É difícil apoiar Haddad mas pior é votar no fazendeiro

O país e o vilarejo insistem em acordar e discordar dos poucos que mamam nas vacas nacionais e contribuem para desnutrir todo tipo de gente

Mila Naves

Desmamando territórios por amor a um país, eu sigo como vaqueiro e professor desolado entre os vilarejos mais rurais que, de tão urbanos em ideias e asfalto, me faz pensar que estou em uma máquina do tempo de volta à Alemanha de 1935. Mas ainda é Brasil, é Goiás.

Na sala de aula, observo de um lado as meninas com laços de fita e os meninos usando as botas bem engraxadas. Na mesma sala de aula, eu também tenho muitas crianças com os olhos brilhantes à espera de um futuro melhor com um laço de fita e uma bota engraxada.

Todos os dias, quando volto para o Hotel Rubaiaty, lembro da minha infância quando o meu pai tinha cavalos correndo em nosso jardim e a minha mãe apenas se preocupava em plantar flores raras em canteiros da varanda. Sinto falta, mas não trocaria a minha liberdade por superioridade mais, não só porque a vida me ensinou que moedas não aguentam desaforos. Não trocaria a minha liberdade porque na Literatura descobri o que é viver sem a censura do mundo e dos humanos — que usam da linguagem de subversão para terem dois tipos de Sol durante o verão.

Paz e amor são utopias, mas prefiro pensar que é uma ideologia, porque assim eu resisto junto a muitos que não se venderam para fazerem parte de um país ou desse vilarejo.

Sentado com as minhas esporas e o meu chapéu, que um dia foi do meu avô, tomo o meu uísque e lembro da escritora francesa que roubou meu coração: a Comunistinha de boina vermelha que conheci na Rua Augusta com a Haddock Lobo em São Paulo. E penso que, se ainda tivesse alguma fazenda, teria pedido aquela mulher em casamento.

Entornando meu uísque, me dou conta de que a verdade é só uma: o povo brasileiro quer urrar um não ao leite que escorre na boca ruminante de poucos. Então, minha gente, é hora de organizar o pasto e não de abandonar a fazenda nacional. Penso assim porque, embora não goste do comunismo, gostaria de viver em um país comum em que as pessoas fossem capazes de esquecer os rótulos sociais vencidos da moralidade em troca da liberdade.

Feliz eu sou por ensinar às crianças, jovens e adultos o que sei e aprender com tantas pessoas o que ensino. Hoje olho para a ruazinha asfaltada em pura terra e imagino que as minhas reservas dariam para ter uma bela casa de campo amanhã. Conversaria em português e francês, teria meus filhos brincando no jardim com variados amiguinhos.

Levanto-me antes de pedir outra dose, porque, sóbrio, posso lhe dizer que é melhor jogar fora todos os rótulos: homofobia, racismo, egoísmo, vaidade, moralidade vencida, violência, a pirâmide social, as distopias, muitas manchetes das TVs e os baldes secos sem leite — enquanto poucos mamam nas vacas nacionais desnutrindo todo tipo de gente.

Bem sei o quanto é difícil votar no PT. Mas será pior votar no fazendeiro que só se preocupa com o churrasco debaixo do bigode preto do que com o vilarejo e o país que insistem em acordar.

Sem querer, vou ali esperançoso na procura do rumo certo apertar o Haddad.

Mila Naves é escritora.

[As pinturas são de Igor Morski]

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