Um candidato da terceira via só tende a subir se Bolsonaro derreter ainda mais. Se passar Bolsonaro, a tendência é que suba, cole em Lula e, até, o supere

As pesquisas continuam mostrando que há espaço para um candidato da terceira via — desde, claro, que a população preste atenção no seu discurso e o avalie como consistente, e não como mero artifício político.

No momento, o quadro está polarizado entre o ex-presidente Lula da Silva, do PT, e o presidente Jair Bolsonaro, sem partido. Há pesquisas que registram o descolamento do petista e um certo derretimento do líder da direita.

Por que os nomes da terceira via não crescem? Primeiro, porque ainda não estão sendo observados com atenção, possivelmente porque os eleitores ainda não acreditam que alguns deles serão candidatos. Segundo, porque eles — exceto talvez Ciro Gomes, do PDT — não adotaram, até agora, um discurso que desperte o interesse dos eleitores. Portanto, como não estão sendo avaliados, acabam por não serem vistos como alternativas a Lula da Silva e a Bolsonaro. Terceiro, há candidatos demais — não há concentração de nomes.

É provável que, se Bolsonaro cair mais um pouco, mantendo ao seu lado apenas os eleitorais radicalizados — cerca de 15% (há outra parte que o apoia talvez não porque o aprecie tanto, e sim para não ficar ao lado do PT) —, um candidato de centro, a partir da redução do número de candidatos, poderá subir e, até, superá-lo.

Se um candidato de centro superar Bolsonaro, a tendência é que, ao ser observado com mais interesse — criando uma expectativa de poder —, se suas ideias ganharem aprovação popular, acabe por ser aproximar de Lula da Silva.

Ciro Gomes

É provável que um candidato para derrotar Lula da Silva tenha de adotar um discurso moderado — de centro, ou melhor, de centro-direita. Porque o campo da esquerda está ocupado pelo petista, e é por isso que Ciro Gomes, embora conhecido dos eleitores, não sobe nas pesquisas de intenção de voto. Ele é visto como um político de esquerda (é filiado ao PDT, partido criado pelo nacionalista Leonel Brizola), ou de centro-esquerda. Mas o eleitor de esquerda já optou pelo petista.

Aquele político que se apresentar como de centro-direita, com um discurso firme — que fale ao futuro contra o passado do PT e contra o presente de Bolsonaro —, tanto no combate à corrupção como na proposição de um programa social e de um projeto de recuperação da economia consistentes, tem chance de subir e, até, de ganhar a eleição de 2022.

Este político existe? É provável que sim. O que falta é aparecer mais e ser ouvido e visto pelos eleitores.

Sergio Moro

O ex-ministro da Justiça e ex-juiz Sergio Moro, de 49 anos, tem apelo popular. Tanto que, mesmo sem estar em pré-campanha, geralmente aparece empatado com Ciro Gomes em terceiro lugar. Há quem acredite que não será candidato, mas ele já admite que irá disputar mandato de presidente (fala-se também no Senado, pelo Paraná). Trata-se de um político de centro-direita. A população parece não percebê-lo como político, o que talvez seja um trunfo (embora a posição de antipolítico de Bolsonaro já não esteja agradando tanto os eleitores, que parecem considerá-la como falsa).

Sergio Moro, ex-juiz e ex-ministro da Justiça, e Rodrigo Pacheco, presidente do Senado: alternativas para 2022 | Foto: Reprodução

A principal bandeira de Sergio Moro é o combate à corrupção. Porém, se não incorporar outros discursos, a respeito do social e da crise econômica, pode não convencer os eleitores de que tem condições de governar um país imenso, rico e heterogêneo como o Brasil. Falta-lhe, por exemplo, experiência política. Como lidaria, se eleito, com o Congresso? Pode-se não gostar do Centrão, mas não se governa sem ele.

Rodrigo Pacheco

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, de 44 anos, que está trocando o Democratas de ACM Neto pelo PSD de Gilberto Kassab, é cotado para disputar a Presidência da República.

Senador por Minas Gerais (nasceu em Rondônia), Rodrigo Pacheco é moderado e equilibrado. É o típico político mineiro — articulador, discreto, mas posicionado. Talvez seja o político que os eleitores querem para escapar aos “radicalizados” Lula da Silva e Bolsonaro. Mas precisa ter discurso mais firme. Numa disputa contra dois candidatos fortes, se ficar muito em cima do muro, os eleitores podem acabar deixando-o lá. Ele precisa ser mais posicionado e precisa apresentar seu ideário. Mais do que derrotar o petista e o presidente, os eleitores querem bancar um postulante que contribua para melhorar sua vida. Na verdade, por mais céticos que estejam em relação aos discursos dos políticos, os eleitores prestam atenção no que falam.

No momento, o que se sabe de Rodrigo Pacheco é pouco para avaliá-lo. Não basta ser moderado, agregador e ter ideias vagas sobre vários temas. É preciso ter um projeto de país crível.

Há quem postule que, no fim, Rodrigo Pacheco, via PSD, vai lutar para ser vice de Lula da Silva. Se for verdadeiro, desde já, seu discurso fraquejará. Porque parte dos eleitores está com o petista mais para dizer “não” a Bolsonaro. Se surgir uma alternativa no horizonte, podem desistir do ex-presidente e bancá-la. Porém, se, de cara, ficar configurado que o senador quer ser vice de Lula, sua imagem ficará abalada. Fala-se também em composição com Sergio Moro (que deve se filiar ao Podemos).

João Doria e Eduardo Leite

As pesquisas de intenção de voto sugerem que, no momento, tanto João Doria, governador de São Paulo, quanto Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, não são pré-candidatos fortes, ao menos no momento. Mas o gaúcho parece galvanizar mais a atenção dos eleitores. Parece ter mais conexão com as pessoas. São Paulo foi decisivo para a vacinação contra a Covid-19 e o crescimento de sua economia é maior do que o do Brasil. Ainda assim, João Doria não deslancha. Porque, não se sabe. Talvez seu estilo “mauricinho” não agrade o eleitorado do país.

Datena e Mandetta

O apresentador de televisão José Luiz Datena, do PSL, afirma que será candidato a presidente (o mais provável é que dispute mandato de senador por São Paulo). Pode até ser que não, mas Datena parece ser uma espécie de Bolsonaro que quer trocar o jornalismo pela política. Falta-lhe experiência em termos de gestão e de convívio com o meio político. As pesquisas mostram que não é bem avaliado.

O médico Luiz Henrique Mandetta teve bom desempenho como ministro da Saúde do governo de Bolsonaro. Mas, estranhamente, não emplaca nas pesquisas. Talvez seu discurso moderado e monotemático (sempre saúde, vacinação) não empolgue os eleitores.

Vale lembrar que, quando acabou a Segunda Guerra Mundial, em 1945, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill era ovacionado por todo o mundo. Com sua coragem, ele havia liderado a frente que derrotou o nazista Adolf Hitler e manteve a democracia dominante na Europa. Porém, na primeira eleição pós-guerra, ele foi derrotado pelos trabalhistas. Motivo: os eleitores não queriam ouvir mais falar de guerra, e sim de reconstrução do país, com empregos, casas reformadas e programas sociais, e por isso elegeram um primeiro-ministro trabalhista. Mandetta, assim como outros candidatos, tem de ficar de olho na questão: os brasileiros estão cansados da tragédia da Covid, que matou 605 mil pessoas. Não querem e não vão esquecê-la, mas os candidatos precisam ter um discurso para o dia seguinte — quer dizer, para a reconstrução.