2 tribunais, 2 pesos, 2 medidas

TCE-RO doa pra hospital sua sede de R$ 50 milhões e mais R$ 25 milhões para o fundo de previdência. TCE-GO impede que motoristas economizem R$ 50 milhões com redução de taxa do Detran

Nilson Gomes

Os integrantes do Tribunal de Contas do Estado de Rondônia passaram os últimos anos economizando dinheiro para fazer sua nova sede, com 12 andares.

Juntaram R$ 50 milhões.

O prédio atual tem quase meio século, problemas com infiltração, servidores chiando por falta de espaço.

Quando chove lá fora, chove ali dentro.

Sede do TCE de Rondônia | Foto: Diêgo Holanda/G1

Iam dar start nas obras quando visitaram o maior hospital público rondoniense. Suas excelências ficaram com vergonha: pra que construir um palacete num Estado em que a Saúde do povo é tão precária?

A resposta saiu no finzinho de maio: o TCE-RO decidiu doar todo o seu dinheiro para erguer hospital com 280 leitos em 17 mil metros quadrados.

Parênteses para comparação: o Hugol, com 510 leitos em que mais da metade nunca atendeu ninguém, começou a ser construído em 2013 por R$ 57 milhões e, de aditivo em aditivo, foi entregue em 2015 por R$ 168 milhões.

Como em todo o Brasil, Rondônia sofre com aposentadorias de servidores, o que atrapalha investimentos em infraestrutura e prestação de serviços básicos, inclusive a saúde.

Não seja por isso: o TCE vai vender suas quatro sedes regionais, avaliadas em R$ 25 milhões, e doar para o fundo de previdência de Rondônia.

Enquanto isso, por aqui…

O pessoal está por aqui com o Tribunal de Contas do Estado de Goiás.

O governador Ronaldo Caiado reduziu ou extinguiu 22 taxas do Detran. Para dar ideia, eram cobrados mais de R$ 30 para alguém do departamento dar um clique no computador.

Eram serviços do próprio Detran, que ficava com o dinheiro. Ninguém disse nada contra a desoneração. Deu errado quando o novo governador mexeu nos cofres das máfias. Por exemplo, tirou R$ 182 do pedido de financiamento — o coitado ia pegar dinheiro a juro em banco para comprar o carro em parcelas e a primeira facada quem lhe dava era o poder público, via empresa terceirizada.

Caiado seguiu desonerando, inclusive com a CNH Social (carteira grátis para pessoas pobres), até que colocou a mão numa caixa de formiga-cabo-verde: o lucro das vistorias, que caiu de R$ 175,76 para R$ 108 cada.

Pra quê…

As reduções e isenções fariam sobrar R$ 200 milhões por ano no bolso dos motoristas. Agora, serão R$ 150 milhões, pois o TCE-GO mandou o Estado voltar a extorquir em R$ 175,76. O Detran é obrigado a obedecer e faturar para a firma autorizada.

Que raciocínio o tribunal usou?

O inverso de seu congênere de Rondônia: “Se a gente pode arrebentar o povo em quatro pedaços, porque vamos nos contentar em partir todo mundo apenas no meio?”

Igual lógica foi aplicada no axioma vivido pelo TCE-RO: inaugurada em 2016, a nova sede da corte de contas goiana tinha gasto previsto de R$ 45 milhões e acabou custando R$ 101 milhões.

Autoridades pediram a interdição do Hospital Materno-Infantil porque, mesmo depois de duas reformas seguidas feitas no governo passado, a unidade de saúde continuava sendo um risco para a vida das crianças.

Se, tipo os de Rondônia, os conselheiros goianos tivessem visitado o hospital resolveriam fazer da nova sede do TCE-GO a nova sede do HMI?

Seria o mais chique, mais belo, mais espaçoso hospital para gestantes e crianças do Brasil.

As grávidas e os bebês goianos merecem.

Os motoristas goianos merecem.

Com a palavra, o TCE — o de Goiás, porque o de Rondônia já recomeçou a juntar os trocados novamente.

Nilson Gomes, jornalista, integra a equipe do governador de Goiás, Ronaldo Caiado.

Uma resposta para “2 tribunais, 2 pesos, 2 medidas”

  1. Donizeti Borges disse:

    Mas o governo de Goias nunca cumpriu as advertências do TCE, por que agora tem de obedecer, se é em prejuizo da população? Esse TCE é uma aberraçao. Isso nao seria retalhaçao ao governo Caiado, quem deferiu o pedido da empresa? Kkkk

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