Jornal Opção

O trânsito de Goiânia é a maravilha típica de cidades dominadas, ao longo das décadas. Somem-se ao caos, atualmente, as Carreatas do Vírus, aquelas aglomerações de carros atrás de um caminhão de som com alguém ao microfone agredindo o bom senso e a Língua Portuguesa.

Por analogia, as mais recentes carreatas da insensatez exigiam a morte de 18 mil goianos, desde que não fossem da família ou do círculo de amizades dos entrincheirados nas caminhonetonas. Dezoito mil seria número de vítimas fatais até setembro, de acordo com cálculos de cientistas da Universidade Federal de Goiás, se o isolamento social permanecesse na faixa inferior a 40%.

Após essa previsão funesta, o governador Ronaldo Caiado e lideranças municipais de boa índole, como o prefeito de Goiânia, Iris Rezende, se reuniram com Ministério Público, deputados e magistrados. Pauta: salvar as 18 mil vidas e livrar das sequelas outras centenas de milhares de pulmões.

Caiado, Iris e outros 50 prefeitos conscientes decidiram-se pela ciência. Num desrespeito aos mortos, aos sobreviventes e a seus familiares, algumas lideranças empresariais convocaram manifestações contra a estratégia técnica de salvar vidas.

Uma mulher na luta para salvar vida em tempos de pandemia do novo coronavírus | Foto: Reprodução

A tática do Gabinete da Cova Rasa, formado por alguns empresários e prefeitos, é deixar como está para virem como é que fica. Eles ficam no exterior curtindo a vida adoidadamente e os pobres ficam enfrentando o vírus em ônibus lotados.

Neste fim de semana, o governador Ronaldo Caiado gravou um vídeo muito interessante. Nele, denuncia a tentativa dos tais presidentes de algumas entidades que criaram a dicotomia entre viver e trabalhar. Na opinião dos líderes classistas, quem trabalha não precisa viver.

Outro achado do vídeo é o governador se aliar às mulheres para impedir a propagação do vírus. Parece atitude do Século 15 da Era Cristã, mas existem visíveis traços de machismo na negação dos protocolos de combate à Covid-19. Machões consideram “frescura” usar máscara. Os mesmos líderes classistas limpam as mãos com álcool em gel após cumprimentarem os pobres nas carreatas, não para impedir a expansão do novo coronavírus.

Empoderamento da mulher, para esses machistas, é um palavrão não pelo tamanho do termo, mas pelo que ele significa.

Esses machistas não acompanham o heroísmo de profissionais da saúde, dos diferentes gêneros: enfermeiros, fisioterapeutas, médicos, farmacêuticos e tantos outros (como motoristas de ambulâncias, também heróicos).

As mulheres podem ainda ser minoria entre os médicos particulares, mas prevalecem no serviço público. São majoritárias na Enfermagem, principalmente entre os técnicos. E assim se repete nas áreas de nutrição, psicologia, bioquímica, fisioterapia, farmácia…

Portanto, Ronaldo Caiado está sendo é muito feliz em estabelecer parceria com cada mãe, cada filha, esposa, namorada, neta, prima, sobrinha, vizinha, colega de trabalho, chefe, professora etc.

Os machões terraplanistas negam a ciência do mesmo jeito que negam o machismo e o racismo. E a ida à Lua? Ficção! Veja a bandeira se mexendo onde não há vento.

Onde há muito vento é na caixa craniana de quem levanta falsas comparações com revezar o atendimento essencial durante 14 dias enquanto espera a abertura completa.

Nilson Gomes é jornalista.

Uma resposta para “Líderes empresariais aliam machismo a negação à ciência”

  1. Felipe disse:

    Muito bom seus artigos sempre acompanho. obrigado por compartilhar

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