A estrada tortuosa que Biden e os Estados Unidos terão de percorrer

Resultados do pleito ilustram como a nação mais poderosa do mundo encontra-se dividida e prenunciam o tamanho dos desafios que o democrata terá de enfrentar

Vinicius de Souza Melo

Especial para o Jornal Opção

Escrevi a primeira versão deste texto no dia 5 de novembro de 2020, em meio à apuração dos votos da eleição presidencial dos Estados Unidos. A vitória do democrata Joe Biden parecia cada vez mais provável; enquanto isso, o presidente Donald Trump persistia em uma tentativa de desacreditar o sistema de votos pelo correio, alegando — sem apresentar provas — fraudes, ao mesmo tempo em que seus apoiadores realizavam manifestações exigindo o fim da contagem dos votos.

Kamala Harris e Joe Biden: novos tempos para os Estados Unidos | Foto: Divulgação/Campanha Joe Biden

Na quarta-feira, 11, as eleições estavam de fato encerradas. Joe Biden conquistou 306 votos de delegados, o suficiente para ser eleito no Colégio Eleitoral, de acordo com a peculiar legislação do país. Trump continua a sustentar a narrativa de ter sido vítima de uma fraude comandada pelo Partido Democrata. Fraude que colocaria em xeque a lisura do processo eleitoral. O republicano está sozinho. O secretário de Estado, Mike Pompeo, declarou em uma coletiva de imprensa que haveria uma transição suave para uma segunda administração Trump (sic). Ele demonstra estar alinhado com seu superior no questionamento da eleição. O senador Mitch McConnell usou uma linguagem branda para dizer que o presidente tem o direito de exigir a recontagem de votos em alguns Estados.

Esta situação, impensável em pleitos anteriores, ilustra como a nação mais poderosa do mundo encontra-se profundamente dividida — e prenuncia o tamanho dos desafios que Biden terá à frente pelos próximos quatro anos.

Donald Trump: suas “pautas” o derrotaram | Foto: Reprodução

A derrota de Trump não significa a derrota do trumpismo. Os apoiadores do presidente farão parte do cenário político dos EUA por um período considerável, e provavelmente o farão de forma ativa. Por mais confortável que seja para a mente humana a busca de um “bode expiatório”, alguém se transferir culpas, isso não cabe em uma análise de conjuntura. Afinal, Trump não criou o racismo, o individualismo irracional, a xenofobia, o culto à violência, a crença cega no uso da força e da capacidade dos EUA seguirem isolados no sistema internacional. Tais questões sempre estiveram presentes na sociedade estadunidense, e prosperaram devido a um cenário de crescimento da desigualdade econômica agravados por momentos como a crise de 2008, na qual milhares de famílias perderam seu patrimônio, enquanto assistiam à contradição de os grandes bancos que estavam no epicentro da bolha imobiliária não apenas não sofrerem com as consequências de suas políticas, mas também receberem aportes econômicos do governo federal.

Trump não é a causa, e sim um sintoma de uma crise causada pelo acúmulo de contradições sociais. Sintoma que agravou a mesma crise, retroalimentando-a. Sua Presidência deu legitimidade aos que acreditam que os problemas do país são responsabilidade de uma casta privilegiada de minorias sociais que estariam sendo beneficiadas em prejuízo dos trabalhadores brancos de chão de fábrica; de ambientalistas que, em nome do combate a uma ameaça que não se mostra de forma escancarada — a mudança climática — eliminaram milhares de postos de trabalho em atividades econômicas como a indústria do carvão; de acadêmicos que estariam atacando a história da nação em nome de um projeto de “justiça social”; de interesses internacionais que, por meio de acordos multilaterais que estariam minando a soberania nacional para a formação de um suposto “governo mundial”, que escravizaria os indivíduos e eliminaria as liberdades individuais.

Por isso, a vitória de Joe Biden é o primeiro capítulo de um governo Democrata que terá como desafio lidar com as contradições que levaram à ascensão da extrema-direita. Será o início de um processo de longo prazo, que não se limitará a um ou dois mandatos presidenciais — um consenso deverá ser formado em torno de compromissos para o futuro dos EUA.

As questões que se apresentam são muitas: a crise sanitária causada pela pandemia, que não apenas vitimou milhares de americanos, mas também interrompeu um ciclo de crescimento econômico que vinha desde o governo de Barack Obama. Há o racismo estrutural que permeia a sociedade, evidenciado de forma bárbara pela morte de George Floyd por um policial. Há a concentração de riqueza, que, desde os anos 1970, tem beneficiado cada vez mais o 1% mais rico da população em detrimento dos demais estadunidenses e que, juntamente com a decadência de indústrias tradicionais como a do carvão, aço e automóveis, tem contribuído para o surgimento de bolsões de pobreza semelhantes aos encontrados em países em desenvolvimento. Há também os desafios da transição para a “economia verde”, com a redução da dependência de combustíveis fósseis; e a retomada do multilateralismo e do papel de liderança dos Estados Unidos após quatro anos de descrédito das instituições internacionais e defesa de um isolamento que afetou as relações com aliados de longa data.

Mitch McConnell pode ser uma pedra no caminho de Biden no Senado | Foto: Reprodução

Biden poderá ter dificuldade no Senado

A administração Biden poderá ter de lidar com um Congresso em que ao menos uma das Casas Legislativas estará sob controle da oposição — os resultados demonstram que, apesar do equilíbrio, há uma tendência de que os democratas mantenham o controle da Câmara Baixa, porém com menos assentos, e de que os republicanos mantenham o controle do Senado — ainda que com diferença de apenas uma cadeira. Isto ocorre com o partido tendo ao leme o reeleito Mitch McConnell, senador pelo Estado do Kentucky que ficou notório por sua atuação no bloqueio de pautas democratas. McConnell tem orgulho em se referir a si mesmo como “Grim Reaper”, “O Ceifador/Ceifeiro Sinistro” (uma alusão à representação popular da morte como um esqueleto vestindo uma mortalha e carregando uma foice), devido a esta atuação.

(O fato de os dois assentos no Senado do Estado da Geórgia ainda estarem sob disputa — haverá um segundo turno para esta eleição em janeiro, uma vez que nenhum candidato obteve o número de votos necessário — implica na possibilidade de maioria democrata nas duas casas legislativas, o que explica o fato de McConnell fazer coro a Trump no questionamento da eleição.)

A esta conjuntura no Poder Legislativo, soma-se o cenário no Judiciário. A Suprema Corte tem uma maioria de membros com tendências conservadoras, graças às indicações feitas por Trump, sendo a última delas a da ultraconservadora Amy Coney Barrett. Ela foi nomeada após a morte da icônica Ruth Bader Ginsburg, cuja atuação na corte constitucional foi marcada pela defesa de pautas progressistas. Barrett poderia ter um papel decisivo em iniciativas caras aos republicanos mais conservadores, com a reversão da decisão do caso Roe vs Wade, que definiu o direito à interrupção da gravidez como uma garantia da Constituição do país.

Dito isto, confirmada a vitória da chapa Biden-Harris após as polêmicas pós-pleito (recontagem, judicialização e todas as possíveis demais fases), a eleição será o primeiro passo em uma estrada tortuosa, durante os próximos quatro anos; o desafio não é impossível, mas certamente será árduo.

Vinícius de Souza Melo é mestre em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás.

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