Deputado eleito e médico Zacarias Calil diz que o Brasil não pode ser lixeira mundial de agrotóxicos

O uso de defensivos é necessário, mas que faltam normas seguras; futura ministra da Agricultura disse que debate terá “muito espaço” em sua gestão


Zacharias Calil, médico e deputado federal eleito: “Somos hoje uma grande lixeira química, para onde são direcionados produtos perigosos que outros países conseguiram banir” |Foto: Arquivo

O deputado federal eleito Zacharias Calil (DEM) afirma que vai participar ativamente dos debates sobre o uso de agrotóxicos, contribuindo de forma científica, não só com sua experiência como cirurgião pediátrico com atuação de referência internacional no tratamento de crianças com malformações — em especial gêmeos siameses — como trazendo para as discussões pesquisadores com importantes estudos nessa área. Ele chegará à Câmara dos Deputados, no início da próxima legislatura, em um momento importante, em que o projeto de lei que flexibiliza a Lei dos Agrotóxicos será um dos principais assuntos em discussão. O projeto foi aprovado em junho deste ano por uma comissão especial da Câmara.

Zacharias Calil tem estudado profundamente o tema e já mantém contato com outros cientistas, como a professora Sônia Corina Hess, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e Wanderley Pignatti, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), para fundamentar as discussões. Ele observa que a futura ministra da Agricultura, a deputada federal Tereza Cristina (DEM-MS), líder da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), disse na semana passada que a pauta sobre as modificações nas regras sobre agrotóxicos “terá muito espaço” para discussões dentro da pasta. “Cada um vai estar dentro da sua caixa opinando, os três que sempre fizeram isso: Agricultura, Saúde, através da Anvisa, e MMA (Ministério do Meio Ambiente)”, declarou a futura ministra.

“Eu farei parte da bancada da Saúde. Sou a favor de regulamentar, porque o uso sem critérios bem definidos traz todo tipo de prejuízos, inclusive para a saúde dos seres humanos, dos animais, e do ambiente”, define Zacharias, pontuando que não é ativista nem ambientalista. “Respeito o meio ambiente, com preocupação com a saúde baseado em trabalhos científicos feitos por pessoas sérias e pelo próprio governo, por meio da Anvisa”, destaca o deputado. “Quero a regulamentação e estarei do lado da ministra para isso”, anuncia. “Como médico e cientista, esse assunto me interessa e eu não poderia deixar de participar desse debate.”

“Lixeira química”

Zacharias Calil defende que sejam proibidos no Brasil os princípios ativos banidos na União Europeia e justifica: “30% dos princípios ativos com uso autorizado no Brasil são proibidos na União Europeia, devido aos seus nefastos efeitos sobre a saúde humana e o ambiente; como a União Europeia trata o assunto tecnicamente, ao embasar a legislação brasileira na daqueles países, estaríamos poupando muito tempo e dinheiro”. O médico observa que, enquanto o Brasil não proibir as substâncias que outros países baniram, eles continuarão enviando os piores venenos para cá, para serem aplicados em território brasileiro. “Somos hoje uma grande lixeira química, para onde são direcionados produtos perigosos que outros países conseguiram banir.”

Dos 504 agrotóxicos registrados no Brasil, 149 estão proibidos na União Europeia. Isso corresponde a 30% do total de substâncias. “É uma quantidade muito expressiva”, pondera Zacharias Calil, acrescentando outro dado preocupante: dois dos produtos mais vendidos no Brasil são banidos na EU: o acefato, terceiro produto mais vendido no Brasil, foi proibido no bloco europeu em 2003, e a atrazina, que ainda tem o agravante de ter tolerância de resíduos, no Brasil, 20 vezes maior do que na UE. “No caso do glifosato, o agrotóxico mais vendido no Brasil, a legislação nacional permite um resíduo 5 mil vezes maior do que o tolerado no bloco europeu”, pontua o deputado eleito. “Todos esses dados, que são reais, têm de ser colocados na mesa para uma discussão qualificada, com argumentos científicos”, defende Zacharias Calil.

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