Agrotóxicos precisam ser regulamentados

Trabalhando há quase duas décadas com a má formação congênita e a separação de gêmeos siameses, sei o quanto o acúmulo de agrotóxicos no corpo contribui para esses quadros

Zacharias Calil

Embora muito produtivo, o Sudoeste de Goiás tem revelado uma triste realidade: agrotóxicos extremamente maléficos à saúde e ao meio ambiente são usados ilegalmente e sem qualquer controle. Na semana passada foram apreendidas duas toneladas de um destes produtos, provenientes da China; esta semana mais 400 quilos foram apreendidos. Esse produto chinês é proibido no Brasil e em mais de 130 outros países. É urgente regulamentar e fiscalizar o uso de agrotóxicos. A nossa relação com o meio ambiente e a forma como o exploramos, principalmente na alimentação, podem determinar a qualidade de nossas vidas. O uso indiscriminado de agrotóxicos além de causar desequilíbrio no ecossistema e de trazer danos irreparáveis ao solo, ao lençol freático, as águas e meio ambiente como um todo, está diretamente ligado a diversos danos à nossa saúde.

Trabalhando há quase duas décadas com a má formação congênita e a separação de gêmeos siameses, sei o quanto o acúmulo de agrotóxicos no corpo contribui para esses quadros. Atendi já casos de gêmeos siamês com pais que trabalhavam no corte de cana-de-açúcar e estavam expostos diretamente aos produtos químicos usados na agricultura. E inúmeras outras doenças podem estar relacionadas com a ingestão destes tóxicos. A Organização Mundial de Saúde estima que cerca de 20 mil mortes por ano estão relacionadas diretamente ao uso abusivo de agrotóxico e mais de 1 milhão de pessoas sofrem de intoxicação aguda e não intencional só nos países de terceiro mundo. Nós que trabalhamos na saúde percebemos essa causalidade na prática.

E o uso excessivo e indiscriminado de agrotóxicos está ligado à venda ilegal, ao contrabando de produtos proibidos, como nos casos de apreensão aqui em nosso Estado. Além dos níveis tóxicos extremamente altos, que justificam a proibição, a venda de forma ilegal descontrola o descarte de embalagens em sua forma adequada, segura e prejudica ainda mais o meio ambiente. E mais, a ilegalidade impede o cálculo do volume dos produtos usados, dificultando o trabalho dos órgãos reguladores e fiscalizadores.

Como médico e agora prestes a assumir uma cadeira na Câmara Federal por nosso Estado, sinto-me na obrigação de colocar em discussão e propor uma legislação que regule o uso de agrotóxicos, baseado nos dados que a ciência nos aponta para criar parâmetros determinados e que ao mesmo tempo incremente a fiscalização do uso de químico na agricultura.

Zacharias Calil é cirurgião pediátrico e deputado federal eleito pelo DEM de Goiás.

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