Detran de Goiás: de foco de corrupção a território da competência e da correção moral

Trabalho de Marcos Roberto está melhor do que o previsto pelos otimistas e mais assustador do que o imaginado pelos pessimistas

Nilson Gomes

Especial para o Jornal Opção

Para a missão de reconstruir Goiás, o governador Ronaldo Caiado trouxe gente de Rondônia pra Educação (nota 5); do Rio de Janeiro pra Economia (nota 10); do Espírito Santo pra Segurança (8); de Brasília pra Administração (7), hoje na Codego (10); do Paraná pra Saneago (4) e Meio Ambiente (10). Além deles, Caiado escalou técnicos de distintas unidades da federação.

Alguns oposicionistas menos criativos chamam o conjunto de Legião Estrangeira. Pelos resultados, o justo é tratá-lo por Seleção Brasileira — não a do Tite: aquela do Saldanha.

Porém, para realizar a mais desafiadora tarefa, Caiado convocou um de Goiás mesmo, de Mozarlândia, vizinho de onde o governador vota, na região do Vale do Araguaia.

Há urgência em salvar o grande rio, mas antes era preciso drenar um pântano, o Detran, tradicional habitat de horripilantes monstros atolados na mistura putrefata de lama e dinheiro público.

Abram-se colchetes para uma explicação.

Marcos Roberto Silva, presidente do Detran-Goiás | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Ronaldo Caiado tem diversos filhos adotivos. Já criou centenas de pets e dezenas de meninos. E em sua casa os seres convivem maravilhosamente, sem importar o número de patas.

As visitas chegavam e se surpreendiam com o sujeito brigão lá do Congresso sentado num sofá repleto de cachorros e crianças, ele brincando com eles, uns escalando-lhe as costas, outros deitados nos ombros, um mosaico de pernas finas (dos cães, da molecada e do parlamentar).

Quando Marcos Roberto Silva chegou a Goiânia, não era mais criança, mas tinha tanto dinheiro que a canção sertaneja o definiria como primo primeiro de um cachorro.

Era um meninão. Um meninão feio. Conversava entortando o corpo para um lado e abaixando o rosto no sentido contrário.

Sonhava estudar, consertar os dentes, voltar para Mozarlândia com o ar de vencedor cortando a bruma (de fumaça) quente do Araguaia.

Foi descoberto por assessores caiadistas atuantes no lindo vale. Motivos: dava-se bem com as lideranças locais, demonstrava extraordinário poder de agregar e se diferenciava por ser confiável, leal, trabalhador, essas virtudes tão escassas aqui e no restante do planeta.

Quem o conheceu em sua terra, inclusive o autor destas linhas, batalhou até Marquim vir para Goiânia.

Marcos Roberto Silva é o nome do governador Ronaldo Caiado no Detran | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

A dedicação às campanhas anteriores de Caiado, a vocação para a política, as qualidades mencionadas e a cara de cachorro sem ração preencheram o currículo do recém-chegado: o então deputado federal o adotou, no melhor sentido do termo.

Marquim começou a trabalhar no Diretório Estadual do PFL e logo sabia tudo sobre o partido: lista de dirigentes do interior, onde era comissão provisória, que município teve as contas rejeitadas, qual está inativo, quem presta, quem é traíra.

Antes de entrar na faculdade de Direito, já era doutor em atas, prestações de contas de campanha, legislação eleitoral.

Não parou mais de crescer, sob pontos de vista profissional, intelectual, pessoal.

Virou um Marcão no tamanho da barriga, que sequer se aproxima do volume de seu prestígio.

Deixou de ser Marquin também porque os clientes passaram a chamá-lo de Doutor Marcos. Sim, ele tinha clientes.

O próprio Caiado confiou a prestação de contas de suas campanhas ao rapaz de Mozarlândia.

Não é preciso conviver com Caiado para saber quanto é criterioso com as questões legais, sobretudo relacionadas às conquistas de seus mandatos — pois o que sai das urnas é confirmado pelas autoridades do Judiciário, pleito após pleito, com a assinatura de Marcos Roberto Silva.

A clientela do doutor Marcos encheria uma Mozarlândia de figurões. Lembra do talento para agregar? Pois é, fidelíssimo a Caiado e ao DEM, mas seu escritório é uma salada de siglas.

Fecha-se um colchete e abra-se outro.

Tempos atrás, Marquim estava de moto quando um carro esmagou-lhe uma perna.

Ficou meses, anos, com mais ferragens no corpo que o Robocop. E não largou a freguesia na chapada.

Trabalhou durante todo o tratamento, de um lado para outro atendendo aos carentes por consultoria qualificada.

No caótico trânsito de Goiânia, circulava sobre a moto arrebentada pela batida, pontual como sempre, sem reclamar.

Uma perna cheia de parafusos enormes, esticada ao lado do tanque da moto, a outra passando marcha.

Colocava a muleta sobre o banco e sentava. Imagine a cena…

O presidente do Detran mandaria apreender moto, muleta, CNH…

Foi esse cara, esforçado desse tanto, que Caiado tirou de seu sofá, pediu licença aos cachorros e aos meninos, e levou para moralizar o Detran.

Com Marquim na presidência, quem dirige o Detran é o próprio governador.

Sob inspiração e acompanhamento do pai adotivo, drenou o pântano armado pelos princípios, os valores, as lições, esses componentes da riqueza que juntou da infância no Vale do Araguaia ao amadurecimento como advogado e gestor.

Um resultado das ações de Marcos Roberto está exposto em imenso cartaz colado na frente do Palácio Pedro Ludovico, a sede do governo: o Detran mudou de fase. Está melhor do que pensavam os otimistas, entre eles integrantes do próprio governo.

Seu cartaz, no entanto, é ainda maior com os motoristas.

Marquim azulejou o pântano — caaaaaaaalma, Andréa Vulcanis, a secretária que parágrafos atrás levou nota 10 por sobreviver, com êxito e probidade, entre sabotagens e limpezas no Meio Ambiente.

Ladrilhar o lodaçal teve consequência imediata na profusão de atitudes da nova diretoria do Detran: desativou a central de mutretas, transformada em fábrica de notícias agradáveis.

O dinheiro antes surrupiado por ladrões, agora fica no bolso do cidadão.

Os piores pesadelos dos marginais estão se realizando: nada de troca inexplicável de placas, nada de arranjos para gerar lucro aos salafrários, nada de susto nas renovações – susto, mesmo, apenas para quem achava que nada mudaria naquela central de negociatas.

A taxa que enriquecia pilantras se aproximou do razoável.

A carteira que o jovem pobre não conseguia tirar, agora consegue, é a CNH Social, grátis para quem necessita.

Não basta ao presidente prestar. Não basta prestar serviço.

Marquim teve antecessores honestos, como Bráulio Moraes, exceção que abre espaço para se relatar a regra.

Ainda nos tempos de PMDB maguitista, Irondes Morais foi convidado para presidir o Detran.

Tomou posse, aboletou-se na cadeira de rodinhas, tocou o telefone de linha interna. Um grupo queria lhe dar as boas-vindas. Nunca fechara porta para ninguém, abriu para a turma.

Assunto: somos da área tal e vamos trazer para o senhor x milhões por mês; aqueles ali são de tal setor e o repasse deles é tanto; e assim por diante.

Irondes, probo até mandar parar, mandou os ratos pararem. Não, comigo não tem isso, não tem propina, vocês podem trabalhar normalmente, não precisam trazer dinheiro pra mim nem pra ninguém.

O dotô num intendeu direito: nóis num perguntou quanto o dotô qué, nóis sabe o maço de nota que nóis tem de entregar pra quem o dotô mandá buscá.

Irondes virou botijão de gás e vazou. Nunca mais voltou ao Detran nem para revalidar documento.

Marquim chegou ao Detran empoderado, como diriam os politicamente corretos, por isso está conseguindo fazer daquilo um território de alegria.

Se ele é o Caiado dali, está agindo como Caiado: mesmo vacinado, bandido pega até sarampo quando alguém fala em Marquim do Detran.

Ainda há muito a ser feito, armadilhas a ser desativadas, tapetes exigindo varrição em vez de puxadas, muita novidade por vir. Eis o porvir.

Com os dentes desentortados quando ainda era empregado do PFL, Marquim do Detran está desentortando as boquinhas viciadas em mamatas.

Lembra da perna de Robocop, cheia de parafusos?

Ficou ajeitada, pois ocorreu o milagre de não cair da motinha nem bater novamente.

Está preparado para chutar vagabundo que pintar por ali.

E sai da frente que o Robocop está pronto para continuar tirando do caminho os ladravazes e seus esquemas.

Nilson Gomes é jornalista.

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